Faça aqui o seu
Convite aos Leitores: Deixe aqui a sua Opinião
Página inicial  >  Blogues JL  >  José Saramago  >  O que eu vejo daqui

José Saramago - testemunho de Gonçalo M. Tavares

O que eu vejo daqui

Gonçalo M. Tavares escreve sobre o Nobel, a propósito da obra As Intermitências da Morte, no JL 915, de 26 de Outubro de 2005

Gonçalo M. Tavares
15:07 Sexta, 18 de Junho de 2010
Partilhe este artigo:
"No começo do progresso supunha-se, tanto com razão como sem ela, estar uma iniciativa "moral", que não pode descansar enquanto o melhor não for a realidade." Peter Sloterdijk

1. Início

Começa quase sempre por uma impossibi-lidade já instalada. Isto é: não se anuncia apenas um acontecimento improvável, o leitor está perante um facto impossível que já aconteceu. E em que sítio aconteceu? Neste: na exacta linha do livro que o coloca no mundo.
Lá fora, como se sabe, não acontece o que um único indivíduo quer, pois os homens, as coi-sas, o destino e os animais do mundo não são nossos empregados de mesa; no entanto quando se escreve um livro de .cção o que acontece é apenas determinado por uma certa associação entre letras; letras essas que, encostadas umas às outras, por vezes não se contentam apenas com o evitar da queda individual.

2. Meio

Trata-se, portanto, de um desvio em relação ao previsível e ao pos-sível; por vezes estamos mesmo perante uma catástrofe ocorrida na lógica dos acontecimentos. Não uma catástrofe lógica, esclareça-se, mas uma catástrofe na lógica; uma brecha tensa que se abre entre o já visto fora do livro, e o que vemos dentro do livro.
No ponto de partida destes romances não existem assim jogos de diplomacia com a realidade; ninguém pede permissão, com a educação e delicadeza bem medidas, ao Real, para instalar a não realidade; a impossibilidade absoluta aí está já arrumada no meio da casa da realidade; agora é esta, sim, que terá de se adaptar; de responder, de se defender -no limite.
No início, portanto, a .cção manda, o: E se isto fosse assim...? impõe-se; uma hipótese impossível limpa já os sapatos ao tapete de entrada; e não há possibilidade de voltar atrás. Estamos na primeira página ou na quarta e nada podemos fazer: aceitemos o inverosímil ponto de partida e olhemos para o que a seguir sucede.
E a seguir à hipótese impossível encontramos um conjunto de consequências possíveis. Trata-se de experimentar variações nas possíveis consequências (mais alto, mais baixo, mais claro, mais escuro).
Estamos pois perante uma mistura entre hipótese literária (que instala a situação do livro) e instrumentos de análise quase cientí.cos que olham, como um anatomista pro.ssio-nal, para o que poderia realmente acontecer -se primeiro acontecesse o impossível.
Trata-se no fundo de uma experiência. O que poderia suceder se misturássemos estas duas substâncias (leia-se: estes dois acontecimentos) que bem sabemos não serem misturáveis? A proposta é, em síntese, e numa descrição simpli.cada: vamos pensar racionalmente nas consequências de um facto inventado literariamente e que só na literatura pode existir.
Note-se que a catástrofe na lógica das coisas do mundo poderá passar, estranhamente, pela própria suspensão das catástrofes reais. A morte, por exemplo, que, como uma máquina, por vezes funciona outras vezes não. O que aconteceria se a morte, em vez de fazer o seu trabalho, assobiasse para o lado e preguiçasse (como um bom humano) ou avariasse (como a boa máquina)? (Esta particular experiência literário-cientí.ca parece surgir, por exemplo, no livro Intermitências da Morte).
Desenvolver literariamente as consequências de um facto improvável permite compreender as fendas, os circuitos, as .xações, os perigos, os mecanismos (e também as muitas e diversas alegrias) daquilo que está realmente a acontecer no mundo. Sem a capacidade de .ccionar, um homem nem sequer saberia escolher o gesto mais e.caz para se sentar numa cadeira. As minhas mãos sabem lidar com o que existe porque a minha cabeça sabe lidar com o que poderia existir eis uma formulação possível para de.nir um animal lúcido.

3. Fim

Numa contabilidade de merceeiro metafísico, que tira o lápis de detrás da orelha e escreve, numa folha amarrotada, algarismos que assinalam e registam numa tabela, de um lado, o que vemos, com os olhos, no mundo -e do outro o que imaginamos; com base então nessa contabilidade diríamos o seguinte: o número de coisas e acon-tecimentos (mistura entre coisas) impossíveis é in.nitamente supe-rior ao número de coisas e acontecimentos possíveis.
É evidente pois que os recursos da realidade (o que inclui a existência individual, o cobalto e o petróleo) se esgotarão primeiro que os recursos da .cção.
Um homem poderá dizer: já vi tudo -e o seu tédio pode ser aceite como consequência de um excepcional poder de observação (vê tão bem que já viu tudo); mas se um Homem disser: já pensei tudo apenas confessa a sua limitação intelectual. Já não é o mundo previsível e limitado que tem culpa do seu tédio, mas é a sua própria cabeça a culpada. Não me aborreço porque o mundo não tem imaginação; aborreço-me porque eu não tenho imaginação.
A .cção é, assim, em primeiro lugar, uma iniciativa mental (a literatura que sai da "alma" e de outros órgãos ainda mais improváveis parece cometer o pecado inicial, perdoe-se a expressão, de partir da canalização errada), sendo pois a .cção uma iniciativa mental é, pela própria natureza da sua origem, interminável: podemos tentar contar o número de coisas possíveis, mas nunca poderemos contar, até ao .m, o número de possíveis invenções de coisas muito improváveis ou impossíveis felizmente para a ficção, infelizmente para nós, morreremos antes.

 

Artigos Relacionados:
Faça login pelo Facebook e comente este artigo!
 
 
Aumentar texto  Aumentar texto Diminuir texto  Diminuir texto ImprimirImprimir Enviar por emailEnviar por email
Partilhe este artigo:
 
 
PUB
 
Grupo ImpresaACAP