Quarta-feira, 17 Mar
FARMÁCIAS:   Lisboa - Farmácia ...
    |    TRÂNSITO:   Albufeira  
Trânsito condicionado na A2 (Auto-estrada do Sul) no sentido Algarve - Lisboa entre o nó da A22 (Via do Infante) e o nó de Silves (Manutenção na via esquerda).
  A2
    |    TEMPO:   Lisboa   Parcialmente nublado   min: 9ºC | máx: 17ºC
Página inicial  >  Blogues  >  Idiotsincrasias  >  O que dá sair à rua

O que dá sair à rua

Mini-aventura de um sub-suburbano em Lisboa

Luís Ribeiro
16:25 Segunda-feira, 13 de Abr de 2009

A VISÃO fica em Laveiras. Laveiras é um subúrbio de Paço de Arcos. Paço de Arcos é um subúrbio de Lisboa. Logo, trabalho num sub-subúrbio. Daí não vem grande mal ao mundo. Demoro dez minutos a chegar a casa, a praia está à mão de semear, a zona não é bonita nem feia, antes pelo contrário. Mas há uma coisa de que todos os meus colegas sub-suburbanos se queixam: não andam a pé em Lisboa, não se passeiam por Lisboa, não usam os transportes públicos de Lisboa.

Até 2 de Abril, queixava-me do mesmo.

Nessa quinta-feira à tarde, chamei um táxi e fui entrevistar um tipo da Agência Europeia do Ambiente, a meio da Avenida 5 de Outubro. A conversa passou por emissões de dióxido de carbono e, no fim, a minha consciência ambiental impediu-me de voltar a apanhar um táxi para as Amoreiras, o meu destino seguinte. Decidi ir a pé até ao Saldanha, apanhar o metro até ao Rato e voltar a dar corda aos sapatos até lá acima. Enfim, gozar um passeio pela cidade.

Meia hora mais tarde, percebi que andar a pé em Lisboa cansa. E descobri porquê. A culpa não é dos altos e baixos, nem dos carros estacionados em cima do passeio, nem do cocó de cão que nos obriga a espetar os olhos no chão e ziguezaguear a torto e a direito (desculpem, não resisti à piada fácil).

A culpa de ser difícil caminhar em Lisboa é da calçada portuguesa. Que é bonita e tal e não sei quê não discuto. Mas a calçada não serve para alimentar a vista: um caminho pedonal é feito - como o nome dá a entender - para os pés. Ora para isso não é grande coisa. A calçada, com as suas pedras soltas e desniveladas, com os seus buracos e buraquinhos, com as suas infinitas imperfeições, torna qualquer passeio num tormento. Os tornozelos torcem-se e gemem a cada passo, os gémeos latejam e lacrimejam ao fim de dez minutos de esforço contínuo. E eu, nesse dia, calçava o mais confortável dos meus dois pares de sapatos (só para terem um ideia, o outro é um par de ténis). Dei por mim a sentir alguma pena e muita admiração pelas mulheres que passavam, de altivez esticada por dez centímetros de saltos-agulha, a tentarem mancar com elegância pelas brechas da calçada.

Acabei o passeio cansado mas contente por ter descoberto a razão das dificuldades de caminhar em Lisboa (coisa que, nestes dias em que já tudo foi descoberto, tem um valor diamantino).

Ainda estava assombrado com a minha perspicácia quando entrei na estação de metro do Saldanha. Não andava de metro há anos e depressa concluí, enquanto esbugalhava os olhos a tentar descortinar as máquinas que cospem bilhetes, que não é bem como andar de bicicleta.

Encontrei uma máquina e comecei logo a fazer figura de urso. Que bilhete comprar, o de 80 cêntimos ou o de 1,10 euros? Pressionado e ligeiramente humilhado pela fila que se formava atrás de mim, tomei a decisão óbvia: comprei o mais barato.

Agora tinha de usar o bilhete para atravessar umas assustadoras portas deslizantes, perigosas mandíbulas de vidro que abriam e fechavam com a voracidade de quem não come há três dias. Puxei pela memória e lembrei-me que, nos meus tempos de faculdade, há pouco mais de dez anos, se enfiava o bilhete numa ranhura. Procurei a ranhura. Não vi ranhura nenhuma. Atarantado, ciente de que começava a atrair as atenções, usei o velho truque de seguir uma pessoa e imitá-la. Ah!, afinal bastava passar com o cartão junto a um sensor. Mas que raio corria mal com a boa e velha ranhura?

Rato: para aquele lado. Não era preciso mudar de linha (óptimo, já não ia acabar a tarde perdido nos confins do Senhor Roubado ou Alfornelos). Poucos minutos depois, abandonei a carruagem em direcção à saída, guiado pela multidão, olhando para os lados em busca de um caixote de lixo onde meter o bilhete. Em vão e ainda bem - afinal, ia precisar de passar com o bilhete num sensor para poder cruzar mais umas daquelas portas esfomeadas.

Saí da estação do Rato atordoado com o minha manifestação pública de provincianismo, mas aliviado por não ter passado pela vergonha de pedir ajuda a um daqueles admiráveis cosmopolitas que sabem andar de metro.

O alívio durou pouco. No cimo das escadas, tinha à minha espera a calçada portuguesa e dez minutos de íngreme martírio até às Amoreiras.

Adoro trabalhar num sub-subúrbio.

 
 
Aumentar texto  Aumentar texto Diminuir texto  Diminuir texto ImprimirImprimir Enviar por emailEnviar por email ComentarComentar
 
Partilhe este artigo: del.icio.us digg facebook myspace google search.live
 
 
5 comentários
Página 1 de 1   
ordenar por:
mais votados ▼
parolo
Luísa Oliveira (seguir utilizador), 1 ponto , 16:12 | Terça-feira, 14 de Abr de 2009
tens é de ir mais vezes a Lisboa para descobrir os seus (muitos) encantos
Cada sítio tem a sua beleza...
Apolo (seguir utilizador), 1 ponto , 0:19 | Quarta-feira, 15 de Abr de 2009
Eu nasci em Lisboa, ao cimo da rua Morais Soares, a chegar à Paiva Couceiro.
Fui criada em Lisboa, estudei e trabalhei na Baixa de Lisboa e adoro a zona do Chiado.
Acho Lisboa uma cidade lindíssima, tenho orgulho em ter nascido nesta capital.
Mas morar nos subúrbios, até é confortável, há mais espaço para tudo: estacionar o carro, ter uma casa razoavél mais barata e menos filas nas paragens dos transportes públicos.
Odivelas ou Amadora são sítios onde se vive nestes termos que referi, por isso a piada do metro do Sr. Roubado não teve graça, porque não ia ficar perdido como pensa Sr. Luis Ribeiro, ia encontrar as mesmas pessoas que trabalham em Lisboa e que se deslocam todos os dias. Por isso volte novamente ao metro desloque-se à dita estação e dê um passeio em Odivelas, vá até Loures ou Caneças e encontra ar menos poluído e paisagens verdinhas, o canto dos pássaros o fresco dos campos, é agradável, vai ver que se sente bem e não lhe doem os pés. Ok? Portugal não é só Lisboa e um bom português, conhece o seu país de Norte a Sul.
Opinando a propósito
José Gonçalves Cravinho (seguir utilizador), 1 ponto , 14:15 | Quarta-feira, 15 de Abr de 2009
Gostei do artigo de Luís Ribeiro.Quanto ao comentário da lisboeta
Apolo(nome masculino)no ponto em que ela diz que um bom português conhece o País de norte a sul,eu faço a seguinte pergunta:-Será que os miilhões de portugueses que mal têm dinheiro
para comer uma côdea de pão,e que,como tal não têm possibilidades
financeiras para conhecer o País,não são bons portugueses?!
Eu vivo como emigrante na Holanda desde 1964 e já velhote(85anos)
gostaria de poder visitar Portugal de uma ponta a outra,mas isso,
financeiramente,não é fácil para mim.Para rematar,direi que:
-Lisboa das Sete colinas/é uma terra de encantos/é uma Cidade
com Santos/e com ousadas varinas.Tem Aljube e Limoeiro/
tem Alfama e Mouraria/tem São Paulo e Santa Luzia/tem,Alcântara e
Areeiro.Tem Santa Justa e Santa Maria/tem São Jorge e São Luís/
tem São Domingos e o Calhariz/tem São Mamede e Casa Pia.
Tem Sant'Ana e S. João/tem Sant'António e S.Francisco/tem calçadas
com algum risco/de bater com o cu no chão.

conheço o meu país...
Apolo (seguir utilizador), 1 ponto , 18:40 | Quarta-feira, 15 de Abr de 2009
Sr. Cravinho, o meu comentário foi feito sem ofensa sequer aos mais pobres, tenho todo o respeito por aqueles que nasceram de costas para sorte, esses não conhecem o país todo, mas também não os ofendo porque não têm internet de certeza; falei só para aqueles que vêm até aqui, porque eu também não tenho muito, digamos que estou entre aqueles que nada têm e bastante a baixo dos que têm muito; também não sou muito exigente com a vida: bastam-me 4 paredes e ter o suficiente para não passar fome, posso-lhe dizer que sou uma pessoa orientada e dou umas voltas de vez em quando com o farnel atrás de mim, não entro em cafés e restaurantes e vejo quem tenha menos do que eu, que jantam constantemente fora de casa e outros que aproveitam o subsídio de férias e do Natal para irem até aos casinos, eu não faço nada disso, aproveito o dinheiro para comprar roupa ou qualquer coisa para a casa. E conheço o meu país através de escursões, desde o Minho e toda a costa litoral até ao Algarve, também já passei a fronteira de Vila Real de Stº António para os nossos vizinhos espanhóis (percurso de dois dias) com um fogareiro camping gás, um tacho, uns pratos e um alguidar para lavar loiça( com um wokswagen que comprámos já usado); como vê sou uma pessoa desenrascada, não devo nada a ninguém e conheço o meu país... Ok! Sr. Cravinho, tenho menos 20 anos que o Sr. estudei no tempo da ditadura, para isso o meu pai trabalhava desde as 8 da manhã até às 18 h e minha mãe saía de casa às 6 da manhã.
porquê, Apolo?
Apolo (seguir utilizador), 1 ponto , 19:41 | Quarta-feira, 15 de Abr de 2009
Sr. Cravinho, quanto ao meu nome ser masculino, posso explicar-lhe para lhe tirar dúvidas visto que o Sr. comentou.
Na antiga Grécia, eram politeíistas e atribuíam a Apolo, o Deus do Sol; ora como eu gosto muito de sol e não gosto de andar na net com o meu verdadeiro nome, escolhi Apolo.
Já agora, os americanos deram este nome, à primeira nave que em 1968 circundou o espaço lunar, enviando-nos fotografias para a terra: "Apollo 8"
Lembra-se concerteza!
Cumprimentos Sr. Cravinho!
Sou uma pessoa normalíssima...
5 comentários
Página 1 de 1   
PUB
 
Aviso
FAQ. Como funciona a comunidade na Visão
Para fazer o seu comentário precisa de estar registado.

Se já for utilizador registado, coloque o seu mail e palavra-chave nos campos para o efeito, na página de registo.
Clique aqui para se registar.

Em caso de dúvida escreva-nos para redaccao@visao.pt, seremos tão breves quanto possível a responder.
Grupo ImpresaACAP