A VISÃO fica em Laveiras. Laveiras é um subúrbio de Paço de Arcos. Paço de Arcos é um subúrbio de Lisboa. Logo, trabalho num sub-subúrbio. Daí não vem grande mal ao mundo. Demoro dez minutos a chegar a casa, a praia está à mão de semear, a zona não é bonita nem feia, antes pelo contrário. Mas há uma coisa de que todos os meus colegas sub-suburbanos se queixam: não andam a pé em Lisboa, não se passeiam por Lisboa, não usam os transportes públicos de Lisboa.
Até 2 de Abril, queixava-me do mesmo.
Nessa quinta-feira à tarde, chamei um táxi e fui entrevistar um tipo da Agência Europeia do Ambiente, a meio da Avenida 5 de Outubro. A conversa passou por emissões de dióxido de carbono e, no fim, a minha consciência ambiental impediu-me de voltar a apanhar um táxi para as Amoreiras, o meu destino seguinte. Decidi ir a pé até ao Saldanha, apanhar o metro até ao Rato e voltar a dar corda aos sapatos até lá acima. Enfim, gozar um passeio pela cidade.
Meia hora mais tarde, percebi que andar a pé em Lisboa cansa. E descobri porquê. A culpa não é dos altos e baixos, nem dos carros estacionados em cima do passeio, nem do cocó de cão que nos obriga a espetar os olhos no chão e ziguezaguear a torto e a direito (desculpem, não resisti à piada fácil).
A culpa de ser difícil caminhar em Lisboa é da calçada portuguesa. Que é bonita e tal e não sei quê não discuto. Mas a calçada não serve para alimentar a vista: um caminho pedonal é feito - como o nome dá a entender - para os pés. Ora para isso não é grande coisa. A calçada, com as suas pedras soltas e desniveladas, com os seus buracos e buraquinhos, com as suas infinitas imperfeições, torna qualquer passeio num tormento. Os tornozelos torcem-se e gemem a cada passo, os gémeos latejam e lacrimejam ao fim de dez minutos de esforço contínuo. E eu, nesse dia, calçava o mais confortável dos meus dois pares de sapatos (só para terem um ideia, o outro é um par de ténis). Dei por mim a sentir alguma pena e muita admiração pelas mulheres que passavam, de altivez esticada por dez centímetros de saltos-agulha, a tentarem mancar com elegância pelas brechas da calçada.
Acabei o passeio cansado mas contente por ter descoberto a razão das dificuldades de caminhar em Lisboa (coisa que, nestes dias em que já tudo foi descoberto, tem um valor diamantino).
Ainda estava assombrado com a minha perspicácia quando entrei na estação de metro do Saldanha. Não andava de metro há anos e depressa concluí, enquanto esbugalhava os olhos a tentar descortinar as máquinas que cospem bilhetes, que não é bem como andar de bicicleta.
Encontrei uma máquina e comecei logo a fazer figura de urso. Que bilhete comprar, o de 80 cêntimos ou o de 1,10 euros? Pressionado e ligeiramente humilhado pela fila que se formava atrás de mim, tomei a decisão óbvia: comprei o mais barato.
Agora tinha de usar o bilhete para atravessar umas assustadoras portas deslizantes, perigosas mandíbulas de vidro que abriam e fechavam com a voracidade de quem não come há três dias. Puxei pela memória e lembrei-me que, nos meus tempos de faculdade, há pouco mais de dez anos, se enfiava o bilhete numa ranhura. Procurei a ranhura. Não vi ranhura nenhuma. Atarantado, ciente de que começava a atrair as atenções, usei o velho truque de seguir uma pessoa e imitá-la. Ah!, afinal bastava passar com o cartão junto a um sensor. Mas que raio corria mal com a boa e velha ranhura?
Rato: para aquele lado. Não era preciso mudar de linha (óptimo, já não ia acabar a tarde perdido nos confins do Senhor Roubado ou Alfornelos). Poucos minutos depois, abandonei a carruagem em direcção à saída, guiado pela multidão, olhando para os lados em busca de um caixote de lixo onde meter o bilhete. Em vão e ainda bem - afinal, ia precisar de passar com o bilhete num sensor para poder cruzar mais umas daquelas portas esfomeadas.
Saí da estação do Rato atordoado com o minha manifestação pública de provincianismo, mas aliviado por não ter passado pela vergonha de pedir ajuda a um daqueles admiráveis cosmopolitas que sabem andar de metro.
O alívio durou pouco. No cimo das escadas, tinha à minha espera a calçada portuguesa e dez minutos de íngreme martírio até às Amoreiras.
Adoro trabalhar num sub-subúrbio.