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Amor e Pão Quente

O pequeno-almoço segundo Rosa Lobato Faria

No Jukebox revisitamos uma canção de Paulo Bragança com letra de Rosa Lobato Faria. Nunca um pequeno-almoço foi tão sensual

Manuel Halpern
13:55 Quinta, 4 de Fevereiro de 2010
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Um dia telefonei à Rosa Lobato Faria. Estava a preparar o meu livro sobre o Novo Fado, O Futuro da Saudade, e pretendia utilizar uma das suas muitas letras. No caso, Amor e Pão Quente, com música de Mário Pacheco, na voz de Paulo de Bragança (está no seu primeiro disco, Notas Sobre a Alma, 1992). A simpática senhora - sempre simpática e sempre senhora - respondeu prontamente que sim. Mas embaraçou-me com a pergunta: "Porquê essa?"
Na verdade, não tinha grande justificação para no universo extensíssimo de letras de canções escritas por Rosa Lobato Faria escolher aquela e não outra. Nem poderia dizer com segurança se aquela era a minha letra preferida da sua autoria.
O capítulo em causa era sobre Paulo Bragança e não sobre a letrista/actriz/escritora. E aquela letra servia bem para ilustrar o início da carreira discográfica do fadista, em que ainda não tinha feito opções radicais, que lhe valeram o cognome de fadista punk, mas já deixava adivinhar um certo grau de irreverência. E a letra ajudava.
Nunca o pequeno almoço continental tinha entrado no fado, ainda para mais com tal sensualidade. Todas as quadras aparecem divididas em duas partes que correspondem a dois estados de espírito. Nas duas primeiras estrofes a descrição do pequeno-almoço, nas duas últimas uma acepção sensual: "Espremeste as laranjas num jarro de vidro/ mais sumo há no beijo na boca esquecido". É um jogo muito inteligente entre texto e subtexto, que se vai intensificando, até ao êxtase: "Dispo-te a camisa sem ninguém saber/ faço amor contigo sem sair da mesa". Ao telefone, não lhe terei explicado isto tudo. Mas ela, seguramente, já o saberia.
A título de curiosidade recordo que Paulo Bragança e Rosa Lobato Faria estiveram juntos, anos mais tarde, em Tráfico, de João Botelho. Ele fazia de padre e cantava o Hino Nacional. Ela de dondoca e servia uma sardinhada temperada com cocaína. Hilariante.

 Amor e Pão Quente
(Letra de Rosa Lobato Faria)

Pousaste na mesa
o copo de leite
mais branca é a seda
da pele do teu peito

Vem um tabuleiro
com pão 'inda quente
melhor é o cheiro
do vão do teu ventre

Espremeste laranjas
num jarro de vidro
mais sumo há no beijo
na boca esquecido

Serviste torradas
compota de ameixas
mais doces, douradas
as tuas madeixas

Negro e fumegante
deitaste o café
é mais excitante
o nu do teu pé

Penso se te vejo
trincar um croissant
morder o teu seio
à luz da manhã

Com gestos de brisa
és linda de ver
a espalhar na casa
conforto e beleza

Dispo-te a camisa
sem ninguém saber
faço amor contigo
sem sair da mesa

 

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