É histórico: quando se discute o Porto, Lisboa vem atrelada. Há quase dois séculos, o povo "tripeiro" enfureceu-se, devido à falta de pão, culpando "a indolência do Governo" pela fome e miséria. Noutra época, a Câmara recusou-se a prestar contas à administração central e foi repreendida por defender "princípios subversivos". Um autarca considerou que a cidade era tratada como "filha bastarda" pelo Executivo da nação. E este foi acusado de promover uma "subserviência vexatória" ao fazer depender de autorização central "a mais insignificante despesa".
O lamento é recorrente. De tempos idos aos dias de hoje, o Terreiro do Paço tem sido desculpa e razão de todos os males do Porto. E o futebol juntou à fogueira a acha que faltava, chamuscando a própria cidade. Um trabalho de investigação recente sobre a biografia dos presidentes da Câmara da Invicta, da autoria do Centro de Estudos da População, Economia e Sociedade do Porto, deixa perceber que a relação com o poder central navegou sempre entre o tumulto e uma leve concórdia. Com cantos de sereia pelo caminho. "Podemos concluir que gerir a cidade do Porto serviu principalmente de plataforma para se chegar ao Governo", escreve-se na obra coordenada pelo professor Fernando de Sousa.
Quem atravessa o rio
Ora, nos tempos que correm, é frequente apontar Rui Rio, o actual presidente do município, como sério candidato a fazer parte da estatística. Mas o próprio nega ambições e, para já, os factos estão do seu lado. Enquanto ele garante que se manterá "a cem por cento na cidade", Elisa Ferreira, sua principal adversária, tem um pé em Bruxelas, é um facto. Mas de Governo já ela teve o seu pezinho de dança. E agora promete ficar com os dois na cidade. Se for para mandar. O aviso, porém, já foi dado: o Porto gosta pouco do estilo político "alfa pendular", sobretudo com bilhete de regresso para lamber feridas. Fernando Gomes que o diga, derrotado de forma implacável, há oito anos, após passagem aziaga pela governação. "Os portuenses penalizam quem os usa e se aproveita deles. Aconteceu com Gomes e acontecerá com Elisa", atira Teixeira Lopes, candidato do BE. "O Porto exige entrega exclusiva e não perdoa", refere Rui Sá, o vereador sem pasta da CDU, que, neste mandato, exibe imaculada dedicação à casa e à causa: mais de uma centena de visitas às freguesias, 1 700 munícipes atendidos e cinco vezes mais propostas apresentadas do que os cinco eleitos do PS no executivo.
Por vezes, a última esperança dos poderes políticos a Norte na resolução dos seus problemas reside, contudo, no simbolismo de haver homens e mulheres da região nos sucessivos governos. Mas a história, embora com excepções, demonstra a ingenuidade da tese. "O ministro Teixeira dos Santos é natural do Porto. Não prejudicou a região, é verdade, mas também não contrariou a tendência para concentrar o investimento público em Lisboa", afirma Rui Rio, para quem o pior governante de Sócrates foi, "a larga distância", Mário Lino.
Elisa Ferreira orgulha-se do facto de o Porto "ter impedido o País de se transformar numa política de corte", em diversos momentos históricos. Na trincheira dos que lutam contra "os malefícios do excessivo centralismo", a candidata do PS diz-se, no entanto, mais preocupada com "a visão paroquial de Rui Rio, apostado na utilização permanente do confronto e do conflito com as instituições da cidade". Rui Sá vai atrás e vê mais longe: "Goste-se ou não do estilo, Gomes tinha capacidade para unir a cidade em torno das suas reivindicações. Rio preferiu trabalhar a sua imagem no País, à custa de guerras na cidade. E pegou", reconhece o cabeça-de-lista da CDU. Nada que Teixeira Lopes não tenha notado: "O presidente da Câmara tem os seus planos. Lançar o Porto na modernidade não é um deles."
Os argumentos ilustram um percurso e uma gestão acidentada. Mas Rio faz terraplanagem: "Se me conseguirem dizer qual foi o meu antecessor que conseguiu, através da Junta Metropolitana, juntar vontades e instituições em Vila Real, Bragança ou Aveiro em defesa da gestão autónoma do aeroporto, agradeço. Não sou o único responsável por essa mobilização, mas do PS nunca apareceu ninguém", acusa o autarca, descodificando a sua filosofia: "Se o objectivo é abrir várias frentes de batalha com os governos para conquistar simpatias e votos cá no burgo, comigo, esqueçam. Às vezes, reconheço, é preciso ser mais agressivo. Mas não estou disponível para insultos e posturas semigrosseiras", conclui. Dito isto, só faltava ouvir-se, em fundo, uma das músicas brega do autocarro de campanha da coligação PSD/CDS: "Oh, oh, quem é o gostosão daqui? Sou eu, sou euuuuuuuu!"
Ver-te assim, abandonada?
Embora não alinhe numa versão mix, para a oposição a música é outra. A candidata do PS promete outro alento e dinâmica ao Porto triste e pardacento, parafraseando a letra de Carlos Tê que apresentou o livro desta mulher que garante nunca ter perdido o Norte. Elisa Ferreira fala de um Porto sentido: sentido com o presidente, sentido com "a qualidade das reivindicações", sentido com uma política de "esvaziamento" que transformou o concelho "num donut", em alusão ao centro abandonado.
Porém, no sábado, 3, a comparação entre o Coliseu onde Elisa realizou o seu comício com Sócrates e a mancha de gente nas artérias da nova movida portuense não lhe era favorável.
Perceberia isso se, por exemplo, quisesse encontrar-se com Rui Sá junto ao café Piolho, a um quarto de hora de distância. Por entre juras de fidelidade de jovens votantes e de outros sem idade para tal, o candidato da CDU tem a seu próprio repertório: "O carácter, a identidade e a alma do Porto são a nossa mais-valia. A mim não me interessa a competição com Lisboa, mas a cidade está mais frágil aos olhos do País", reconhece. Teixeira Lopes junta dados: "Perdemos população a um ritmo superior à capital. Em 2011, seremos menos 200 mil. E isto na cidade com a melhor universidade do País e referências de excelência na área da Saúde, da Ciência e da Tecnologia. O estado desta região é culpa da má preparação dos seus políticos."
Poderia, ao menos, a regionalização uni-los?
Verdade seja dita, Rio é ainda uma espécie de céptico a caminho da conversão, mas... "Quando vejo desviar 1 500 milhões de euros das regiões de convergência para projectos em Lisboa, como fez este Governo, é lógico que estou mais próximo de me tornar regionalista", assume. Nessa matéria, Elisa é da velha guarda, com fama que vem de longe. "O centralismo não resolve os problemas. A decisão de reequilibrar o País tem de ser política. Não devemos atirar para referendo o que é complicado decidir", desafia. Ainda mais à esquerda, Rui Sá e Teixeira Lopes só descrêem da regionalização como panaceia. "Se os políticos locais não mudarem a sua postura, será complicado. Rio nem sequer consegue fazer a ponte entre as duas margens do Douro", refere o candidato do BE, ao qual o cabeça-de-lista comunista junta uma pitada de memória: "Alguns dirigentes do PS, PSD e CDS podem ter deitado por terra, de vez, a regionalização. Mas agora andam a fazer figura de cristãos-novos."
Dia 11, pelos vistos, não estará em disputa o amor pelo Porto. Mas como diria o outro, o difícil é sentá-los.
>> Curiosidades de uma Câmara
De 1822 aos nossos dias, o Porto teve três presidentes de Câmara oriundos dos Açores, outros tantos de Marco de Canaveses e até dois nascidos em Lisboa. Mas a tendência (35) é serem, obviamente, naturais da Invicta.
A maioria dos autarcas da cidade é historicamente oriunda da média e alta burguesia, com destaque para os professores universitários. Comerciantes, magistrados e oficiais do Exército vêm a seguir. Curiosamente, Gomes e Rio, dois dos mais duradouros no cargo, são economistas.
Tomás Ferraz, o primeiro presidente eleito no regime liberal, em 1822, teve como prioridade "liquidar quanto antes não só as dívidas activas, mas as passivas" e "pagar aos credores". Há 60 anos, o autarca Luís Guimarães confessava-se "agastado com a Imprensa" por conferir "pouco relevo aos trabalhos municipais ou até por deturpar informações". Familiar?
A oferta de 4 mil pares de sapatos a militares, um pedido de autorização para criar um imposto sobre o bacalhau entrado na cidade e uma proposta para que o exercício das funções de vereador fosse gratuito, são algumas das curiosas medidas aprovadas por antigos autarcas do Porto. Entre 1850 e 1851, Camilo Castelo Branco insurgiu-se contra a decisão da Câmara de obrigar os funcionários a cortar os bigodes.
Fonte: Os Presidentes da Câmara Municipal do Porto (1822-2009) - Volumes I e II - CEPESE e Câmara Municipal do Porto