Aquilo que os portugueses têm à cintura já não é um cinto há algum tempo: é um garrote.
4:51 Quinta, 11 de Março de 2010
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É irónico que os problemas económicos possam ser responsáveis pelas maiores desigualdades sociais mas que a economia, enquanto ciência, seja tão igualitária. Alguns dos maiores especialistas em economia previram tanto como eu o aparecimento da crise. A economia tem essa característica fascinante: por muito que alguém se dedique a estudá-la, aparentemente continua a ser um leigo. Um grande administrador tem tanta dificuldade em evitar a calamitosa falência de um banco como um merceeiro versado apenas em contas de somar. Por isso, é com a consciência invulgarmente tranquila que me dedico à análise económica: na pior das hipóteses, os meus comentários farão tão pouco sentido como os de um professor de economia.
Quando o governo propôs o Programa de Estabilidade e Crescimento, a minha primeira impressão foi a de que o PEC tinha um E a mais. Duvido de que a nossa economia precise da ajuda de um programa para estabilizar, uma vez que se encontra estável (no sentido em que um paciente em estado comatoso se mantém estável) há muitos anos. As críticas de alguma oposição parecem-me ainda menos pertinentes. É falso que o Programa de Estabilidade e Crescimento obrigue uma parte significativa dos portugueses a apertar o cinto. E é falso sobretudo na medida em que aquilo que os portugueses têm à cintura já não é um cinto há algum tempo: é um garrote. O que vai ser preciso apertar agora é o garrote.
O grande raciocínio que sustenta a actual estratégia económica é importado da caça: o importante é não afugentar. Não convém taxar os lucros dos bancos e das grandes empresas para não afugentar o investimento. É desaconselhável taxar as transacções da bolsa para não afugentar o capital. Quem sobra? Os trabalhadores - que, além de serem muitos, são gente que não se deixa afugentar, porque precisa mesmo do emprego. Um trabalhador por conta de outrem trabalha, na verdade, por conta de dois, digamos, outrens: por conta do empregador e por conta do Estado. São os trabalhadores, e não as empresas e os bancos, os grandes "criadores de riqueza". Criam a riqueza dos patrões e a do Estado, que depois toma essa parte da riqueza e a devolve às empresas e aos bancos, sob a forma de nacionalização do que der prejuízo e privatização do que der lucro. Nota-se muito que estou a assobiar a Internacional enquanto escrevo isto?
A política fiscal é igualmente clara: as pessoas que ganham menos do que eu pagam menos impostos do que eu; a generalidade das que ganham mais também paga menos impostos do que eu. O governo alega que irá aumentar a taxa de impostos a quem ganha mais de 150 mil euros por ano, o que seria uma excelente medida, mas não é exactamente verdadeiro. O governo vai aumentar a taxa de impostos a quem declara mais de 150 mil euros por ano, o que é ligeiramente diferente. Não há assim tantos contribuintes nessas condições.
Resta a consolação de constatar que o congelamento dos salários dos funcionários públicos não é uma medida assim tão áspera. Os salários, a bem dizer, têm estado no frigorífico. Não vão propriamente sofrer um choque térmico.
Trata-se de uma análise muito mais clara e realista do que as análises dos gurus da economia que costumam aparecer na televisão.
Apenas um reparo, Ricardo: Como qualquer pessoa que tenha passado pelo ISEG nas últimas décadas, eu fui aluno de um actual ministro, o Mendonça. Ele (e a sua equipa) previu, em 1993/1994, uma crise «typo 1929» a partir de 2005. Lembro-me que até comentámos com ele se sería «esta», em 1994, ao que o mendonça respondeu que «Não. Isto não é nada (estávamos em 94) A crise de que estou a falar é mesmo grave e só deve acontecer lá para 2005, não antes». Errou por três anos, o que em economia é muito pouco. [Os economistas são maus a prever se as crises ocorrem mas são ainda piores a prever quando.] Além disso, Já muitos economistas (Paul Krugman, Joseph Stiglitz, Michel Albert, Peyrevade, ect...) andavam espantados com a resistencia da finança à falta de «fundamentals».
A mim, que sou economista de formação e auditor de profissão e conheço bem as práticas contabilisticas, financiotas e malabaristas das empresas e outras organizações de malfeitores, só me espanta que a crise tenha demorado tanto tempo.
Confunde-se, normalmente, economia com mercado. A alta idade média tinha economia mas não tinha mercado. Há por isso uma diferença entre economia e mercado. Os economistas hoje são o equivalente ao generais na idade média. Os economistas sabem de operações de mercado e não forçosamente de economia, tal como os generais sabem de operações de guerra mas não forçosamente de economia. O mercado tal como a guerra é um jogo de conquista, e,tal como todos os jogos de conquista, acabam quando não houver mais o que conquistar. A economia bélica colapsou no século XVII, quando deixou de haver população civil suficiente para manter saque necessário para manter os exércitos criados. O mercado vai acabar no século XXI quando não houver clientes com capital suficiente para manter o saque (lucro) necessário para manter as estruturas de mercado. É simples, não é necessário tirar um curso para se saber que o mercado vai perdendo sustentabilidade económica à medida que sobe a eficácia das empresas de mercado (quanto mais depressa conquistarem mais depressa acaba o jogo). Tem piada confundirem economia com mercado porque o mercado, tal como a guerra, é um comportamento anti económico.
Surpreende que tanta gente se manifeste contra a necessidade de reduzir drasticamente as despesas e gastos sumptuários. Ao mesmo tempo, não se vê ninguém com uma ideia que seja sobre o desígnio nacional de Portugal.
O quê que vamos fazer, o que podemos oferecer ao mercado que as economias industriais desenvolvidas não façam já, ou fazendo-o, nós façamos melhor para podermos aumentar a nossa capacidade de gerar riqueza?
Não convém taxar os lucros dos bancos e das grandes empresas para não afugentar o investimento? Isto é uma falácia. Acontece é que os socialistas são obrigados a governar à direita graças à desregulação da indústria financeira, também chamada economia de papel ou economia de casino.
como diz e bem, só espanta a crise ter demorado tanto tempo a chegar, mas como disse o RAP a crise já se arrasta á décadas, por isso desde o 25 de Abril nunca este país saíu da crise, é crónica, já não tem cura. Quem paga os erros de governação são sempre os mesmos. Aquilo que eu aprendi foi que se só tenho 500, não posso gastar 600, e o que se vê nos nossos governantes é que tem 500 e gastam 1000. E ainda acham que a razão está do lado deles. Tenham vergonha, porque ter boca de rico e carteira de pobre dá mau resultado.
É dos textos "menos económicos mas com muita verdade economica" que já li nestes últimos tempos...e és um leigo, fará se fosses o Medina Carreira...Isto porque o problema é politico, a economia manda na decisões dos politicos que curiosamente são eleitos por nós, enfim, são os mesmos de sempre(capitalistas) a criarem crises económicas e a pedir sacrificios a todos para a pagarem (povo em geral). Podes ouvir a Internacional porque não te faz mal, pode te dar é mais consciência sobre o modelo económico em que vives.
Apelando a esta moda recente de referir o Paul Samuelson, aconcelho ao Ricardo e a todos a leitura da definição de ciência economica de Samuelson. Tambem é de voltar a referir que é falso que os bons economistas não previam esta crise. O problema mais grave é que os jornalistas em Portugal não se esforçam por ouvi-los e passam o tempo a dar tempo de antena a casos maddie e afins e aos politicos, temos o país que merecemos pois o comentador Rui Santos tem mais reconhecimento publico que o professor Campos e Cunha por exemplo.
Com este Plano de Encolhimento da Cintura, vulgo mais um apertar do cinto, dos mesmos, Portugal começa, após 36 anos de tripa forra, uma nova época, a da governação exemplar e responsáveis - bolas, onde foi que nós já ouvimos isto? poderíamos jurar que já não é a primeira vez.
Funcionário Público desde os tempos do saudoso Salazar, nunca tivemos sorte, nem no tempo dele, nem no de transição nem neste que não sabemos se também é de transição de outra coisa. Muito bom continua a não ser. Começamos a perder a esperança de antes de morrermos, tanto como funcionário como cidadão, de vermos o ordenado chegar, pelo menos, até ao dia 15 de cada mês. Há 41 anos, por concurso público, com provas prestadas, entramos para a função pública e cumprimos. Mas o Estado, ou quem está a dar cabo dele, no fim da nossa vida de funcionário, resolveu alterar o contracto sem acautelar, como pessoa de bem, o compromisso que há entre as duas partes. E não há instância democrática que nos defenda. Ou será que no tribunal europeu haverá solução para esta nossa situação? O que nos fizeram nem nos parece legal nem se faz a ninguém. É uma falta gravíssima de um patrão para com milhares de empregados seus, sem motivo algum. Paguem-nos 2 meses por cada ano de trabalho e mandem-nos embora. Assim, como nos estão a fazer não!
Gostei da crónica, bem escrita, temperada com ironia q.b. mas acima de tudo o RAP coloca o dedo na ferida sobretudo no penúltimo parágrafo.
A locução latina CUIQUE SUUM TRIBUERE quer dizer (tradução literária e não literal): o seu a seu dono. Aplicando isto aos impostos cada 1 deveria pagar aquilo que é justo. No entanto, isto não acontece, e por que razão?
Será que é o sal que não salga? Ou a terra que não se deixa salgar?
como diria o nosso Pe. António Vieira
Eu julgo que ambas: por um lado, a máquina fiscal não tem interesse, vontade e capacidade para dar caça a quem deveria. Por outro a mentalidade de fugir aos impostos está amplamente e culturalmente implantada. Depois de tantas citações eruditas (despretensiosas;-) só me apetece concluir com este dizer popular, que aqui suavizo:
Quem se "prejudica" é o mexilhão.
"O governo alega que irá aumentar a taxa de impostos a quem ganha mais de 150 mil euros por ano, o que seria uma excelente medida, mas não é exactamente verdadeiro. O governo vai aumentar a taxa de impostos a quem declara mais de 150 mil euros por ano, o que é ligeiramente diferente. Não há assim tantos contribuintes nessas condições."
Este excerto diz tudo.
Presumo, contudo, que não seja nada fácil controlar devidamente este aspecto, sem entrar na burocracia excessiva nem no controlo insuficiente. E quando quem tem o poder e/ou o dinheiro não dá o exemplo... o pobre é que paga (o pobre e não só... pois a classe média corre sérios riscos de "despromoção", também ela vai pagar... )
Que dizer de algo simples e perfeito.
Talvez que já seja altura de pensarmos em correr com todos estes "senhores" que nos colocaram nesta situação.
Ou então talvez não. Nós até gostamos de nos lamentar e continuar a ser (roubados) governados.
Aquilo que os portugueses têm à cintura já não é um cinto há algum tempo: é um garrote?
Mas eu te garanto que debaixo da cintura a maioria já não tem um cacete mas um brinco.
Enquanto se congelam as remunerações dos trabalhadores da Função Pública, e
se "empurram" muitos deles para a aposentação antecipada, devido à
insegurança e instabilidade criada em toda a Administração Pública, as
verbas inscritas nos orçamentos dos serviços do Estado destinadas à
contratação de trabalhadores a prazo e a aquisição de serviços a empresas
privadas dispararam como mostro utilizando dados dos próprios dos Orçamentos
do Estado de 2005, 2009 e 2010.
A precariedade que o governo diz querer combater está aumentar na
Administração Pública, e muitos dos serviços que podiam ser executados por
trabalhadores da Administração Pública estão aser adquiridos a empresas
privadas o que origina um grande desperidicio de fundos públicos, ou seja ,
pagos com impostos cobrados aos portugueses.
É urgente combater a precariedade e o desperdício que está a aumentar na Administração Pública Pág. 1
Eugénio Rosa – Economista - Mais estudos em www.eugeniorosa.com
TRABALHO PRECÁRIO E AQUISIÇÃO DE SERVIÇOS A PRIVADOS DISPARAM
NA ADMINISTRAÇÃO PÚBLICA
O governo está a substituir os trabalhadores que se aposentam (muitos deles “empurrados”
para a aposentação antecipada devido à instabilidade, insegurança e pela falta de respeito
pela dignidade dos trabalhadores que o governo tem mostrado em relação à Administração
Pública), pelo trabalho precário e pela aquisição de serviços a privados.
São os próprios dados do Orçamento do Estado, constantes dos Mapas Informativos do
Serviços Integrados (Administração Directa do Estado) e dos Mapas Informativos dos Serviços
e Fundos Autónomos (Administração Indirecta do Estado) que acompanham os Orçamentos do
Estado, que provam isso.
AS VERBAS PARA CONTRATAR TRABALHADORES A PRAZO MAIS QUE DUPLICARAM
(AUMENTARAM 2,4 VEZES) NA ADMINISTRAÇÃO PÚBLICA EMTRE 2005 E 2010
Enquanto as verbas para pagar aos trabalhadores com vinculo permanente à Administração
Pública têm diminuído, as verbas para contratar trabalhadores a termo disparam como mostra
o quadro seguinte, construído com dados divulgados pelo governo constantes dos Mapas
Informativos referentes aos Serviços Integrados e aos Serviços e Fundos Autónomos do
Estado.
Entre 2005 e 2010, as Despesas com Pessoal diminuíram significativamente (passaram de14,3% do PIB para 10,9% do PIB, ou seja, baixaram em cerca de 5.690 milhões de euros),mas as despesas para aquisição de serviços a empresas privadas cresceu 43,3%. Mesmo em 2010, em que as remunerações dos trabalhadores da Função Pública foram congeladas pelo governo, mesmo este ano as verbas constantes dos orçamentos dos serviços do Estado (Serviços Integrados mais Serviços e Fundos Autónomos) destinadas a aquisição de serviços a empresas privadas aumentaram 9,3%, ou seja, numa percentagem 11,6 vezes superior à taxa de inflação prevista pelo governo para 2010. É evidente que muitos dos serviços que o Estado vai adquirir a empresas privadas (estudos,
pareceres, consultoria, assistência técnica, trabalhos especializados, etc.) podiam e deviam ser realizados por trabalhadores da Administração Pública. Em 2010, o Estado vai gastar 91,6 milhões de euros só com a aquisição de serviços de vigilância e segurança a empresas privadas. É um escândalo numa altura em que são impostos tantos sacrifícios aos trabalhadores.
Tudo isto, para além de representar uma privatização de serviços públicos, e um grande negócio para muitas empresas privadas (daí se compreende a forma com os representantes e os defensores do patronato atacam a Administração Pública), por um lado; por outro lado, é um autêntico desperdício que é necessário por cobro; e está também a provocar a degradação dos serviços.