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O medo

Radioterapia, medicamentos, misérias, visitas das duas às três nos dias úteis, das duas às cinco aos fins de semana, algálias, dores

12:57 Sexta feira, 2 de Jul de 2010

Mostrou-me a análise à próstata no café

Um bocado alta não está?

Um bocado alta, de facto, e a gente os dois a olharmos o papel como se pelo facto de o olharmos muito tempo os números baixassem: não baixavam. Mantinham-se inamovíveis, a encarnado. Acabou por dobrar o papel e guardá-lo:

- O meu médico marcou-me consulta para o especialista

e silêncio. Sentou-se à minha mesa sem pedir licença, a olhar-me ­

- Acha que é grave?

e não respondi porque não queria resposta. Queria alguém à frente dele, apenas. Tirou os cigarros do bolso, voltou a metê-los.

- ­Não se pode fumar em parte nenhuma, sorte malvada.

Lá fora, do outro lado da vitrina, o quiosque dos jornais e revistas. Numa delas um casal abraçado: Mécia e Raul, separação no horizonte? E frio, e chuva. Não calha bem adoecer em fevereiro. Faltava-lhe um botão num dos punhos da camisa, a barba mal feita no queixo:

- Desde que recebi a análise nem durmo

e na mesa vizinha um par de senhoras gordas, cheias de anéis, a cochicharem.Entre ambas a revista do quiosque, aberta nos desenvolvimentos da possível separação da Mécia e do Raul. De esguelha, em letras gordas sobre uma fotografia: Mécia: Tudo tem a sua duração; Raul incontactável. Comentou ­

- Isto da próstata é uma gaita e em letras gordas, sobre outra fotografia: Um amigo de Raul: Em devido tempo ele dirá de sua justiça. Não, mais completo: Um amigo de Raul, que solicitou anonimato: Em devido tempo ele dirá de sua justiça. Percebia-se que as senhoras esmiuçavam o assunto, uma delas mencionou uma actriz que a senhora afirmava ter má índole:

- ­Não suporta que os outros sejam felizes, aquela, fez o mesmo à Patrícia, dona Esperança, lembra-se?

A dona Esperança lembrava-se

- E à Carla, já agora
enquanto o da análise

- Vai na volta tenho um cancro, amigo tentei um gesto de

- Hoje em dia essas coisas

que não me saiu bem, saiu mais do tipo

- Ninguém cá fica para semente, não é?

de maneira que emendei

- A maior parte das vezes são falsos alarmes

os cigarros saíram de novo e voltaram ao bolso ­

- E se não forem?

e a barba mal feita pareceu aumentar. No outro punho havia botão, e haver o botão, não sei porquê, alegrou-me:

talvez tenha interpretado como sendo um bom sinal em relação ao cancro.
A amiga da dona Esperança, assanhada com a actriz ­

- O sarilho que ela arranjou à Débora na época do futebolista, já pensou?

A dona Esperança já tinha pensado:

- Uma galdéria

definiu ela

- Uma galdéria e tanto

mas havia o botão, felizmente. Por pouco não o aconselhei a agarrar-se ao botão. A amiga da dona Esperança gostava tanto da actriz que se ela caísse ao Tejo lhe atirava uma palhinha para ajudá-la a não se afogar. Em lugar do conselho de se agarrar ao botão afirmei com autoridade ­

- O que mais há por aí são falsos alarmes

de cabeça a desviar-se para a Célia, coitada, que usava um decote tão profundo como uma ravina: uma rapariga de bem, notava-se logo nos olhinhos ferozes, uma vítima. Ganas de interrogar a dona Esperança

- Quem é a Célia, afinal?

com uma parte do meu corpo a tentar apreciá-la em detalhe. Aí, infelizmente, a amiga da dona Esperança impediu-me os propósitos ­

- Embora no caso do futebolista o rapaz tenha culpas no cartório

e a impressão que a análise aumentava no interior do casaco, a latejar:
­

- Vai-me nascer um neto para o mês que vem, já reparou na coincidência?

e quem seria a Célia, meu Deus? E a Patrícia? E uma Raquel que surgia agora na conversa ­

- Ao menos a Raquel é o filho do ministro e pronto

O neto que nascia para o mês que vem obcecava-o: a filha empurrava a barriga a custo, de pernas inchadas:
­

- Se der para o torto mal vou conhecê-lo

radioterapia, medicamentos, misérias, visitas das duas às três nos dias úteis, das duas às cinco aos fins de semana, algálias, dores, o da cama à esquerda a pifar do esófago suplicando ­

- Olha-me os meninos, Laurinda

e o decote da Célia a inquietar-me. Abaixo do decote umas calças tão justas que só podia despi-las à tesourada. Estava capaz do sacrifício de ser eu a pegar na tesoura.
­

-O primeiro neto, compreende?

Compreender compreendia, mesmo de tesoura nas unhas. Não te esqueças de comprar a revista ao saíres daqui porque há-de haver mais fotografias de certeza. Há-de ou hão-de? Não interessa desde que as fotografias lá estejam, de qualquer maneira a quarta classe já cá canta. Em relação ao cancro lembrei-me do treinador do meu clube ­

- Há que levantar a cabeça e pensar no jogo do próximo domingo

e limitei-me à primeira parte da frase. Este treinador é bom, pelo menos pôs aquela cambada a correr:
­

- Há que levantar a cabeça

garanti para microfones invisíveis, e acrescentei

(não daria grande treinador eu, comigo a cambada amolecia logo) ­

E ter pensamento positivo. Esta do pensamento positivo era do primeiro-ministro:

- Pensamento positivo, senhores deputados, pensamento positivo

mas ninguém, mesmo do partido do governo, aplaudiu. Acrescentei em desespero ­

- Vamos aguardar com calma pelo especialista

enquanto a Célia, sem calças, jurava ­

- Tudo tem a sua duração

de maneira que o melhor era não perder muito tempo antes que a duração acabasse.

Palavras-chave   António Lobo Antunes   crónica   o medo
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14 comentários
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mais votados ▼
Ai que horror! Esta não consigo ler!...
Luísa Peluda (seguir utilizador), 1 ponto , 15:02 | Sexta feira, 2 de Jul
Ai que horror! Esta não consigo ler!...

Há dias uma sujeita, parou a meu lado a contar-me as desgraças da vida, entre a solidariedade de a ouvir e o mal que me fazia, ia adoecendo!

Senhor António, com o devido respeito, não sou psicóloga, e se o fosse, não o seria aqui!

Não tenho ideia de como será na vida real, mas homem, você mata qualquer uma!

(Há tanta gente com talento por este país, que nos encheria a vida de beleza, ensinamentos...)

"Tudo tem a sua duração"
belmira (seguir utilizador), 1 ponto , 18:14 | Sexta feira, 2 de Jul
Prosa e prosaico. Um intercalar de tempos e de momentos. O superficial e o emocional. O óbvio e o negar o evidente. Por detrás de uma hipotética melancolia - lá fora um sol de trovoada próprio das terras transmontanas e das beiras - a esperança no nascimento de uma criança. Gosto desta escrita fatiada, estilo Romeu e Julieta
culinário. Gosto de lêr o que não gosto, no sentido delicodoce, é no estranho e no bizzaro que mais aprendemos. Pois já deixam as crianças brincar com a terra...tem bichinos a mais...é melhor as crianças terem elas (próprias) os seus bichinhos dentro de si...não os vemos...só ficamos apavorados quando fazem correr o pano e são os actores de um drama.
o MEDO É O MAIOR CATALIZADOR NAS NOSSAS VIDAS
Sabetudo (seguir utilizador), 1 ponto , 1:44 | Sábado, 3 de Jul
Quem é que não tem medo da Morte?
Todos temos, só que não podemos viver a pensar nela, porque se assim vivessemos não conseguiamos fazer nada.
O medo é um bom catalizador, porque se olharmos para o nosso medo e se o enfrentarmos, acabamos por vencer esse nosso medo e continuamos a viver e ao menos sabemos a resposta.
Viver sem medos não é bom, pois ele faz-nos lutar e arranjar sempre uma forma de o vencer, e se o olharmos com um sorriso, conseguimos ir mais longe do que se não o enfrentarmos.
O medo de alguns faz os outros passarem-nos à nossa frente e serem eles vencedores.
A vida toda ela deve ser combatida com audácia e medo, mas com moderação e com responsabilidade e juízo.
O cancro é uma doença mortal, mas a maioria das pessoas que a tem devido a fumar, nunca deixa de fumar.
Por vezes fico triste perceber que os vícios são mais importantes para as pessoas do que a sua vida, e isso mostra exactamente a falta de auto-estima dessas pessoas, que não se amam nem um pouco, nem sabem amar o próximo, pq aquele que se amar imenso consegue amar tanto a si como ao próximo.
Por mais que a vida tenha uma duração, ela deve ser vivida e quando se está doente, não se deve chamar a morte mais cedo, mas ser-se mais forte do que a própria doença, pois essas forças das pessoas é que as faz vencer muitas vezes as suas doenças e serem capazes de serem felizes.
Nada é melhor que isso, ser-se forte no seu ego e ter força para vencer tudo e não deixar que nenhuma doença o vença.
B-F-S.
O BANAL E O SÉRIO
gaivota 49 (seguir utilizador), 1 ponto , 10:36 | Sábado, 3 de Jul
Gostei do modo como descreveu esta história,que é séria e ao mesmo tempo banal.
A falta do botão é muito interessante,até me fez lembrar uma
vez que fui tomar um copo com amigo meu,e ele era tão gordo
que tinha um botão na camisa na iminência de saltar a qualquer
momento.E eu desviava o meu copo para a esquerda e para a direita,tentando desviar-me da rota de colisão.
Realmente não se poder fumar em qualquer lado,ainda por cima tendo um cancro,é LIXADO!!
Será que moça sentíu as tesouradas nas calças?
Fiquei preocupada,coitada...
O recorde está em seis meses.
aaaa (seguir utilizador), 1 ponto , 17:47 | Sábado, 3 de Jul
Um amigo passou pelo dentista por rotina.
O médico para o paciente: abra a boca.
Já reparou nuns pontos brancos que tem nas gengivas?
A enfermeira abre a porta e diz: Sr. Dr. a sua mulher está ao telefone.
O médico: já atendo.
O médico: temos de retirar esses pontos brancos, analisá-los e depois veremos.
O paciente: faça o que achar conveniente.
5 Bisturi, linhas, tesouras em cima da mesa e duas enfermeiras auxiliares prontas para o ataque.
Entra a mesma enfermeira: a sua mulher ainda está à espera.
O médico sai, atende a esposa e volta.
Corta e cose, mete os bocados retirados num fraco e dispara: se der positivo a análise, o recorde está em seis meses.
Onze noites sem dormir; análise positiva; durou 45 dias.
Velório e sepultura.

as doenças! o medo! e os nossos melhores amigos...
Apolo (seguir utilizador), 1 ponto , 12:52 | Segunda feira, 5 de Jul
Este é um artigo muito sério, por isso espero que certas pessoas não me venham chatear, como fizeram no outro.
As doenças são todas más, aquelas que nos levam depressa e as outras que nos fazem sofrer quase uma vida, que nos invalidam e nos torturam... não são só os que fumam, que bebem demasiado ou outras coisas, são coisas que aparecem sabe-se lá como! e o medo! quem sofre não tem medo da morte, às vezes sentimos medo é de que as pessoas que nos tratam, morram! os médicos também são gente, gente que sofre por nós e por eles próprios, porque morremos todos do mesmo modo, pelo sofrimento, pena que assim seja, por isso peço sempre a Deus que prolongue a vida dos médicos que me tratam, há um médico que já me safou várias vezes, disseram-me que está muito doente, já há uns anos esteve também muito doente e eu rezei para que Deus o curasse, agora peço novamente a Deus que o deixe viver mais, porque faz falta a muita gente... obrigada DR. por este seu artigo, chato mas valioso.

Manuela R.
    Re: as doenças! o medo! e os nossos melhores amigo   
gaivota 49 (seguir utilizador), 1 ponto , 13:41 | Segunda feira, 5 de Jul
    Re: as doenças! o medo! e os nossos melhores amigo   
Apolo (seguir utilizador), 1 ponto , 1:09 | Terça feira, 6 de Jul
próstata vs ovários
jujubelle (seguir utilizador), 1 ponto , 20:59 | Terça feira, 6 de Jul
Gostei do escrito. Gosto deste Lobo, com próstata ou sem ela. Mas a raça a que pertence - a Macha - a partir de uma certa idade vive obsecada com aquela «castanhita» pelada que tanto gozo lhes deu na vida.
A gente i.e., nós, as fêmeas, as que começam com a tortura das sangrias pelas pernas abaixo aos doze anos... temos o caranguejo nos ovários, no útero, nas mamas ( isto para falar só nas zonas que interessam aos Lobos) temos a «benção» da maternidade ainda ao estilo das macacas, os bicos das nossas ricas mamocas a serem quase engolidos pelos bebézinhos e às vezes pelos paizinhos deles... mas sua santidade a próstata é coisa deles, mais importante que uma mulher inteira, coisa de homem, coisa superior. É grave sim sr. mas a maioria deles são operados e andam aí mais sãos que pêros... Mas... não é a mesma coisa... foi-se-lhes a macheza... Parvos!! Até nestas desgraças as mulheres os batem aos pontos.
Re-parvos!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!

Jujumalvada
Um quadro do quotidiano
manuelrod (seguir utilizador), 1 ponto , 10:53 | Quarta feira, 14 de Jul
Numa cena do quotidiano que todos nós já vivenciámos, tal e qual, variando apenas num ou noutro pormenor obrigatoriamente, mas a sensibilidade no captar do momento como se de um obturador de câmara fotográfica se tratasse... a mente humana num instante, nós a cada momento... simples, honesto, raro... O pesar as palavras antes de as dizer para não ferir e antes ajudar, pensar em dizer e não dizer. Respeitar o semelhante por muito que não nos diga nada. O tempo a olhar os números da análise e eles não baixaram; aqui sentiria diferente... olhá-los demasiado tempo serviria para demonstrar preocupação. O sexo quase sempre presente por detrás de tudo. Vou ao escaparate ver se encontro a revista... lolol
a depressão e seus efeitos...
Apolo (seguir utilizador), 1 ponto , 11:59 | Quinta feira, 15 de Jul
Gostaria que algum médico psiquiatra passasse por aqui e falasse na depressão, porque há por aí médicos, que sofrem dessa doença (invisível) e estão no activo... começam a dizer coisas esquisitas e a fazer coisas esquisitas e os doentes sofrem as consequências.
A ordem dos médicos devia prestar mais atenção, esta situação encontra-se nos médicos com idades à volta dos 30 anos, principalmente dentistas.
DIREITO/DEVER DE RESPOSTA
maphalda (seguir utilizador), 1 ponto , 15:52 | Quinta feira, 29 de Jul
DEVER/DIREITO DE RESPOSTA
Faz muito bem em não me dar cavaco, até porque cavaco eu dispenso. Ele desiludiu-me desde que deu o seu aval ao casamento dos alegres. Sem ofensa para o Manuel, que de alegre parece não ter nada, pois aquela barba e aquela voz das cavernas é do mais másculo que há e que uma mulher pode desejar. Uma mulher como eu, também nada gay, nada alegre, perdão. Pois porque haverão os nossos de usar o termo inglês e não proclamar aos quatro ventos que o que dá alegria é não fazer género com o género? Já diziam os nossos pais, não há nada como pôr-nos no nosso lugar, homens homens, mulheres mulheres. A ambição e a cobiça são muito feias, são as mães-gay de muita confusão, e no meu caso eu devo contentar-me com os meus modestos metros quadrados. E não deitar o olho guloso pela vidraça adentro das jeans da Célia, pois o que ela lá tem dentro, é dela e de quem mais ela quiser, macho, fêmea, até mascote. Que mudado que eu estou... no entanto ninguém proíbe os meus não tão modestos centimetros quadrados, melhor, cubicos, Cilíndricos, de começarem por desejar que a Celia seja bem "tristinha"! Para eu ter hipotese de a alegrar. POIS QUE A MINHA ALEGRIA É PORTUGUESA E SAIAM-ME DA FRENTE PORQUE A CÉLIA É MINHA. Hoje mal crepuscule vou penetrar-lhe pela janela e vou penetrar-lhe; qualquer coisa, para penetrá-la. Nem que seja em pensamento vou fazer isso tudo, e assim posso começar já, nem espero pelo crepúsculo. Já, também para esquecer aqui o meu amigo que está com um p
EM 2 TRINCAS
maphalda (seguir utilizador), 1 ponto , 12:22 | Sexta feira, 30 de Jul
Sou mesmo nova nestas lides. Ia jurar que se o meu comentário saiu truncado, não foi porque eu o tivesse trancado ou trincado. Segue assim o menu complet(ad)o,

... Nem que seja em pensamento vou fazer isso tudo, e assim posso começar já, nem espero pelo crepúsculo. Já, também para esquecer aqui o meu amigo que está com um problema de saude precisamente no sitio que se me enfuna triunfante só de pensar que eu não estou com esse problema e ainda vou a tempo de esquadrinhar cada Célia que encontro aos quarteirões, em todos por onde passo, narizinho no ar eu e ela e olhos rodando sedentos de experiências fortes que decalquem na minha tela aquela historia por contar, e o como contá-la de modo tão magistral que ela não interesse nada. Ai Célia, vou ser ordinário, comia-te toda, mas só se tu me comeres de volta e me deixares as falanjetas para agarrar na caneta e explicar-nos.
Genial
Guerreira (seguir utilizador), 1 ponto , 19:30 | Quinta feira, 5 de Ago
Ri-me tanto e tantas vezes ao longo deste(s) drama(s). GENIAL.
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