Saí d'
O Independente no dia em que Sousa Franco foi manchete por causa das cobras e lagartos que disse do Governo socialista, alto e bom som, num jantar privado. Saí por causa disso? Não, nem por sombras. Mas ao olhar a capa da altura, baseada em conversas ouvidas numa mesa ao lado, mais convencido fiquei da decisão que havia tomado.
Não sou virgem pudica, esclareça-se.
Nem tenho das redacções a visão da Imaculada Conceição.
Uma coisa talvez saiba: o jornalismo tem sobrevivido aos seus piores simpatizantes. Vejam eles terroristas da CIA por todo o lado ou o fim da liberdade de expressão pelo buraco do umbigo.
Digo já ao que venho e junto declaração de interesses: Mário Crespo, que não conheço, é um dos meus pivots preferidos de televisão. Não me grita as notícias, faz todas as perguntas incómodas como se conversasse em família e não me deixa aterrado no sofá com medo do mundo em que vivo ou do vizinho do lado. O que nos dias que correm, é muito.
Crespo, entretanto, foi notícia nos últimos dias pelas razões que todos conhecem. E voltamos a ouvir falar do Sócrates intolerável com a Comunicação Social e os jornalistas. E a mania da perseguição.
Ora, como alguns já esqueceram, o jornalismo não acabou com Manuela Moura Guedes. Nem vai acabar com Mário Crespo, esclareço já. Não há, de resto, jornalistas incómodos. Há - ou deveria haver, isso sim - jornalismo praticado sem obediências a senhores, conveniências ou pressões. Se alguém lhe chama incómodo, é apenas um ponto de vista. Respeitável como tantos outros. Até ao dia em que isso der azo a atitudes e comportamentos que as leis e a saúde da democracia não toleram.
Crespo é experiente: saberá que é mais útil ao jornalismo todos os dias, às nove de noite, e não como caso de jornal ou vedeta útil de partido popular. E Sócrates não devia ser notícia porque fala alto num restaurante ou diz coisas intimidantes ouvidas no almoço do vizinho. De propósito, ignoro os figurantes sabujos de cargo e posto, especialistas em homílias e liturgia de paróquia.
O jornalismo e a política transformados em susceptibilidades almoçadeiras, bufaria indignada ou irritações de corredor são um péssimo serviço ao jornalismo e à política. Desde que o deixem comer em paz, dormir com quem lhe apetecer e fazer uns disparates para desopilar, tenho por certo que, mais cedo do que tarde, o País condenará os actos e os factos das convivências estranhas do jornalismo com o poder, a escrita de conveniência e as tentações de quem manda. Acções de governantes com pé para além do chinelo não são de hoje. Vieram dos sítios mais insuspeitos e até de
founding fathers da democracia. Nesses casos, o jornalismo sempre teve duas opções: ou se aguenta, incansável e indomável, ou morre de véspera. O resto é tinta.