Que tenho eu no armário para além do sobretudo e de revistas velhas?
4:29 Quinta, 6 de Maio de 2010
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Quem está lá dentro a mexer-me nas coisas tentando não fazer barulho, em bicos de pés para aqui e para ali? Há alturas em que me parece ouvir assobiar, há alturas em que me parece ouvir rir para a palma da mão, baixinho, a troçar de mim. Se calhar mete-me os instrumentos da barba num saco e desaparece pela janela das traseiras, se calhar leva-me roupa, o despertador, o pratinho da mesa de cabeceira com chaves e moedas. Não me atrevo a levantar-me, não me atrevo a ir ver. Será melhor fechar à chave a porta da sala, bater a chávena do café na mesa para o assustar ou permanecer assim, como se nada fosse, transidinho de medo? Escolho permanecer assim, transidinho de medo, à escrita, e lá anda o assobio, lá anda o riso, os gongos do armário a darem sinal num gemido comprido. Que tenho eu no armário para além do sobretudo e de revistas velhas? O álbum de retratos da minha mãe cheio de defuntos pouco nítidos, um cestinho de verga com violetas de pano, almanaques antigos e sobretudo a agenda em que escrevia versos que nunca me atrevi a mostrar. Alguns são bonitos, acho eu, falam de piqueniques e procissões. E o soneto de quando melhorei da ciática, dedicado a São Teotónio porque cá em baixo, em letras miúdas, era dia de São Teotónio, e visto ser São Teotónio quem estava de serviço foi ele, mais as injecções, que me livraram das dores. Acho bem que os santos façam turnos como os enfermeiros e os polícias, deve ser cansativo gastar o tempo todo em milagres, meter empenhos a Nossa Senhora, convencer Deus que já está velho e teimoso, estender a caneta para Ele assinar a autorização, levar a autorização ao carimbo, mandá-la para a Terra, essas maçadas. Repartições lentas de anjos preguiçosos, o bengaleiro cheio de asas penduradas, pó de nuvens por todo o lado que as onze mil viagens não limpam, mas quem está lá dentro a mexer-me nas coisas tentando não fazer barulho, em bicos de pés para aqui e para ali, quem me parece ouvir assobiar, quem me parece ouvir rir para a palma da mão, a troçar de mim? Desde pequeno tenho a mania que troçam de mim, me observam à socapa, me criticam. Os colegas da escola, por exemplo, o professor
- Onde nasce o Mondego ó tu que fumas?
a telefonista do emprego, de aparelho entalado entre o ombro e a bochecha, a corrigir o verniz das unhas com o pincelzinho. Chama-se Fernanda, é mais alta que eu, no outro dia apanhei-a a murmurar
- Fofinho
no bocal, numa espécie de gemido que me levantou a alma, e eu envergonhadíssimo por a alma se levantar assim, de garfo no bolso das calças a disfarçar-lhe os arroubos. Há alturas em que o espírito se manifesta de maneira inoportuna. Gostava de poder dizer
- Fernanda
cá de baixo, derivado ao seu tamanho e ela, em resposta
- Fofinho
no bojo do casaco de peles sintéticas que lhe fica a matar, desprendendo o cabelo da gola. Usa brincos compridos com sininhos que tilintam, um anel no polegar, um diamante
(deve ser um diamante)
um diamante minúsculo entre as sobrancelhas. Às quintas há um sujeito de bigode à espera num automóvel de dois lugares, achatado como uma cigarreira. Nem sei como consegue enfiar-se naquilo, nem sei como o bigode lá cabe. Será ele o Fofinho ou haverá outros Fofinhos escondidos por aí, maiores do que eu, a darem-lhe beliscões na bochecha
- Sua má, sua mazona
num parque de estacionamento discreto, os sininhos dos brincos tilintam como loucos e o tu que fumas nem sequer com ciúmes, resignado. Uma das escriturárias dá ares de ter pena de mim, de se interessar pela minha pessoa mas nem casaco de peles nem anel no polegar, uma roupita triste, uns olhos que pingam. Tratamo-la por Dulce, que é um nome que não vai bem com a sua magreza nem com os sapatos que lembram caixas de violino. Olho-a e a alma permanece num repouso distraído, inamovível. Não acredito que seja capaz de um
- Fofinho
porque rói as unhas, quando muito solta um
- Bichaneco
que gela o mundo e acabou-se. Se calhar é a Dulce quem está lá dentro, a mexer-me nas coisas com os dedinhos tortos, só que não a imagino a assobiar nem a rir. Abraçou uma seita religiosa qualquer e aposto que foi o único abraço que deu na vida. Pode ser que encontre a agenda dos versos no armário, pode ser que simpatize comigo. O melhor é continuar assim quietinho, na esperança que se vá embora, na esperança de não escutar nenhum
- Bichaneco
através da porta fechada. O melhor é não tentar sequer um
- Dulce
sumido: oxalá salte a janela depressa, levando tudo o que me pertence.
Qual Fernanda qual Dulce, para mim, e desculpe, nem homem, pode s parecer querer desmontar a sua narrativa, mas para ser sincero, desde o príncipio da prosa fiquei com a sensação de que o violador do seu espaço era uma ave: corvo ou pega, quer um quer outro ficam bem na sua fotografia, um por ser curioso e sarcástico e o outro por ser amigo do alheio.
Nas férias, ditas grandes, de facto eram mesmo grandes, os namoros de verão duraravam, duravam...em Terras de Santa Maria, mais precisamente na terra do convento, Grijó, a casa dos meus tios tinham um grande campo de milho que era vastas vezes visitado pelas pegas. Como o espantalho se tornara insuficiente foram colocados, estrategicamente, algumas (das antigas) cáspulas metálicas de botijas de gaz com um ferro, como balalo, a fazer de sino, a que se unia um cordel que se esticava quando se dava pela presença de uma pega. A coisa resultava, afugentava as pegas e quejandos. Gostava de fazer aquele chinfrim. Porque não utilizar a mesma ténica lá por casa, atando um fio a uma sineta, e de longe accionando o fio, fazer barulho, quem sabe a coisa resultará?!
Quanto à agenda mostre, mostre "à gente" os seus desenhos de palavras. Sabe não maquei o ponto na sua última crónica, fiz gazeta , as preocupações e o tempo não deixaram e os dias foram passando um atrás do outro...e quedei-me calado sem ter me aproximado de si...que pretensão esta a nossa que o ALA nos lê.
Cá para nós fofo e bichaneco só em crónicas, mariquices.
Olá DR., é verdade que as coisas se movimentam, eu também oiço, mas não tenho medo, nem ligo! "quem não deve não teme", se não faço mal a ninguém porque hei-de ter medo? tudo vem de Deus! às vezes ELE faz-nos partidas, para ver se acreditamos realmente que ELE existe! se acreditamos, passamos a ter um sexto sentido das coisas e perdemos o medo, porque esse é um sentimento de culpa, que eu acho que não lhe assenta bem!
Os ladrões enxotam-se à vassourada, os extra-terrestres são criaturas de Deus, às vezes visitam-nos porque são bisbolhoteiros, é natural que se riam de nós, porque nos acham engraçados: a maneira como vivemos, com a mania que somos todos mais espertos uns que os outros! no fim somos todos parvos e ainda não recebemos o aviso!!!
Cumprimentos DR.
Dio... como ti amo... sinto o cheiro a mofo que saíria dos bofes de Domenico Modugno ( Seria Modugno?... era um velho imbecil ) quando andava a servir de rampa (marreca) de lançamento daquela menina de grandes olhos que cantava Dio como ti amo...
O dignmº. não sabe que hoje não se chamam essas coisas? BIchaneco... nem ao gato! Hoje chamam-se outras coisas tais como «meu velho porco» «meu javardinho» «meu cara de cu». Mudaram-se os tempos, graças a deus que mudaram, e essas mariquices de fru-frus no armário começa a cheirar-me a Allzheimer... bem, cheira mas é a uma piela mal curada que vc devia saber tão bem como eu como é que se faz para que as gavetas se calem e as coisas deixem de cirandar por onde não devem...
Compre um apple, mude o tipo de letra do seu pc, o pano de fundo, escreva cor de rosa, faça-se burro. Tão espertinho e não percebeu ainda que o escritor português não é como a mulher de César, tem de ser mto sério mas na verdade parecer asno - burríssimo.
Olhe, arranje um cão e chame-lhe «Bichaneco».
TODOS TEMOS «FANTASMAS» DENTRO DO «NOSSO ARMÁRIO»...
MUITAS VEZES GOSTAVA QUE ELES VOLTASSEM,SIM,SEMPRE...
TENHO ROUPA E OBGECTOS QUE NUNCA SEI QUE HEI-DE FAZER.
MAS GOSTO DESSES FANTASMAS,SÃO SEMPRE UM BOCADO DE NÓS...
ÁS VEZES,EU PASSEIO DENTRO DE «MIM»,MAS SÓ ME ENCONTRO A «MIM»...
QUEM ME DERA TER UM FANTASMA DENTRO DO ARMÁRIO!