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Página inicial  >  Opinião  >  António Lobo Antunes  >  Ó flor pensa com a raiz

Ó flor pensa com a raiz

Ultimamente anda deprimido: a mulher deixou-o e pediu o divórcio por causa de uma discussão sem importância. Não entende que uma discussãozeca acabe com um casamento de dezanove anos

5:53 Quinta, 10 de Dezembro de 2009
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Não é uma pessoa, é um monumento: um metro e noventa e quatro de altura, cento e dez quilos de peso, mãos gigantescas, uma força desmesurada, calça quarenta e oito, ocupa uma mesa inteira de garrafa de cerveja na mão, enche o tasco com a voz e ninguém se atreve a interrompê-lo. Não precisa de zangar-se: resolve qualquer problema com uma frase definitiva que me deixa de boca aberta de admiração. Primeiro exemplo: a empregada do tasco não havia maneira de lhe atinar com a conta e ele estimulou-lhe as capacidades mentais com uma ordem definitiva:

            - Ó flor pensa com a raiz.

            Segundo exemplo: um fulano entrou no dito tasco com os óculos escuros subidos até ao cabelo e vai ele:

            - Roubaste os óculos a um gajo mais alto do que tu?

            Terceiro exemplo: impacientou-se não sei com quem e preveniu

            - Olha que eu dou-te uma lambada que dás três voltas à cueca sem tocar no elástico.

            Quarto exemplo: andavam esses sujeitos da Câmara, vestidos de verde, a multar com entusiasmo, uma das minhas filhas hesitava em arrumar o automóvel num lugar proibido e ele sossegou-a, diante dos sujeitos verdes amedrontados:

            - Ponha-o aí à vontade, menina: por cima de mim só os aviões.

            E podia multiplicar os exemplos até ao infinito. Ultimamente anda deprimido: a mulher deixou-o e pediu o divórcio por causa de uma discussão sem importância. Não entende que uma discussãozeca acabe com um casamento de dezanove anos. Ainda por cima um problema de caracacá: que culpa tem ele da fragilidade da esposa:

            - Mal lhe rocei partiu logo os dois braços

            e isto numa surpresa sincera, a espalmar-se de inocência contra o peito:

            - Pela felicidade dos meus filhos que mal lhe rocei, senhor doutor.

            É camionista

            (se calhar, em vez de conduzir, leva o camião às costas)

            bruto e sensível ao mesmo tempo, de lágrima tão fácil quanto o murro, pronto a enternecer-se e a zangar-se, imprevisível na violência e na compaixão, orgulhoso e humilde, tão solitário no fundo, de uma agudeza instintiva e certeira que uma matreirice sem maldade acompanha. Quando pega na cerveja a garrafa desaparece-lhe na palma e o balcão cheio de gargalos vazios. Nunca o vi bêbado mas se calhar tão pouco sóbrio, navega numa zona intermédia, de álcool à vista. Agora, sem mulher nem filha

            - Tem treze anos, um metro e oitenta e dois e calça três números abaixo do meu

            passeia melancolias nos intervalos das viagens, sempre de fato e gravata, penteado, perfeito. Mostra-me fotografias da filha gigantesca, retiradas com dificuldade da confusão da carteira. Digo-lhe que é bonita, corrige

            - Um Ferrari

            e dissolve-se, imóvel, numa saudade comprida. A filha não terá apreciado os braços partidos da mãe, vá-se lá saber porquê, e recusa vê-lo, de modo que lhe ronda a escola à hora da saída, escondido numa árvore do outro lado do passeio. Mal a filha apanha o autocarro, sem dar por ele, volta a pé para o tasco a lutar contra uma humidade ácida que, de repente, lhe incomoda os olhos. No tasco as garrafas de cerveja triplicam e não se torna especialmente aconselhável falar-lhe. Por volta da vigésima oitava pede a conta, a empregada não acerta e lá vem o

            - Ó flor pensa com a raiz

            mas sem alma, cansado. Levanta-se devagar, vai-se embora sem cumprimentar ninguém e apesar de por cima dele só os aviões ei-lo indefeso e minúsculo, um trapinho à deriva que qualquer sopro empurra. Uma ocasião anunciou-me

            - A vida não é fácil, senhor doutor

            deu-me uma palmada nas costas que ele julgava cúmplice e me desarrumou os órgãos todos e sumiu-se deixando-me de fígado no peito e coração no umbigo: quase dei três voltas à cueca sem tocar no elástico. Nas últimas semanas não o tenho visto. Contaram-me que foi com o camião para o estrangeiro, o Luxemburgo ou assim, e esses trabalhos demoram muito tempo. Fingi que acreditei. Fingi tanto que acreditei de facto embora sabendo, no interior da alma, que era mentira. Ontem tive no jornal a prova disso ou pode ser que o jornal se referisse a outra pessoa. Vinha lá escrito que um camionista deixou o volante à beira de uma linha férrea, marchou uma centena de metros ao longo das calhas e abraçou-se

            (como quem abraça uma filha?)

            ao primeiro comboio que apareceu. O retrato no jornal é o dele mas talvez eu esteja enganado. De certeza que estou enganado: parecemo-nos tanto uns com os outros, não é?

 

Palavras-chave  visão, crónica, Opnião, Lobo Antunes
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A vida não é fácil, senhor Doutor
a.dúvida (seguir utilizador), 2 pontos , 11:55 | Quinta, 10 de Dezembro de 2009
Caro Dr. Lobo Antunes,
O seu texto trouxe-me à memória tantas coisas.
Já me senti profundamente desesperada, infeliz, dilacerada pelo sofrimento, mas gosto de viver.
O mais belo da vida não são as flores, mas sim a raíz. Por isso cultivo raízes daqueles que honram a palavra "amizade".
Sara.
AMAR DÓI PARA "CARAMBA"!
arturgoncalves0 (seguir utilizador), 1 ponto , 16:53 | Quinta, 10 de Dezembro de 2009
É pá, desculpe a coloquialidade, comecei a rir e acabo quase a chorar, vou-me recompor, e voltarei por estes dias.
Artur Gonçalves
O camionista...
Apolo (seguir utilizador), 1 ponto , 0:54 | Sexta, 11 de Dezembro de 2009
"A vida não é fácil Senhor Doutor", pois, não é! é preciso lutar de corpo e alma para alcançarmos a paz de que precisamos; são rudes os camionistas, kilómetros e mais kilómetros, só estrada e possívelmente um rádio que toca às vezes mal, param para dormir, quase dão a volta ao mundo e é preciso ser-se bruto por esses caminhos, senão ainda ficam sem camião e sem mercadoria; sempre sózinhos e qualquer coisa de nada, os perturba! que importância pode ter dois braços partidos! para quem leva uma vida na estrada sempre desconfiado a olhar pelo espelho, quem vem atrás?! e no fundo dum homem tão bruto, há também um coração que sofre! tenta afogar as mágoas e não consegue, a um brutamontes todos lhe viram as costas, só aviões lhe passavam por cima! fartou-se!!! só um comboio para variar e mudar de rumo...
DR. cada crónica sua, é uma passagem pela vida de cada um nós: a dona Olga, a mulher dos semáforos, hoje o camionista... Tenha uma vida longa DR., precisamos deste tipo de literatura que nos faz meditar... Obrigada!

Manuela R.
Rosalia de castro
N.Q.S. A.M.D. (seguir utilizador), 1 ponto , 1:55 | Segunda, 14 de Dezembro de 2009
" Adios rios , adios fontes "
...
Alexander Costa (seguir utilizador), 1 ponto , 15:39 | Quinta, 17 de Dezembro de 2009
Sem dúvida um texto genial por um senhor genial. É fantástica a forma como mostra o reverso da medalha... Um grande exemplo generalizado para tantas e tantas coisas na vida... tantas e tantas coisas que demonstram imponência, que fingem ser fortes e estarem acima de tudo e todos, mas cuja essência é sempre a mesma. Parabéns pelo texto magnífico.
Há males que vêm por bem
maria teresa (seguir utilizador), 1 ponto , 11:14 | Sexta, 18 de Dezembro de 2009
Nunca me atreveria a fazer uma critica ao que escreve, sou muito pequenina, a nivel literario, para o fazer mas não posso deixar de lhe dizer o seguinte.
É incrivel como os seus textos mudaram, desculpe o atrevimento, mas não posso deixar de lho dizer.
Antes, daquilo, não conseguia nunca chegar a mais de 20 páginas de um livro seu. Sentia-me ridicula, era quase como dizer mal do sorrizo da Mona Lisa. Nunca o tinha dito a ninguem, fica só entre nós, Até tenho cá em casaa alguns livros que me foram dando os amigos, porque sempre acharam que seria o meu genero.
Agora os seus textos bebem-se e é muito bom ficar embriagada com as suas palavras.
Muito Obrigada
...as palavras são tão duras e os comboios pesados
arturgoncalves0 (seguir utilizador), 1 ponto , 17:33 | Terça, 22 de Dezembro de 2009
...voltei, António.Eu sei que já não se importa que o abracemos assim com as palavras!
Na minha opinião, esta foi a crónica mais chã que até agora escreveu mas curioso é aquela que mais me me disse, e foram centenas as crónicas suas que li, desde as primeiras na revista de dominical do Público, lembra-se, claro, são filhas suas, e que arranquei e guardei algures lá por casa, até que começou a compilá-las em livro.
Aquelas primeiras eram mais depuradas mais explicitas, sabíamos a história que o António queria contar, agora "penaliza-nos" mais, com textos mais elaborados, em que as histórias estão lá mas escondidas nas sombras das palavras (isto soa-me a quelque chose).
Sabe António há muito que acho que estes textos por serem por vezes tão visuais podiam ser passados para curtas metragens, davam histórias deliciosas e a literatura podia chegar a mais gente, era bom sabe?! Democratizar as palavras, sem concessões, pois. Num local (C.L.P) onde já nos cruzamos tive a oportunidade de ver, recentemente, com a apresentação de um colega seu de profissão e autor do texto, o Richard Zimler, uma curta intitulada "Espelho Lento", vinte e poucos minutos que resultaram muito bem. Quem sabe o António poderia fazer o favor de ir por esse caminho, dá mais trabalho mas muitos ficavam a ganhar...eu sei que o António nesse ar ausente nãs se ausenta dos outros e não desdenharia que lhe travistissem os seus escritos em imagens.
Voltarei, é Natal e as palavras são tão duras...um abraço
    Re: ...as palavras são tão duras e os comboios pes   
Apolo (seguir utilizador), 1 ponto , 20:36 | Terça, 22 de Dezembro de 2009
Tem muito sumo esta crónica
arturgoncalves0 (seguir utilizador), 1 ponto , 10:22 | Quarta, 23 de Dezembro de 2009
D. Manuela R. não esteja preocupada, pode ficar sossegada. Por norma leio a crónica e faço os comentários, se fôr o caso, felizmente o nosso Amigo dá-nos sempre uma nota para nós nos espraiarmos na pauta das palavras, e só depois é que leio os outros comentários, como o seu: bem a propósito.Penso voltar pelo menos mais duas vezes porque esta crónica é simples mas muito rica. Fique bem e retribuo os votos de Boas Festas

Artur Gonçalves
Porto
FARRAPOS DE VIDA ! MAS, QUE VIDA ?
margarida douwens (seguir utilizador), 1 ponto , 11:48 | Domingo, 4 de Abril de 2010
Que essa plmada nas costas não tenham deixado mazelas Dt, pois na verdade o homem é um brutamontes com sentimentos de perda, dor e quem sabe: arrependimento ! Bom pelo menos ainda vê a filha mesmo escondido, há quem nem isso possa fazer, triste vida, tristes vidas esfarrapadas, não passa de um passa de um farrapo humano como tantos outros, nós próprios somos uns farrapos. Dt porque nos entregamos a olhar os outros ? A imaginar em cada rosto o que lhes vai lá dentro, da chamada alma ? " A vida não é fácil Dt. " E não é mesmo ! Enfrasca-se no álcool para esquecer mas não esquece,nem que com o tempo as garrafas forem aumentando. Dt porquê ? Porque temos que sentir nós a dor dos outros ? Porquê Dt ? Já não nos chega a nossa ? Sim Dt está enganado, a foto do jornal não era dele, foi para o Luxemburgo, por isso era outro, outro farrapo humano, mas não ele e, pareceme-mos todos uns com os outros sim, mas nem todos iguais, pois nem todos se dão ao trabalho de olhar o mundo à sua volta, gente que não tem sentimentos e, que pensam que o mundo é belo para todos, mas não é assim, o mundo é feito de farrapos humanos, os que vagueiam e, os que estão nas suas belas casinhas, pensam eles que são diferentes, não passando também de farrapos sujeitos a virem a ser mais um brutamontes cheio de sentimentos que abraça a sua ultima saida ! Dt por vezes gostava de não ter sentimentos e de não me sentar junto a um sem-abrigo oferecendo um cigarro e querendo saber como foi sua vida e dói Dt, dói imens
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