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Ó flor pensa com a raiz

Ultimamente anda deprimido: a mulher deixou-o e pediu o divórcio por causa de uma discussão sem importância. Não entende que uma discussãozeca acabe com um casamento de dezanove anos

5:53 Quinta-feira, 10 de Dez de 2009
Não é uma pessoa, é um monumento: um metro e noventa e quatro de altura, cento e dez quilos de peso, mãos gigantescas, uma força desmesurada, calça quarenta e oito, ocupa uma mesa inteira de garrafa de cerveja na mão, enche o tasco com a voz e ninguém se atreve a interrompê-lo. Não precisa de zangar-se: resolve qualquer problema com uma frase definitiva que me deixa de boca aberta de admiração. Primeiro exemplo: a empregada do tasco não havia maneira de lhe atinar com a conta e ele estimulou-lhe as capacidades mentais com uma ordem definitiva:

            - Ó flor pensa com a raiz.

            Segundo exemplo: um fulano entrou no dito tasco com os óculos escuros subidos até ao cabelo e vai ele:

            - Roubaste os óculos a um gajo mais alto do que tu?

            Terceiro exemplo: impacientou-se não sei com quem e preveniu

            - Olha que eu dou-te uma lambada que dás três voltas à cueca sem tocar no elástico.

            Quarto exemplo: andavam esses sujeitos da Câmara, vestidos de verde, a multar com entusiasmo, uma das minhas filhas hesitava em arrumar o automóvel num lugar proibido e ele sossegou-a, diante dos sujeitos verdes amedrontados:

            - Ponha-o aí à vontade, menina: por cima de mim só os aviões.

            E podia multiplicar os exemplos até ao infinito. Ultimamente anda deprimido: a mulher deixou-o e pediu o divórcio por causa de uma discussão sem importância. Não entende que uma discussãozeca acabe com um casamento de dezanove anos. Ainda por cima um problema de caracacá: que culpa tem ele da fragilidade da esposa:

            - Mal lhe rocei partiu logo os dois braços

            e isto numa surpresa sincera, a espalmar-se de inocência contra o peito:

            - Pela felicidade dos meus filhos que mal lhe rocei, senhor doutor.

            É camionista

            (se calhar, em vez de conduzir, leva o camião às costas)

            bruto e sensível ao mesmo tempo, de lágrima tão fácil quanto o murro, pronto a enternecer-se e a zangar-se, imprevisível na violência e na compaixão, orgulhoso e humilde, tão solitário no fundo, de uma agudeza instintiva e certeira que uma matreirice sem maldade acompanha. Quando pega na cerveja a garrafa desaparece-lhe na palma e o balcão cheio de gargalos vazios. Nunca o vi bêbado mas se calhar tão pouco sóbrio, navega numa zona intermédia, de álcool à vista. Agora, sem mulher nem filha

            - Tem treze anos, um metro e oitenta e dois e calça três números abaixo do meu

            passeia melancolias nos intervalos das viagens, sempre de fato e gravata, penteado, perfeito. Mostra-me fotografias da filha gigantesca, retiradas com dificuldade da confusão da carteira. Digo-lhe que é bonita, corrige

            - Um Ferrari

            e dissolve-se, imóvel, numa saudade comprida. A filha não terá apreciado os braços partidos da mãe, vá-se lá saber porquê, e recusa vê-lo, de modo que lhe ronda a escola à hora da saída, escondido numa árvore do outro lado do passeio. Mal a filha apanha o autocarro, sem dar por ele, volta a pé para o tasco a lutar contra uma humidade ácida que, de repente, lhe incomoda os olhos. No tasco as garrafas de cerveja triplicam e não se torna especialmente aconselhável falar-lhe. Por volta da vigésima oitava pede a conta, a empregada não acerta e lá vem o

            - Ó flor pensa com a raiz

            mas sem alma, cansado. Levanta-se devagar, vai-se embora sem cumprimentar ninguém e apesar de por cima dele só os aviões ei-lo indefeso e minúsculo, um trapinho à deriva que qualquer sopro empurra. Uma ocasião anunciou-me

            - A vida não é fácil, senhor doutor

            deu-me uma palmada nas costas que ele julgava cúmplice e me desarrumou os órgãos todos e sumiu-se deixando-me de fígado no peito e coração no umbigo: quase dei três voltas à cueca sem tocar no elástico. Nas últimas semanas não o tenho visto. Contaram-me que foi com o camião para o estrangeiro, o Luxemburgo ou assim, e esses trabalhos demoram muito tempo. Fingi que acreditei. Fingi tanto que acreditei de facto embora sabendo, no interior da alma, que era mentira. Ontem tive no jornal a prova disso ou pode ser que o jornal se referisse a outra pessoa. Vinha lá escrito que um camionista deixou o volante à beira de uma linha férrea, marchou uma centena de metros ao longo das calhas e abraçou-se

            (como quem abraça uma filha?)

            ao primeiro comboio que apareceu. O retrato no jornal é o dele mas talvez eu esteja enganado. De certeza que estou enganado: parecemo-nos tanto uns com os outros, não é?

 

Palavras-chave   Opnião   Lobo Antunes   Crónica   VISÃO
 
 
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A vida não é fácil, senhor Doutor
a.dúvida (seguir utilizador), 2 pontos , 11:55 | Quinta-feira, 10 de Dez de 2009
Caro Dr. Lobo Antunes,
O seu texto trouxe-me à memória tantas coisas.
Já me senti profundamente desesperada, infeliz, dilacerada pelo sofrimento, mas gosto de viver.
O mais belo da vida não são as flores, mas sim a raíz. Por isso cultivo raízes daqueles que honram a palavra "amizade".
Sara.
AMAR DÓI PARA "CARAMBA"!
arturgoncalves0 (seguir utilizador), 1 ponto , 16:53 | Quinta-feira, 10 de Dez de 2009
É pá, desculpe a coloquialidade, comecei a rir e acabo quase a chorar, vou-me recompor, e voltarei por estes dias.
Artur Gonçalves
O camionista...
Apolo (seguir utilizador), 1 ponto , 0:54 | Sexta-feira, 11 de Dez de 2009
"A vida não é fácil Senhor Doutor", pois, não é! é preciso lutar de corpo e alma para alcançarmos a paz de que precisamos; são rudes os camionistas, kilómetros e mais kilómetros, só estrada e possívelmente um rádio que toca às vezes mal, param para dormir, quase dão a volta ao mundo e é preciso ser-se bruto por esses caminhos, senão ainda ficam sem camião e sem mercadoria; sempre sózinhos e qualquer coisa de nada, os perturba! que importância pode ter dois braços partidos! para quem leva uma vida na estrada sempre desconfiado a olhar pelo espelho, quem vem atrás?! e no fundo dum homem tão bruto, há também um coração que sofre! tenta afogar as mágoas e não consegue, a um brutamontes todos lhe viram as costas, só aviões lhe passavam por cima! fartou-se!!! só um comboio para variar e mudar de rumo...
DR. cada crónica sua, é uma passagem pela vida de cada um nós: a dona Olga, a mulher dos semáforos, hoje o camionista... Tenha uma vida longa DR., precisamos deste tipo de literatura que nos faz meditar... Obrigada!

Manuela R.
Rosalia de castro
N.Q.S. A.M.D. (seguir utilizador), 1 ponto , 1:55 | Segunda-feira, 14 de Dez de 2009
" Adios rios , adios fontes "
...
Alexander Costa (seguir utilizador), 1 ponto , 15:39 | Quinta-feira, 17 de Dez de 2009
Sem dúvida um texto genial por um senhor genial. É fantástica a forma como mostra o reverso da medalha... Um grande exemplo generalizado para tantas e tantas coisas na vida... tantas e tantas coisas que demonstram imponência, que fingem ser fortes e estarem acima de tudo e todos, mas cuja essência é sempre a mesma. Parabéns pelo texto magnífico.
Há males que vêm por bem
maria teresa (seguir utilizador), 1 ponto , 11:14 | Sexta-feira, 18 de Dez de 2009
Nunca me atreveria a fazer uma critica ao que escreve, sou muito pequenina, a nivel literario, para o fazer mas não posso deixar de lhe dizer o seguinte.
É incrivel como os seus textos mudaram, desculpe o atrevimento, mas não posso deixar de lho dizer.
Antes, daquilo, não conseguia nunca chegar a mais de 20 páginas de um livro seu. Sentia-me ridicula, era quase como dizer mal do sorrizo da Mona Lisa. Nunca o tinha dito a ninguem, fica só entre nós, Até tenho cá em casaa alguns livros que me foram dando os amigos, porque sempre acharam que seria o meu genero.
Agora os seus textos bebem-se e é muito bom ficar embriagada com as suas palavras.
Muito Obrigada
...as palavras são tão duras e os comboios pesados
arturgoncalves0 (seguir utilizador), 1 ponto , 17:33 | Terça-feira, 22 de Dez de 2009
...voltei, António.Eu sei que já não se importa que o abracemos assim com as palavras!
Na minha opinião, esta foi a crónica mais chã que até agora escreveu mas curioso é aquela que mais me me disse, e foram centenas as crónicas suas que li, desde as primeiras na revista de dominical do Público, lembra-se, claro, são filhas suas, e que arranquei e guardei algures lá por casa, até que começou a compilá-las em livro.
Aquelas primeiras eram mais depuradas mais explicitas, sabíamos a história que o António queria contar, agora "penaliza-nos" mais, com textos mais elaborados, em que as histórias estão lá mas escondidas nas sombras das palavras (isto soa-me a quelque chose).
Sabe António há muito que acho que estes textos por serem por vezes tão visuais podiam ser passados para curtas metragens, davam histórias deliciosas e a literatura podia chegar a mais gente, era bom sabe?! Democratizar as palavras, sem concessões, pois. Num local (C.L.P) onde já nos cruzamos tive a oportunidade de ver, recentemente, com a apresentação de um colega seu de profissão e autor do texto, o Richard Zimler, uma curta intitulada "Espelho Lento", vinte e poucos minutos que resultaram muito bem. Quem sabe o António poderia fazer o favor de ir por esse caminho, dá mais trabalho mas muitos ficavam a ganhar...eu sei que o António nesse ar ausente nãs se ausenta dos outros e não desdenharia que lhe travistissem os seus escritos em imagens.
Voltarei, é Natal e as palavras são tão duras...um abraço
    Re: ...as palavras são tão duras e os comboios pes   
Apolo (seguir utilizador), 1 ponto , 20:36 | Terça-feira, 22 de Dez de 2009
Tem muito sumo esta crónica
arturgoncalves0 (seguir utilizador), 1 ponto , 10:22 | Quarta-feira, 23 de Dez de 2009
D. Manuela R. não esteja preocupada, pode ficar sossegada. Por norma leio a crónica e faço os comentários, se fôr o caso, felizmente o nosso Amigo dá-nos sempre uma nota para nós nos espraiarmos na pauta das palavras, e só depois é que leio os outros comentários, como o seu: bem a propósito.Penso voltar pelo menos mais duas vezes porque esta crónica é simples mas muito rica. Fique bem e retribuo os votos de Boas Festas

Artur Gonçalves
Porto
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