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Breve encontro com Jorge Silva Melo

O dever da inactualidade

Conversa com o encenador de Rei Édipo, em cena no Teatro Nacional D. Maria II, até 28 de Março

Francisca Cunha Rêgo
15:30 Quarta feira, 3 de Mar de 2010
Jorge Silva Melo, encenador de Rei Édipo
Jorge Silva Melo, encenador de Rei Édipo
Marcos Borga

Há sussurros no ar e vozes que aparecem de todos os cantos do teatro. São os homens de Tebas que vêm falar com o seu Rei Édipo. Um coro de muitas frases que questiona as razões para a peste que assola a cidade. E é o próprio Édipo - em mais uma excelente interpretação de Diogo Infante - quem mais se questiona. As suas dúvidas vão desvendar a história que faz desta obra de Sófocles um dos exemplos máximos da tragédia grega. Jorge Silva Melo encena a sua versão do clássico que conta com as interpretações de Virgílio Castelo (Creonte) e Lia Gama (Jocasta), José Neves (um Sacerdote), António Simão (Tirésias), António Banha (um Mensageiro), entre muitos outros. Rei Édipo, uma co-produção do Teatro Nacional D. Maria II (TNDMII) e dos Artistas Unidos, está em cena na sala principal do TNDMII, até 28 de Março. O encenador dirigirá O Quarto e a Comemoração, de Harold Pinter, em Junho, no Teatro Municipal de Almada.

Jornal de Letras: "Nunca chames feliz a um homem enquanto não tiver atingido o fim da sua vida", diz-se em Rei Édipo. Concorda?
Jorge Silva Melo: Sim, embora seja estranho considerar feliz aquele que morreu. Pois choramos nas horas da morte. Mas Mozart sabia-o, por isso o seu Requiem. Ou o Exultate Jubilate, cantata talvez menor que a arte sublime de Teresa Stich-Randall sempre me traz, essa ideia de podermos chamar feliz a morte. Mas podemos chamar feliz a alguém? Ou infeliz?

Por que razão resolveu encenar Rei Édipo agora? O que despoletou a vontade de fazer este clássico?
Foi o desejo de outro, do Diogo Infante. E um desejo de lhe agradar, de agradar aos actores, de lhes seguir a linha, de os ver. Quando o Diogo me falou do Édipo, até me 'bati' a mim próprio: "Que burro que sou, como é que não pensei nisso?", tão certo lhe ficava o papel, o texto, tão bem o verso, tão bem tudo: era a força justa de uma evidência. E tem sido uma suavíssima amizade, tão delicadamente...

Como decorreu o processo de adaptação da obra?
O Diogo concordou que eu poderia reescrever o texto, apresentei-lhe uma primeira versão em Julho, creio, lemo-la com os actores principais, gravei-a, passei o Verão em casa a corrigi-la, emendá-la, à luz de grandes traduções existentes (Salvatore Quasimodo, Jean Bollack, a Maria do Céu Zambujo Fialho...) e com os conselhos amigos, práticos e sabedores do José Pedro Serra que me ia dizendo: "Há verbos querer a mais, os gregos ainda não jogavam com a vontade como nós...", etc, etc.

E encontra-lhe alguma actualidade?
Nenhuma. Mas também não tem qualquer actualidade a Capela Sistina, o Duomo de Florença, a Sexta de Beethoven, ou a Marselhesa. E a Internacional? E no entanto, todas me fazem chorar. Evitar a actualidade também é o nosso dever, nem sempre devemos ser telejornais.

O que fundamentalmente o preocupou na encenação?
A claridade, a clareza, a justeza. Pensei tantas vezes: e a Sophia que pensaria ela, aquela cuja investida pela Grécia ainda me marca (me marcou sempre...), aquela cujo português não me canso de ouvir, aquela que encontrava nesse horizonte grego a serenidade, e o cantava? Talvez fosse isso: criar uma linha tão recta, tão nítida que tocasse Sophia. E o Padre Manuel Antunes, meu queridíssimo professor de Cultura Clássica, extraordinário mestre. E Heiner Müller, meu amigo, cujo alemão brutal tanto me perseguiu, aqui em casa, a remexer os versos neste português tanto dado à lástima, ao lamento. Talvez tenha sido isso, falar com tantos dos meus mortos, honrá-los. E com os vivos? Não sei...

Como surgiu a ideia da música ao vivo? Porque fez essa opção?
Mal o Diogo me falou do Édipo lembrei-me da estreia da Oresteia, de Xenakis, em Avignon em 1968 (eu estava lá); uma obra genial para percussão e coro. E através de Xenakis, lembrei-me do Pedro Carneiro, músico, instrumentista, compositor, maestro. Que eu não conhecia. Mas que logo me disse que sim - e tem sido uma enorme honra para mim ter como colaborador alguém tão especial, tão talentoso e tão sério como o Pedro. A tragédia é música: e a música, a foz das palavras, é lá que tudo desemboca, em remoinhos. Os dois momentos a solo (solo de percussão, solo de cello) são absolutamente sublimes. Ter estado na origem desses trechos, ó deuses, perdoará todos os meus crimes passados e futuros...

Que planos de outros palcos já tem pensados?
Nada, queria tanto estar a fazer o Dimitris Dimitríadis (tragédia, grega, mas contemporânea), o Enda Walsh (tragédia, irlandesa, mas contemporânea...); mas onde, onde, onde?.... Lembram-se de A Capital, o tal edifício no Bairro Alto onde fomos felizes? Não se lembram? Embora ocupar aquilo?

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