Não é só Alegre: Cavaco também tem de pôr as barbas de molho
2:48 Quinta, 25 de Fevereiro de 2010
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A candidatura a Belém do médico e presidente da AMI, Fernando Nobre, tem o condão de baralhar completamente o jogo político e de colocar os estados maiores de todos os partidos a fazer contas de calcular. Nobre não é um desconhecido, tem penetração nos media, popularidade acima do comum (para um candidato independente) e está suficientemente descomprometido para poder conquistar votos à esquerda e à direita. Enganam-se os que pensam que o homem da AMI vai apenas dividir o eleitorado em princípio afecto a Manuel Alegre. Cavaco também tem de pôr as barbas de molho.
Fernando Nobre é um desmancha-prazeres. Ele pode até ser próximo de Mário Soares - mas os eleitores não o vêem como um socialista e, muito menos, como um homem de partido. Os portugueses têm de Fernando Nobre a ideia de uma espécie de "santo de serviço" e será difícil denegri-lo com o rótulo de "politiqueiro", como a candidatura de Alegre já começou a insinuar. A sua intervenção dá resposta aos bonitos discursos dos políticos que apelam à participação dos cidadãos e da sociedade civil na política - escondendo, ao mesmo tempo, a intenção de que essa participação seja devidamente enquadrada partidariamente. Pouco sinceros, os partidos não querem cativar independentes, antes pretendem angariar "idiotas úteis".
Ora, Fernando Nobre faz apelo a um certo sentimento antipartidário. Sendo essa a sua força, ela pode ser, também, a sua maior fragilidade. O tom do seu discurso de apresentação, vagamente sebastianista, está na fronteira do populismo fácil antipolíticos. O candidato terá de encontrar um ponto de equilíbrio que o impeça de resvalar para a demagogia antipartidária, e lhe permita afastar uma certa imagem de arrivismo. Pelo contrário, sendo de fora dos partidos e, portanto, insuspeito, Nobre tem aqui uma oportunidade de evidenciar a sua "magistratura de influência", na campanha, de uma forma pedagógica e construtiva, destinada a atrair, e não a afastar, ainda mais, os cidadãos da política e dos políticos. E esse será o seu mais difícil teste.
Nos últimos dias, comentadores e políticos têm queimado os neurónios a tentar colar Fernando Nobre a uma qualquer referência à esquerda ou à direita. Desconcertante, o homem troca-lhes as voltas: ele já apoiou candidatos do PS, do PSD e do Bloco de Esquerda. E é difícil entrar em cabeças formatadas que possa haver alguém capaz de fazer as suas opções racionalmente e sem atender a cores "clubísticas". Causa particular estranheza - e indicia uma certa desorientação - que um homem como Alfredo Barroso, que foi chefe da Casa Civil de Mário Soares e pertence àquele clã dos republicanos puros, tenha arrasado esta candidatura, desconfiando dela com o argumento de que não vem da política, ou se faz contra os políticos. Ora, a República fez-se precisamente para que um pedreiro, um militar, um comerciante, um operário ou um médico - um cidadão livre, no entendimento que Sólon tinha da democracia ateniense - possa ser Presidente. A República não admite castas. A política não é uma coutada, como lembrou o candidato. E é por isso que esta, com todos os seus defeitos, é, na história da nossa democracia, a mais republicana das candidaturas presidenciais.
Plenamente de acordo com o que escreveu.
Fernando Nobre diz que o seu espaço político é a liberdade, a justiça social, o humanismo, a ética, a transparência na vida pública... palavras que pronunciadas no momento actual têm um impacto enorme.
Não sei qual o caminho que terá a candidatura de Fernando Nobre. Creio que não terá condições para reunir a esquerda, mas dificultará a tarefa a quem o fizer. Creio que conseguirá igualmente granjear parte significativa do eleitorado de direita, o que na minha opinião Alegre nunca conseguiria.
Tudo depende de como Nobre gerir a sua campanha. Ele acabou de chegar. Vai haver uma campanha. E aí a experiência política é necessária.
Mas talvez por isso muitos prefiram a (in)experiência política de Fernando Nobre à experiência política de Manuel Alegre... e de outro(s) candidato(s).
Caro F.luis, felicito-o pelo comentário inteligente, por ter puxado pelo lado republicano da coisa. Infelizmente, os Presidentes são uma espécie em vias de extinção, dado o parlamentarismo dominante e o peso do Governo e do primeiro-ministro. E chega a ser confrangedor ver os que os candidatos NÃO PODEM prometer nas campanhas presidenciais...
Lúcido o comentário (desculpe lá a adjectivação).
Pela parte que me toca (uma parte de "esquerda" não-PS), a surpresa da candidatura de Fernando Nobre obriga-me no mínimo a seguir o seu percurso daqui para a frente.
Nós eleitores, nós povo, andamos um bocadinho ávidos de verdade, de genuinidade. Virá daqui?
No entanto, penso que quem tem mesmo que pôr as barbas de molho é Alegre, o "socialista", o "lutador", "o inconformado" que, no fundo, nunca o foi (pelo menos depois do 25 de Abril, honra se lhe faça ao seu percurso anterior).
Nobre talvez seja a solução para aqueles que, nunca votando em Cavaco, engoliriam um sapo se tivessem que votar em Alegre.
Eu,embora seja um simples operário emigrante na Holanda desde 1964 e já velhote(quase 86 anos)sou rèpublicano por uma questão de princípio moral e político,ainda que viva sob uma Monarquia.Pois eu acho que os Dirigentes Políticos desde o Presidente da Junta de Freguesia até ao Presidente da Rèpública,devem ser eleitos por
sufrágio universal.Mas nesta sociedade em que vivemos,existem
classes sociais e ninguém,em Política,é independente ou neutral,
ainda que não esteja filiado em nenhum Partido Político.E êsse
senhor Nobre,com sua nobreza,pertence certamente à classe
alta ou média-alta da Burguesia,e portanto defenderá os interêsses da classe Burguesa,como todos os demais Presidentes que téem
ocupado o Palácio de Belem.
Com populismo e demagogia,
muita mentira,verdade parece,
mas em liberdade e democracia,
o Povo tem o Governo que merece.
A Pátria-Mãe p'ra mim madrasta,
empurrou-me p'rà emigração,
e maldita seja a Governação,
que Portugal p'rà miséria arrasta.
Temo, com pena minha, que a sua candidatura não tenha sucesso, ou seja, que não ganhe as eleições presidenciais do próximo ano. Se é a vitória que Fernando Nobre pretende. Se é só para abanar as consciências, não é preciso candidatar-se a coisa alguma. Já o faz com sucesso.
O poder dominante em Portugal, ou seja os lobbies de todos os partidos políticos, não suportam quem em nome de consciência e de cidadania se intrometa na sua área de influência. Isto, porque lhes tira poder e alguns "tachos", leia-se serem pagos por serem incompetentes.
É minha opinião que deviamos ser como a França ou os EUA. O presidente é que manda, ponto. Evitava-se que umas centenas de "tachistas" se juntassem em duas mesas, ou seja no Palácio de Belém e em S.Bento.