Quarta-feira, 17 Mar
FARMÁCIAS:   Lisboa - Farmácia ...
    |    TRÂNSITO:   Albufeira  
Trânsito condicionado na A2 (Auto-estrada do Sul) no sentido Algarve - Lisboa entre o nó da A22 (Via do Infante) e o nó de Silves (Manutenção na via esquerda).
  A2
    |    TEMPO:   Lisboa   Parcialmente nublado   min: 9ºC | máx: 17ºC
Página inicial  >  Opinião  >  Francisco Galope  >  O cubano que veio para o frio

O cubano que veio para o frio

Em Berlim, um havanês guia os turistas através de uma prisão em que esteve como preso político

Francisco Galope, em Berlim
10:50 Quinta-feira, 29 de Out de 2009
Gere as pausas entre frases como que a prender a atenção de quem ou ouve. "Quem entrava aqui estava condenado. Não havia fuga possível. Jorge Luís Vázquez, 50 anos, cubano guia grupos de turistas através da antiga prisão de Hohenschönhausen, um antigo estabelecimento prisional de Berlim, outrora operado pela temida polícia secreta da antiga RDA, a Stasi.

Esta era uma das 17 prisões para prisioneiros políticos que existiram no território na parte comunista da Alemanha durante a Guerra Fria. Jorge conta que havia mais salas de interrogatório do que celas, numa proporção de 120 para 103. A luz naqueles corredores é fria e, estranhamente, ainda se sente o cheiro da ditadura, sobretudo nos pisos superiores onde se sucedem as salas de interrogatório, que têm o soalho revestido a linóleo claro.

No "submarino", uma zona da prisão assim chamada por se situar debaixo da terra também cheira, mas a mofo. "Chamam-lhe assim porque, quando aqui entravam, as pessoas desapareciam, submergiam. E nessa submersão nunca dava para perceber se era de dia ou de noite", explica o guia.

Jorge movimenta ruidosamente os ferrolhos das pesadas portas de metal. Exemplifica como os guarda faziam e imita-lhes a voz de comando. "Aqui deixavas de ter nome e passavas a ser um número". Jorge cerra os punhos e junta-os delicada mente. Ajeita o cachecol e emociona-se enquanto conta a história desta prisão. Ele não é um guia profissional. Viveu o que aqui conta aos visitantes. Isto é, sofreu-o na pele.

Quando, na década de 80, se apaixonou por uma alemã oriental e veio viver para cá ("são as mulheres que nos levam à certa", dirá à margem da visita com um brilho nos seus olhos azuis pequenos), nada fazia prever que seria detido pela Stasi para ser interrogado. O delito de Jorge foi o de ter-se dado com as pessoas erradas. Ou melhor, com homens e mulheres suspeitos de terem contactos com ocidentais, logo potenciais espiões. O azar foi isso ter acontecido numa época e num lugar em que contar uma anedota podia ser considerado uma deslealdade para com o "Estado de Operários e Camponeses", o que dava, obviamente prisão.

Bastou isso para uma semana de interrogatórios, de tortura do sono, de coacção psicológica. E claro para o separarem da mulher. Foi deportado para Cuba, onde voltou a ser detido pela polícia política do regime castrista. Não conseguiram provar nada contra ele e após três dias de interrogatório foi "condenado" a cinco anos de termo de identidade e residência, à proibição de deixar o país e a uma perseguição permanente.

O muro de Berlim caiu entretanto. E, depois dos cinco anos, Jorge regressou à Alemanha e à "sua" prisão, entretanto convertida em museu onde é actualmente guia.

 
 
Aumentar texto  Aumentar texto Diminuir texto  Diminuir texto ImprimirImprimir Enviar por emailEnviar por email ComentarComentar
 
Partilhe este artigo: del.icio.us digg facebook myspace google search.live
 
 
6 comentários
Página 1 de 1   
ordenar por:
mais votados ▼
Caminhos da memória
a.dúvida (seguir utilizador), 1 ponto , 21:01 | Quinta-feira, 29 de Out de 2009
Parabéns pelo seu texto, pela forma brilhante como através do personagem Jorge Luís Vásquez nos conduz numa visita guiada pelos caminhos da sua memória, de sentimentos e emoções, de marcas que fazem desta antiga "prisão" um museu de história.
Sara
Um livro de Saramago
ffortes (seguir utilizador), 1 ponto , 17:18 | Sexta-feira, 30 de Out de 2009
Espera-se agora, ansiosamente, um livro de José Saramago sobre este autêntico «catálogo de horrores»...
Podemos
caprylm56 (seguir utilizador), 1 ponto , 16:31 | Sábado, 31 de Out de 2009
Ter o maior calo de vida, mas à sempre histórias que nos supreendem
Hipocrisia
Catwoman (seguir utilizador), 1 ponto , 10:00 | Terça-feira, 3 de Nov de 2009
Só se fala das misérias do comunismo... O que me irrita não é isso, é haver dois pesos e duas medidas. E Pinochet? E Guantanamo? E MubaraK? E José Eduardo dos Santos? E a Caça às bruxas de Macarthy? E Israel? Sim, porque o Hitler acaba por ser um alvo evidente.
...
Betty Boop (seguir utilizador), 1 ponto , 23:57 | Quarta-feira, 30 de Dez de 2009
"Havanês", depois passa a cubano... pesquiso por "havanês" e só aparecem sites sobre uma raça de cães "Bichon Havanês" (não estou na minha residência e aqui não tenho dicionários). Mais adiante: "(...) cubano guia grupos de turistas(...)"... as vírgulas ao acaso, umas vezes sim, outras não... depende do vento. No meu trabalho, cada erro é descontado no bónus trimestral... não, não sou professora, nem jornalista. Sim, tenho avaliação mensal e trimestral e gosto que assim seja. Esperemos que os outros muros desapareçam brevemente...
JÁ NINGUEM OS QUER
nunes (seguir utilizador), 1 ponto , 23:15 | Segunda-feira, 8
O comunismo ,não se conduz como uma doutrina ,mais lhe poderiamos chamar uma raça ,mas da piores que a espécie humana alguma vez conheceu .Eles mátam em prol da ditradura e dizem-se democratas,esles roubam e dizem que é o direito à tera , eles fingem que trabalham e já estão cansados por isso têem que descansar fazendo greves ,para a qual qualquer motivo serve.São criatura que já ninguém os quer, só mesmo o país Africano situado na Europa chamado Portugal.
6 comentários
Página 1 de 1   
PUB
 
Aviso
FAQ. Como funciona a comunidade na Visão
Para fazer o seu comentário precisa de estar registado.

Se já for utilizador registado, coloque o seu mail e palavra-chave nos campos para o efeito, na página de registo.
Clique aqui para se registar.

Em caso de dúvida escreva-nos para redaccao@visao.pt, seremos tão breves quanto possível a responder.
Grupo ImpresaACAP