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O crime que compensa

Nos últimos 30 anos dominou a cultura-armadilha de instrumentalização do Estado através do discurso anti-Estado

3:50 Quinta, 8 de Abril de 2010
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A corrupção é um crime que compensa. Os ganhos são sedutores, os riscos de detecção são baixos, a eventualidade de se vir a ser julgado e condenado é remota, a perda da reputação, quando ocorre, é passageira, e é quase sempre neutralizada pela "compreensível vontade" de ganhar (ou de deixar fazer) um negócio que afinal "reverte a favor" do país, da economia, da cidade, etc...

Em geral, o corruptor activo ou passivo não se vê a enveredar por uma carreira criminal. Olha para a ocasião como uma oportunidade que pode não se repetir e que qualquer um na mesma situação não desperdiçaria. Durante muito tempo os polícias de investigação criminal, treinados para investigar homicidas e bandidos, tiveram dificuldade em colar a imagem de criminoso a pessoas bem vestidas e bem falantes, de classe superior à deles, muitas vezes ameaçando retaliação por via de "ligações com os de cima".

Em face disto, porque é que em certos países há tanta corrupção e noutros tão pouca? Há pouca quando se verificam três condições: cultura de prevalência do público sobre o privado; prevenção por via de transparência e de mecanismos de acompanhamento dos processos onde pode ocorrer corrupção; combate eficaz ao crime quando ocorre e punição rápida e exemplar. A presença destas condições implica leis, instituições e meios; mas implica sobretudo cultura pública de prioridade do bem comum e do Estado como principal garante dele.

No nosso país não se verifica actualmente nenhuma destas condições. Nos últimos 30 anos dominou uma cultura-armadilha de instrumentalização do Estado através do discurso anti-Estado. A crítica do Estado, em vez de ter sido utilizada para criar espaços de genuína autonomia da economia e da sociedade civil - espaços que implicam riscos como condição de oportunidades - foi utilizada para criar oportunidades sem riscos mediante o recurso a um Estado-prostituto seguro que, não tendo utilidade geral, pode ser utilizado para servir interesses particulares cuja satisfação supera sempre pagamento. O PSD e o PS contribuíram por igual para a cultura da prostituição do Estado, servidos por uma bateria de comentadores e analistas conservadores que, com uma intensidade sem paralelo na Europa, foram convertendo diariamente a realidade do Estado a menos na ficção do Estado a mais.

Sendo um crime de oportunidade, a corrupção pode ser eficazmente prevenida, reduzindo as oportunidades de ela ocorrer. As oportunidades têm lugar em quatro domínios: grandes contratos de obras e de fornecimentos do Estado; parcerias público-privadas; urbanismo; financiamento dos partidos. Para qualquer destes casos há medidas de prevenção cuja eficácia está amplamente testada. Para os grandes contratos e parcerias, a criação de unidades de acompanhamento dos contratos constituídas por magistrados e técnicos especializados, pois uma vírgula ou um adjectivo podem significar milhões de euros. (O Tribunal de Contas faz hoje fiscalização concomitante mas limitada aos aspectos jurídicos. Ora a corrupção ocorre quase sempre numa zona cinzenta entre o legal e o ilegal, a zona do alegal.) Para o urbanismo, a introdução de mecanismos de democracia participativa, nomeadamente do orçamento participativo a nível municipal. Para o financiamento dos partidos, o financiamento público exclusivo.

Quando não prevenida, a corrupção pode ser combatida pelas seguintes medidas: demissão imediata dos responsáveis dos institutos de regulação em caso de corrupção na área regulada; selectividade do combate, centrando-o na grande corrupção; criação de equipas de investigação especializadas e multidisciplinares; acesso irrestrito do MP às contas bancárias; protecção de denunciantes ou arrependidos; sistema de guarda em cofre e acesso restrito a inquéritos que atraem a violação do segredo de justiça; punição exemplar dos media por revelações indevidas que destroem prova.

Afirmar a vontade política de eliminar a corrupção e não adoptar estas medidas é pura hipocrisia.

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opinando a propósito
Zé Cravinho (seguir utilizador), 2 pontos , 16:55 | Quinta, 8 de Abril de 2010
Boaventura Sousa Santos,acerta mesma na mouche,mas sucede que
com o Liberalismo Económico,com o Livre Mercado em que domina
o«salve-se quem puder»é muito difícil evitar a corrupção seja ela
moral ou material.E claro está que até mesmo a Plebe procura imitar
os que estão acima dela na escala social ou seja a Pequena,a Média e
a grande Burguesia.É uma espécie de cancro que não tem cura,ou
pior ainda,é uma espécie de tuberculose contagiosa.Pois quando o
Povo vê tanta velhacaria,tanta pulhice,tanta hipocrisia,é natural
que deixe de ter confiança nos Políticos que governam o País.
Se os oportunistas,os velhacos,os pulhas,os corruptos no tempo da Ditadura clerical fascista do Estado Novo sabiam como tirar partido
da Situação,agora com o Liberalismo Económico e em liberdade e democracia,ainda muito melhor e mais fàcilmente êles conseguem
tirar as melhores vantagens.Depois do 25 d'Abril,surgiram de um dia
para outro,Partidos políticos formados por indivíduos que,do pé p'rà mão,se tornaram democratas.Mas democrata tem a ver com
Demo,e Demo significa Povo.E para levar o Povo à certa é necessário aos Políticos,mascararem-se de social democratas e até
mesmo de socialistas ou democratas cristãos.Mas para a Burguesia
reaccionária inimiga da Plebe,o Povo é o Demo ou seja o Demónio.
Daí a razão de haver a Democracia cristã,para em nome de Cristo,
levar o Povo ao Altar do sacrifício,que é como quem diz levar a aceitar o jugo sem espinotear.Daí a Aliança da Cruz e Espada.

Construir a cultura do interesse geral
FSTavares (seguir utilizador), 1 ponto , 23:40 | Quarta, 14 de Abril de 2010
Já ouvi um ministro afirmar que "o Estado é mau gestor". Se fosse coerente esse ministro devia demitir-se. Porque é o gestor de topo da hierarquia do Estado, no que respeita à sua área específica. Ele estava simplesmente a afirmar que ele era mau gestor, era incompetente. Foi, de facto, de uma ingenuidade, de uma ignorância e de uma irresponsabilidade inqualificável.
Os serviços públicos e as empresas públicas têm gestores que devem responder pelos seus actos. Não é, de todo, aceitável que se diga que o Estado é mau gestor. Aliás, o Estado não é nada, é uma abstracção, para o caso não é imputável.
A cultura da corrupção, do tráfico de influências, da instrumentalização dos serviços do Estado é influenciada pelo baixo nível geral de educação e de conhecimentos em geral da população. Quanto mais cultura e saber possuir uma sociedade, mais consideração pelo interesse geral terá, menos corrupção haverá.
Penso que deverá ser por aí que se deve caminhar. É importante que haja boas leis e instrumentos e serviços que fiscalizem locais e situações onde o risco de corrupção é, notoriamente, possível. Mas o verdadeiro combate à corrupção faz-se fazendo subir a cultura e os conhecimentos gerais duma população.
EÇA DE QUEIRÓS e TOMÁS DE LAMPEDUSA.
fustibus (seguir utilizador), 1 ponto , 12:43 | Sexta, 23 de Abril de 2010
B.S.S. conclui:« Afirmar a vontade política de eliminar a corrupção e não adoptar estas medidas é pura hipocrisia».
Os "Abranhos" do séc. XXI são dignos discípulos de D. Fabrisio «é preciso que alguma coisa mude, para que tudo fique na mesma»!
Para que o leopardo possa sobrevier, torna-se imprescidível que nada aconteça de mal às raposas, chacais e hienas, que SÓ NA APARÊNCIA são competidores do leopardo.
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