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Perfil de Bento XVI

O artilheiro de Deus

Já lhe chamaram Rottweiler, Bulldozzer e Pastor Alemão, mas Joseph Ratzinger, o 266.° Papa em 2 milénios de história da Igreja Católica, é um intelectual repartido entre as heranças dos anos sombrios do regime hitleriano e do clarão contestatário da década de 60

Luís Almeida Martins
11:26 Sexta, 7 de Maio de 2010
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O artilheiro de Deus
O artilheiro de Deus

O filme A Ponte, baseado no romance de Manfred Gregor, mostrava visualmente o sofrimento de um grupo de jovens alemães de 16 anos encarregado de se opor ao avanço dos Aliados, no estertor do III Reich. Essas turmas de soldadinhos de chumbo arrancados às carteiras dos liceus existiram na realidade, e o jovem Joseph Ratzinger fez parte de uma unidade juvenil de combate antiaéreo. Mas ele e os companheiros não tinham sido arregimentados num liceu: eram alunos do seminário de Traunstein. Nem em sonhos passou então pela cabeça de alguém que, daí 60 anos, aquele rapaz de uniforme feldgrau, com expressão séria e um pouco tímido, filho de um polícia de Marktl am Inn, viria a ser Papa, com o nome de Bento XVI.
Mas é nessa condição que o pequeno artilheiro da Wehrmacht visita, na próxima semana, o nosso país, onde será decerto brindado com banhos de multidão em Lisboa, em Fátima e no Porto. Tais recepções apoteóticas ao homem de branco são inerentes a uma viagem papal, e esta não fugirá à regra, apesar de a Igreja Católica estar a viver tempos especialmente ingratos desde que envolvimentos do clero em casos de pedofilia começaram a ser revelados em catadupa. Apesar, também, de Ratzinger não desfrutar da aura de simpatia que envolveu o seu antecessor, o polaco Karol Wojtyla, durante o seu longo pontificado de 27 anos. Não obstante, finalmente, tratar-se de uma figura controversa - progressista para uns, conservador para a maioria.


Homem de contrastes

Com efeito, onde João Paulo II unia, Bento XVI parece afastar. Se o polaco se esforçara por estabelecer pontes entre as religiões, o alemão, mal se sentou, em 2005, na cadeira de S. Pedro, citou com infelicidade uma frase de um antigo imperador bizantino nada lisonjeira para o Islão. Isso valeu-lhe um coro universal de protestos, reeditado anos depois, durante uma viagem pastoral a África, quando insistiu na oposição ao uso do preservativo - mesmo num continente onde a progressão da sida é galopante. Estas gaffes (chamemos-lhes assim), dignas de uma mentalidade pouco subtil, levam porém a assinatura de um homem caracterizado como um intelectual. Afinal, um dos contrastes em que é rica a vida deste alemão nascido em 1927 e que viveu a mocidade submerso no pesadelo do regime hitleriano, cuja fardas vestiu nas Juventudes e na Wehrmacht.


O artilheiro de Deus

Outra oposição gritante é a que surge entre os seus pontos de vista de há meio século e os de agora. Em novo foi colega e compagnon de route de Hans Künz, o teólogo progressista suíço que rejeitou o dogma da infalibilidade papal. À volta dos 30 anos, Joseph Ratzinger era um clérigo aberto aos ventos da renovação da Igreja Católica e figurou entre os mais entusiásticos preparadores do Concílio Vaticano II, essa reunião magna que, por iniciativa de João XXIII, aligeirou os crepes de uma instituição já quase bimilenar. Por exemplo, foi ali posto em causa o papel da Congregação da Doutrina da Fé, herdeira do Tribunal do Santo Ofício, vulgo Inquisição. Ora, um dos ataques mais cerrados contra esse braço temível da instituição romana foi desferido por Joseh Frings, arcebispo de Colónia. Soube-se depois que o texto lido pelo prelado germânico era da autoria do seu jovem e desempoeirado assistente e conselheiro teológico, nada menos que o nosso Joseph Ratzinger. Nos anos seguintes, o antigo artilheiro involuntário de Hitler faria no entanto uma pirueta, tornando-se ele próprio prefeito da mesmíssima Congregação da Doutrina da Fé que antes criticara por interposta boca, além de presidente da Comissão Bíblica e do Conselho Pontifício para a Teologia Internacional. Estas nomeações, feitas por João Paulo II no início da década de 1980, vieram premiar um teólogo estudioso, tão preocupado com os problemas da doutrina como aparentemente distanciado dos que atormentam as pessoas comuns. E permitiram-lhe silenciar muitos teólogos esperançados na introdução de mudanças de fundo na instituição fundada por Pedro e Paulo.


Os domínios de César

Licenciado em Psicologia e Teologia por Munique, doutorado em Freising, professor de Dogma e Teologia Fundamental nesta universidade e de Psicologia e Teologia em Bona, Ratzinger tinha já um percurso académico respeitável quando, no Vaticano II, deu nas vistas fora dos meios académicos. A seguir viria a cambalhota, afinal "natural" porque subia a alturas que dificultavam grandes devaneios: a presidência da conservadora universidade bávara de Regensburg - para onde transitou da de Tubinga, abalada pelas contestações estudantis de 1968 - e o cardinalato de Munique, antes das nomeações atrás referidas. Poliglota que domina meia dúzia de línguas, pianista virtuoso, membro de academias científicas e doutorado honnoris causa por oito universidades, o primeiro papa alemão desde o século X e sexto de sempre é apontado pelos que privam com ele como um homem tímido e apagado. Doente, também. Calçou as sandálias do pescador aos 78 anos, quando já usava dois pacemakers, mas continua a evidenciar agilidade física e mental.
O seu pontificado talvez não fique marcado por nenhum gesto espectacular, mas nisso não se distingue da maioria. Afinal, reformadores da Igreja como João XXIII ou redesenhadores do planisfério mundial como João Paulo II (que muito contribuiu para a queda do Leste) não são frequentes. Mesmo assim, Ratzinger fez uma piscadela de olho aos domínios de César quando escolheu, há cinco anos, o nome de Bento para se sentar na mais elevada de todas as cátedras: é que S. Bento é o patrono da Europa, a mesma Europa que então recusara inscrever uma referência à Igreja como denominadora comum de nações no preâmbulo do Tratado Constitucional que posteriormente (e não por esse motivo) seria rejeitado em referendos nacionais.

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Zé Cravinho (seguir utilizador), 2 pontos , 10:17 | Sábado, 8 de Maio de 2010
Obrigado fico a Luís Almeida Martins por esta crónica que para mim,
foi uma lição àcerca da pessoa de Ratzinger,pois assim fiquei a
conhecer o seu passado.Mas o que me espanta é a referência à
Cadeira de Pedro,o lendário pescador dsicípulo do lendário Jesus,
na qual se senta o Papa.Não será certamente aquela que vemos na
fotografia,que mais parece um Trono de Rei ou Imperador.também
acho estranho que sejam citados conjuntamente,Pedro e Paulo.
Pois o Paulo que era Saulo antes de cair do cavalo,e que só surge
muito mais tarde,ao apresentá-lo com Pedro,até dá a impressão
que êles eram companheiros.O Pedro certamente já há muito que teria morrido e sido enterrado na sua terra natal.Como é que se
pode conceber que o pobre Pedro pescador,quiçá analfabeto,fôsse
o fundador da Eclésia (nome grego)Romana e se sentasse ainda que simbòlicamente num Cadeirão Pontifício conforme o pintam?!
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Zé Cravinho (seguir utilizador), 2 pontos , 8:55 | Sábado, 15 de Maio de 2010
Rematando o festival aproveito a oportunidade e a propósito,cito aqui o belo soneto de Antero de Quental-«Divina comédia»
Erguendo os braços para o céu distante/e apostrofando os deuses
invisíveis/os homens clamam:-Deuses impassíveis/a quem serve o destino triunfante.Porque é que nos criastes?!Incessante/corre o tempo e só gera,inextinguíveis.Dor,ilusão,lutas horríveis/um turbilhão cruel e delirante.Pois não era melhor na paz clemente/do nada e do que ainda não existe/ter ficado a dormir eternamente?
Porque é que para a dor nos evocastes?Mas os deuses,com voz inda mais triste,dizem:-«Homens!porque é que nos criastes?»
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Zé Cravinho (seguir utilizador), 2 pontos , 10:14 | Sábado, 15 de Maio de 2010
Ainda a propósito,pergunto se o Papa é o representante de Deus na
Terra,qual é dêles? Será o Pai,o Filho ou o Espírito Santo?
O Pai,o Filho e o Espírito Santo/formam a Santíssima Trindade/um mistério imposto à Humanidade/que não admite dúvidas,no entanto.
O Pai,um dia resolveu criar o Mundo/e talvez por capricho ou ambição/criou o primeiro homem,o pai Adão/e depois a mãe Eva com intento imundo.O Deus Pai,qual Ditador absoluto/pôs Adão e Eva no Paraíso Terreal/e da árvore da Ciência do Bem e do Mal/
foi-lhes proibido comer do seu fruto.Mas Deus Pai,qual magno feiticeiro/havia criado o Diabo a si igual/que desde aí se tornou
seu rival/e que tentou Eva de modo matreiro.A Biblia ainda ensina
no presente/que a Eva comeu o fruto interdito/tentada que foi por
uma serpente/que era afinal o Diabo maldito.Deus Pai,zangado com a transgressão/ao arrependido e medroso casal/expulsou-os do Paraíso Terreal/e lançou sôbre o Mundo,a maldição.Mais tarde,
Deus Pai com ódio profundo/arrependido que está da sua Criação/
com um Dilúvio destrói o Mundo/mas o Diabo escapou à destruição.
Deus Pai,segundo a Biblia,é o Criador/o Filho nasceu p'ra ser imolado
para remir de Adão e Eva,o pecado/e apaziguar,do pai,o divino furor.Não satisfeito com o Dilúvio assassino/para aclamar o seu espírito sanguinário/traçou para o Filho um cruel destino/que foi
o de ser crucificado no Calvário.(contin.)
opinando a propósito (contin.)
Zé Cravinho (seguir utilizador), 2 pontos , 10:24 | Sábado, 15 de Maio de 2010
Da Trindade,o que é mais matreiro/é o Espírito Santo que está em todo o lado/que até suplanta o Filho,o crucificado/e que é,do Papa, Romano,o Conselheiro.O Filho,Jesus Nazareno de nação/e depois no
Cristo grego transformado/mesmo apesar de ser Rei coroado/
o Deus Pai não lhe cede a Governação.E o Espírito Santo no meio de
tudo isto/visto ser êle,dos três,o mais matreiro/também é da Opus Dei,o Conselheiro/e fá-lo sempre em nome do Filho Cristo.
A Igreja ensina que na Trindade/há um só Deus e três pessoas distintas/e consegue com teológicas fintas/convencer que a mentira biblica,é verdade.É claro que os Deuses e as Religiões/são do Ser humano,sua Criação/para,contra toda a lógica da Razão/
poder dominar Povos e Nações.
Sinistro
Agridoce.Lx (seguir utilizador), 1 ponto , 16:53 | Terça, 11 de Maio de 2010
O tipo tem um ar sinistro. Não sei se fica melhor de vestidinho papal se de farda das SS - os tais que o Vaticano ajudou a fugir para a América Latina...
é cedo para avaliar o Papa Bento...
Apolo (seguir utilizador), 1 ponto , 22:54 | Terça, 11 de Maio de 2010
Gostaria de dizer qualquer coisa sobre o Papa Bento, mas ainda é muito cedo para o fazer; por enquanto só posso dizer que gostava muito de João Paulo segundo, a sua bondade era inconfundível... havia nele qualquer coisa que nos fazia ajoelhar e rezar com ele, conheceu todos os cantinhos pobres do mundo, cumpriu até ao fim da sua vida, já com muito custo, nos deu sempre esperança...

Manuela R.
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