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O andor

Todos somos, enfim, arrastados para um charco, onde chafurdam antigos e actuais responsáveis políticos e editoriais

Miguel Carvalho
15:26 Quarta, 10 de Fevereiro de 2010
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Era uma noite em Moscovo.

Enquadrado numa viagem oficial do Primeiro-Ministro à Rússia, o Governo português oferecia jantar a toda a comitiva no Hotel Kempinski.

Perto das duas da manhã, Sócrates sentou-se a uma mesa à conversa com meia-dúzia de jornalistas. Eu, que tinha estado um bom tempo a ouvir as deliciosas "estórias" contadas pelo José Milhazes, juntei-me ao tal grupo quando Sócrates já falava de pôr jornalistas na ordem e disciplinar os patrões deles - dentro da lei, claro - a bem da democracia e da saúde do regime. Cada um esgrimiu argumentos como pôde e quis, sem grandes excitações. Uns, que não lhe conheciam o registo azedo e a postura de quem engoliu um bengaleiro, ficaram mais espantados. Outros encolheram os ombros. O certo é que depois fomos todos dormir e ninguém se lembrou de escrever uma crónica sobre o assunto, indignado com as supostas "ameaças" do chefe do Governo.

Ora, quem ler a autobiografia de Katharine Graham, a saudosa "patroa" do Washington Post antes, durante e depois do Watergate, facilmente entenderá duas ou três coisas simples: primeiro, todos os governos têm a tentação do mando, uns mais refinados do que outros; segundo, um bom empresário da área jornalística não cede nem pactua com tentativas de interferência; terceiro, os jornalistas trabalham, investigam e reportam em liberdade o que, com rigor e preserverança, for considerado de interesse público. Katharine, que nunca deixou de conviver em eventos sociais com presidentes, ex-presidentes e outros políticos de turno, sorria e passava adiante a cada tentativa ou ameaça de beliscarem a empresa ou condicionarem o trabalho jornalístico da sua redacção. O Washington Post continuou a fazer o seu trabalho, sem cair em miudezas, campanhas de carácter ou recurso ao buraco da fechadura. Sabe-se como a história acabou: Nixon ainda durou. Mas pouco.

No momento que atravessamos, Portugal parece ter amanhecido fantoche de si próprio. O nacional-jornalismo combate no terreno político e os políticos escrutinam a liberdade de Imprensa, como se fossem especialmente dotados para tal. Hitler e Estaline são trazidos à liça - e da tumba - à laia de comparação, sem memória, razão ou ensino primário. Magistraturas desacreditadas pedem o que não sabem ganhar por respeito, independência e dever de ofício. Em Belém, e nos edifícios limítrofes, há quem continue a falar nas entrelinhas e por código sobre jogos políticos inchados de indignação. Todos somos, enfim, arrastados para um charco, onde chafurdam antigos e actuais responsáveis políticos e editoriais, cuidando que a lama lhes é estranha ou desconhecida.

Vai lindo o andor. Numa altura em que o País se empenha em replicar os piores momentos da I República, não sei o que me assusta mais: se um Primeiro-Ministro retorcido ou um jornalismo justiceiro. Ou os dois.
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A devida comédia (O Andor)
a.dúvida (seguir utilizador), 2 pontos , 19:54 | Quarta, 10 de Fevereiro de 2010
Caro Miguel Carvalho,

Durante a guerra de secessão quando as tropas voltavam para o quartel após uma batalha sem nenhuma baixa, escreviam numa placa enorme: "0.Killed" (zero mortos)...

Daí surgiu a expressão O.K. para "indicar que tudo está bem".

Agora diga-me, como isto não está nada O.K.... está tudo mal, já imaginou o tamanho da placa para escrever tudo o que vai mal "neste andor".

Escreveu um brilhante artigo de opinião, com o qual estou de acordo. Parabéns por isso.

Sara
Parte I
Fersal (seguir utilizador), 1 ponto , 13:31 | Quinta, 11 de Fevereiro de 2010
Jornalista intelectualmente desonesto, mais, jornalista cobarde é aquele que redutora e “inteligentemente” aborda o problema da Liberdade de Expressão mas se “esquece” de referir que o estado miserabilista em que o país está se deve a duas faces da mesma moeda:
  Trabalhadores do sector Público que desertificam os recursos de Estado com o esforço (de mãos vazias) dos Trabalhadores do Privado.
      Vejamos: - Um trabalhador do privado(TP) tem um vencimento idêntico a um funcionário publico (FP), no entanto ao reformar-se recebe em media metade do FP. Por que não falam os Jornalistas das Liberdade, nisto?
        - Um TP tem um vencimento idêntico a um FP, no entanto ao estar de baixa uma semana recebe metade do FP. Por que não falam os Jornalistas das Liberdade, nisto?
- Os TP actualmente reformados foram-no em media com 60 anos. Os FP actualmente reformados foram-no em media com 55 anos. Por que não falam os Jornalistas das Liberdade, nisto?
- Um TP tem 22 dias de férias; um FP tem 25 dias (mínimo) de ferias. Por que não falam os Jornalistas das Liberdade, nisto?
    - Um TP apenas pode usufruir do SNS; um FP, pode usufruir de medicina privada sendo depois ressarcido. Por que não falam os Jornalistas das Liberdade, nisto?
    Re: Parte II   
Fersal (seguir utilizador), 1 ponto , 14:56 | Quinta, 11 de Fevereiro de 2010
    Não percebo   
ferpin (seguir utilizador), 1 ponto , 0:39 | Quarta, 17 de Fevereiro de 2010
comentário ao Sr. Fersal
carlos matos (seguir utilizador), 1 ponto , 20:16 | Quinta, 11 de Fevereiro de 2010
vou fazer um comentário breve à exposição do Sr. Fersal
1º quero expressar que concordo que se retirassem direitos aos funcionários públicos se fosse para também dar direitos aos privados, agora tirar por tirar não e por uma razão simples, enquanto em Portugal os admnistradores e quadros médios e superiores ganharem 20 ou 30 ordenados minimos enquanto noutros países europeus ganham 7 ou 10 ordenados mínimos o Estado não tem legitimidade, pelo menos moral, para impôr sacrificios e deixe-me que lhe diga que revela pouca coragem ao só "atacar" o peixe "miudo" e nada dizendo sobre o "graúdo", parece-me no minimo suspeito...
Caro, Miguel
Grego (seguir utilizador), 1 ponto , 14:50 | Sexta, 12 de Fevereiro de 2010
Que sejas bem aparecido. Estiveste uns tempos desaparecido?Pois cheguei a pensar que tinhas sido afastado. Escreves-te ai umas coisas contra o regime, mas entretanto...nada.... Mas pronto resististe e estás ai,ok...
Pois bem, o que se percebe é que todos sabiam, e sabem mais coisas sobre o "chefe", mas reinou o silencio durante muito tempo. Temos de reconhecer, que o "jornalismo", praticado por alguns, era uma autentica vergonha. Era a apologia do chefe, o servilismo, etc, etc, e afastaram muitos leitores, aquilo metia nojo, e cheguei a ter dó deles. As vezes pensava, como se pode ter tão pouco caracter numa profissão destas?Era um jornalismo de almoços pagos, e camisas e gravatas da moda, uma vergonha. Espero que se saiba tudo e que muitos desses servilistas vão trabalhar para as revistas cor de rosa, é o que lhe resta. Ou então...Angola...
Penso, que este miseravel país tem de parar para pensar. Pode continuar a ser utilizado, por esta escumalha. Gente que só se governa a eles e amigos, como se este miseravel país fosse uma provincia da Secilia. é lugares em empresas, são milhões desviados, enfim, todos sabemos como isto está...na ultima e agora perderam completamente a vergonha e estão desesperadamente agarrados ao poder.
Mas, e há sempre um mas, os jornalistas tambem tiveram responsabilidades. Estás ver o Chefe, ameaçava, e todos iam dormir.
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