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Gestão de Fraude

Crónica

Novos casos, as mesmas Fraudes

Quinta crónica da secção Gestão de Fraudes, assinada, esta semana por José Andrade

José Andrade
15:25 Quinta feira, 22 de Jan de 2009
José Andrade
José Andrade
DR
Nos casos Enron, Worldcom, Madoff, etc., haverá alguém realmente surpreendido?

Os maiores casos de fraude são aqueles que são levados a cabo à vista de todos, mesmo perante aqueles especializados que, melhor que ninguém, deveriam analisar e questionar o que toda a gente sabe ser impossível no longo prazo - que não há milagres que sempre durem.

Mas querem acreditar neles enquanto durarem, anestesiados pela ganância efémera e credibilidade no mercado que os autores de tais façanhas possuem. Para maior conforto, quase nunca são detectados pelos sistemas formalmente instalados mas antes por acaso fortuito. De acordo com o último relatório da ACFE (ACFE Report to the Nation 2008) mais de 60% dos casos foram detectados por dicas (46,2%) ou acidentalmente (20%) em que os casos mais frequentes duravam há mais de 20 meses.

Para maior espanto, descobre-se agora que o caso Madoff foi inicialmente detectado em 1992. Em 1999, Harry Markopolos, um CFE (Certified Fraud Examiner) enviou à SEC (Securities and Exchange Commission) documentação sobre a alegada fraude sobre o Fundo Madoff. Em Novembro de 2005 o mesmo Markopolos detalhou 13 alertas que colocavam em causa a legalidade do fundo achando altamente provável que se tratava do maior esquema Ponzi de sempre. Um esquema fraudulento do tipo Ponzi (ou Dona Branca, em Portugal) baseia-se na entrada de novos para permitir pagar os antigos tornando-se insustentável, a prazo. Este Fundo, para aumentar a sua respeitabilidade, foi admitido na SEC dois anos antes de ter rebentado.

Em 2008 a SEC teve um orçamento de 900 milhões de dólares para controlar casos como este que se estima chegue aos 50 mil milhões de dólares. A regulação não elimina pois o potencial de fraude, apenas o torna mais difícil de detectar pela credibilidade que lhe confere. E será que se pode regular a ganância ou a forma de defraudar que ainda não existe, fruto da própria essência humana?

Existe cada vez mais a dúvida sobre se as melhores decisões de gestão se baseiam na quantificação e em números com base em padrões passados ou naqueles que acham que as melhores decisões acabam por ser sempre aquelas subjectivas baseadas nas previsões futuras (Ver '"Against the Gods: The Remarkable Story of Risk"' - Peter L. Bernstein). Como gosta de dizer Warren Buffet, "só quando a maré vaza é que descobrimos quem nada nu". E a maré é alimentada pela respeitabilidade de quem não é sequer questionado por deferência. O que nos leva a perguntar se não haverá mais casos por aí que a maré venha a destapar pois nos dias de abundância, quando sobe, a maré levanta todos os barcos. Esta maré é ainda mais alimentada por todos os que procuram recompensas constantes, ano após ano, em que a ganância se sobrepõe ao medo e ao cepticismo.

Warren Buffet diz repetidamente que o mercado de derivados é uma bomba de destruição maciça à espera de acontecer. Se o valor do mercado de derivados fosse distribuído por todos os seres humanos daria mais de 100 mil euros a cada um. Ou seja, este mercado virtual que ameaça evaporar-se corresponde a mais de 20 vezes o PIB mundial e mais de 15 vezes o valor de todo o imobiliário do planeta (Ver "The Invisible One Quadrillion Dollar Equation. Asymmetric Leverage and Systemic Risk").

Todos convivemos diariamente com expectativas que um dia serão postas a nu. A história, se não se repete pelo menos rima bastante, ensina-nos que não devemos apostar no que não é auditado, pelo menos. E porque a gestão é feita por humanos é comum dizer-se que em Deus confiamos, em tudo o resto auditamos.

Na reforma todos recebemos um benefício relacionado com os descontos efectuados dando a sensação que investimos nesse direito. Ora, na prática, o que se passa é que é mais um mero instrumento contabilístico de transferência entre gerações, das actuais para as anteriores. E não está claro para todos que não receberão o retorno do seu investimento mas antes serão suportados por outros. Se este desequilíbrio demográfico aumentar fortemente torna-se insustentável nos parâmetros inicialmente expectáveis pelo que sairão um dia defraudadas as expectativas inicialmente criadas. Se o cálculo destes benefícios é composta pelos descontos efectuados porque razão não é esse o factor que garante a sua sustentabilidade? Será a Segurança Social ocidental um imenso esquema Ponzi à vista de todos? Como diz o nosso Presidente, "As ilusões pagam-se caras". 

Palavras-chave   Gestão de Fraude
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