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Novo adeus português

No caso de Miguel Sousa Tavares e Maria João Pires, há um País que lhes reconhece talento e se orgulha do seu prestígio. Se uma parte deste território os ignora e maltrata, é a vida

11:49 Sexta-feira, 17 de Jul de 2009

Parece que o escritor Miguel Sousa Tavares e a pianista Maria João Pires querem emigrar. De vez. Pelo que percebi, há nos argumentos falta de mimo e lamentos sobre o País que temos e os seus atávicos provincianismos. Também insinuam perseguições e outras desilusões. Talvez queiram a fama, sem as amarguras e as invejas dela. E talvez considerem que Portugal é, de facto, um sítio mal frequentado. Sobretudo por portugueses.

Ao longo da História, várias figuras do universo das artes se acharam demasiado talentosos, importantes e decisivos para o futuro do País. O País que os pariu, ignorou-os, amiúde. Quando não os tratou mesmo mal. Saramago está hoje em Lanzarote porque um ajudante de ministro usou o critério mais infame - o gosto - para justificar uma decisão cultural e política. Muitos partiram, em silêncio e escorraçados, em nome da sua arte, inteligência e talento, e obtiveram no estrangeiro o reconhecimento que lhes faltava. Legítimo. E ainda bem.

Acontece, porém, que neste Portugal de emigração dolorosa, forçada e, por vezes, à molhada, esta ameaça recente de um adeus português em versão intelectual cheira a capricho. Parece um adeus porque sim. Ou porque sol. Sobretudo porque sol, cheira-me. Mas embrulhado num lamento e num queixume tipicamente português, claro.

Um compositor albanês cobiçado em várias partes do mundo disse-me um dia, à mesa de um café, em Tirana, que o facto do seu País estar, na prática, em guerra civil, era apenas mais um motivo para não o abandonar. E criticava o escritor Ismail Kadaré, antigo deputado na Assembleia Popular da ditadura de Enver Hoxha, por todos os dias dizer aos albaneses o que deviam ou não fazer, a partir da comodidade e do conforto...de Paris.

Houve quem não tivesse alternativa, noutros tempos.

O País salazarento tratou mal diversas figuras da intelectualidade portuguesa. Muitos exilaram-se. Outros ficaram, sofrendo a bom sofrer nos interrogatórios, nas cadeias, na censura. Outros, ainda, perderam-se pelo caminho, silenciados para sempre.

Sair do País por capricho, feitio ou amuos de momento é tão legítimo como abandoná-lo por motivos mais nobres. Mas a decência pede que se meçam as distâncias. E que se evite a postura, pouco convincente, de mal amados. As comparações, de resto, não resistem a uma análise fria dos factos.

No caso de Miguel Sousa Tavares e Maria João Pires, há um País que lhes reconhece talento e se orgulha do seu prestígio. Sem que nisto se convoquem critérios de gosto para nada. Sempre fizeram e disseram o que lhes deu na realíssima gana. Aqui e ali são ouvidos. Respeitados. Idolatrados, até. Se uma parte deste território os ignora e maltrata, é a vida. Nada que eles não soubessem, já.

Escritor e pianista podem ter muitos e bons argumentos para voar daqui para fora. Mas então aceitem que se lhes diga que isso é, no caso deles, o mais fácil, pois razões de queixa, convenhamos, têm poucas. Pelo menos, se comparadas com aqueles que não têm opção e sentem que dizer adeus é arrancar-lhes um braço.

Partem quase sempre num doloroso e ignorado silêncio. Sem sol, sem palavras, sem uma composição de despedida. Nunca escreverão um livro, nem nunca os veremos a levantar plateias. E mesmo assim, um dia talvez regressem sem um lamento contra este País padrasto a quem devem a sua vida madrasta. Tão silenciados por todos nós como quando partiram.

Palavras-chave   Opin ião   Miguel Carvalho   Devida Comédia
 
 
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CHAPÉU!
kizzaka (seguir utilizador), 2 pontos , 14:22 | Sexta-feira, 17 de Jul de 2009

Miguel, só men resta uma palavra: E X C E L E N T E!
    Re: CHAPÉU!   
João Macedo (seguir utilizador), 1 ponto , 1:38 | Sábado, 18 de Jul de 2009
    Re: CHAPÉU!   
João Macedo (seguir utilizador), 1 ponto , 13:45 | Sábado, 18 de Jul de 2009
opinando a propósito
Zé Cravinho (seguir utilizador), 1 ponto , 13:41 | Sexta-feira, 17 de Jul de 2009
Eu,um simples operário emigrante na Holanda desde 1964 e já velho
(85 anos)direi a propósito que vendi a minha fôrça de trabalho ao
estrangeiro mas não vendi a minha alma que é portuguesa até à
morte.Mas Os que (des)governam Portugal,vendem o País aos
bocados aos interêsses estrangeiros.

A Pátria-Mãe p'ra mim madrasta,
empurrou-me p'rà emigração,
e maldita seja a Governação,
que Portugal p'rà miséria arrasta.

Saudade é uma palavra portuguesa,
que exprime emoção,nostalgia,
num misto d'alegria e tristeza,
e que gerou o Fado,um certo dia.

Saudade dos montes e do mar,
saudade dos amigos e parentes,
saudade para nós ausentes,
e distanciados do pátrio lar.

Saudade carregada de emoção,
que nos faz chorar de alegria,
que nos dá esperança no dia-a-dia,
ainda que seja,da vida,uma ilusão.

Saudades quem as não tem?
Ainda que nos pesem na lembrança,
elas alimentam a esperança,
de um dia regressar à Pátria-Mãe.
    Re: opinando a propósito   
Jorge Bernardo (seguir utilizador), 1 ponto , 2:32 | Segunda-feira, 31 de Ago de 2009
Partir...
cmvg1971 (seguir utilizador), 1 ponto , 16:40 | Sexta-feira, 17 de Jul de 2009
Por acaso, também deixei o país há nove anos, devido à falta de perspectivas de futuro na minha área de formação.
No entanto, não creio que o Miguel Sousa Tavares e a Maria João Pires (sobretudo o M.S.T.) tenham razões objectivas para deixarem o país. Quanto à Maria João Pires, até posso compreender, pois ela tentou levar a cabo um projecto sem ter grandes apoios. Agora o Miguel Sousa Tavares...
De acordo
antonio f. vieira (seguir utilizador), 1 ponto , 20:18 | Sábado, 18 de Jul de 2009
Concordo inteiramente com esta opinião.Objectivamente não têm razão de queixa do País, antes pelo contrário, têm sido bastante apreciados, cada um na sua área.
Novo adeus português
valentina (seguir utilizador), 1 ponto , 19:22 | Domingo, 19 de Jul de 2009
Gosto de Maria João Pires e igualmente reconheço valor em Miguel Sousa Tavares.
Dizer adeus a Portugal é lá com eles. SE todos os que se sentem mal amados tivessem a mesma atitude, muitos já teriam partido.
Depois acontecerá como a Saramago, partiu mas vai sempre voltando.
E Lobo Antunes é bem amado? Ele diz que partir jamais, gosta do povo do seu Bairro.
Eu também me ia embora se pudesse
manelita (seguir utilizador), 1 ponto , 13:55 | Terça-feira, 21 de Jul de 2009
Eu também me ia embora se pudesse. Portugal é um país de invejosos, beatas e medíocres...
    Re: Eu também me ia embora se pudesse   
LuisR (seguir utilizador), 1 ponto , 10:49 | Sexta-feira, 24 de Jul de 2009
ACONTECE
longueira (seguir utilizador), 1 ponto , 18:30 | Segunda-feira, 27 de Jul de 2009
Não entendo estes amuos !
Querem mudar de nacionalidade , mudem !!
Estes amuos "pequeno burgueses " fazem bastante confusão!!
Novo adeus Português
maiodeabril (seguir utilizador), 1 ponto , 19:04 | Segunda-feira, 27 de Jul de 2009
Miguel, você tem a obrigação de respeitar a vontade dos outros. Não deve achincalhar.Deve respeitar as pessoas, principalmente quando são pessoas respeitáveis, e de reconhecido valor, quando você não passa de um simples escriba, sem obra feita, sem passado e de duvidoso futuro.Dizer mal dos outros tornou-se profissão? Você demonstra grande ignorância. Não vê para além dos 89.000 Km2.
Portugal cosmopolita
Mário (seguir utilizador), 1 ponto , 12:35 | Segunda-feira, 3 de Ago de 2009
Portugal é um país cosmopolita (passo a antítese). Portugal sempre fez cidadãos do mundo, obrigando os Portugueses a emigrar, e a ir conhecer o mundo. Sair do ninho é duro. Há uns que o fazem sem lamechices e outros, mais habituados aos confortos e mimos, dizem que é uma injustiça e afins. O facto é que em Portugal ficam apenas os provincianos, aqueles que tornam Portugal insuportável. São os provincianos que obrigam ao rastreio entre os que são validos e emigram e os que são inválidos e se submetem ao provincianismo. É uma forma tradicional de produção de cosmopolitas. Não há frutos bons em árvores não podadas. E a mediocridade que reina, manda e domina Portugal, faz parte da tradição de tornar Portugal insuportável aos válidos, e fazer deles cosmopolitas. Se não emigrar é porque não presta. E quem não presta merece não só os abusos e devaneios da cretina classe política Portuguesa, como ainda a imbecil acção de meia dúzia de famílias ignorantes e parolas que dominam a economia nacional. Emigrar não é uma opção, é uma libertação, é dura mas é necessária e faz parte da vida dos válidos.
Somos um povo que vive partindo
Jorge Bernardo (seguir utilizador), 1 ponto , 0:19 | Sexta-feira, 21 de Ago de 2009
Quem parte deve pensar que quem fica tem mais coragem, quem fica queria ter a coragem de partir, no fundo somos um povo que vive partindo e regressando, não é um drama é uma necessidade e uma realidade de séculos.
o adeus e a esperança...
Apolo (seguir utilizador), 1 ponto , 6:52 | Sexta-feira, 21 de Ago de 2009
Sempre tive grande admiração por Miguel Sousa Tavares, é um bom profissional, tenho pena que ele tenha de partir, mas compreendo que ele não é de ficar parado, gosta de sucesso e merece-o.
Ouvi alguém falar do DR. António Lobo Antunes que também admiro muito, a forma como escreve... e não acho que seja por falta de coragem que não vai também, é porque o motivo do DR. é outro, bem parecido comigo, é a Esperança!!! Olhe DR. eu limito-me a imprimir tudo o que o Sr. escreve e qualquer dia, mando encadernar e na capa escrevo: "Crónicas do DR. do R maiúsculo", não sei se já tinha reparado no R de DR., para mim é representativo.
Motivos inválidos
Seth (seguir utilizador), 1 ponto , 0:45 | Terça-feira, 25 de Ago de 2009
Devo dizer que não li nenhuma obra de Miguel Sousa Tavares, mas pelo que vejo dos seus comentários televisivos, apesar de alguns serem bem objectivos, outros limitam-se a humilhar aqueles que ele tem por alvos, e vem ele agora dizer que se sente mal amado e pouco apoiado? Algum dos seus livros é acerca da hipocrisia?

Quanto a Maria João Pires, percebo o facto de ter iniciado um projecto que não foi apoiado ou que o foi em pequena quantidade, mas isso não é motivo que justifique uma emigração, pelo contrário, deve ser algo que ainda a motive mais para a luta a favor das artes, e não que a demova da mesma luta.

A meu ver, os motivos para emigrar devem prender-se com a necessidade extrema (pobreza, falta de trabalho, inexistência de condições que possibilitem o modo de vida que cada um anseia, etc.) ou com a vontade querer aprender mais, ou com a vontade de querer conhecer novas culturas ou então por motivos de união com pessoas de outros países... Pode aqui faltar algum motivo que eu não me lembre de momento =P
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