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Debates Legislativas 2009

Muito barulho por nada?

Os frente-a-frente televisivos entre os candidatos às eleições podem servir para muita coisa menos para ganhar votos

Sara Belo Luís
16:45 Segunda, 21 de Setembro de 2009
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Muito barulho por nada?
Marcos Borga

Um debate é como se fosse um jogo de futebol. Duas equipas adversárias. Um árbitro que se pretende equidistante. Um conjunto de regras mais ou menos conhecidas.

Uma assistência que se quer galvanizada, claques bem ensaiadas, relatos radiofónicos suficientemente entusiastas.

Para acabar com a metáfora futebolística, diga-se, ainda, que se nuns dias temos um Brasil-Itália, noutros, temos que nos contentar com um Arábia Saudita-Equador.

Na política como no futebol, do ponto de vista de quem vê, é um espectáculo.

Para o qual nem sempre vale a pena ter adquirido bilhete. Às vezes, não há golos, não há arte, não há drama. A propósito dos debates televisivos que, nas últimas duas semanas, opuseram os líderes dos principais partidos candidatos às legislativas do próximo dia 27, Rita Figueiras, investigadora na área da Comunicação Política e professora da Universidade Católica Portuguesa, chama a atenção para o facto de os frente-a-frente estarem muito ligados a "uma dimensão de performance", interessando mais "o sentido do espectáculo do que os conteúdos propriamente ditos".

Sobre o duelo Jerónimo de Sousa-Francisco Louçã, que não revelaram grande animosidade apesar de o PCP e o BE disputarem o mesmo tipo de eleitorado, o comentador Pedro Mexia disse até que "devia ter decorrido à porta fechada".

Veja-se a linguagem um tanto ou quanto bélica das análises posteriores aos debates, veiculadas, sobretudo, nos canais de notícias, na blogosfera e nas redes sociais: quem ganhou e quem perdeu, quem decepcionou e quem superou as expectativas, quem encostou o adversário às cordas e quem foi logo ao tapete.

"Como se estivessem num ringue de boxe", nota Rita Figueiras. Afinal, para que serviu este campeonato pré-campanha eleitoral?

INDECISOS E DESILUDIDOS

Não houve taça de ouro para oferecer ao vencedor. Mas se tivesse havido, na opinião de Rita Figueiras, ela seria entregue às televisões: "A ênfase colocada nestes debates é, fundamentalmente, uma questão comercial dos próprios canais, porque os debates são, acima de tudo, uma oportunidade de aumentar as audiências" (ver infografia). "Mas não estou certa", adverte, "de que satisfaçam a população". E justifica: "Embora compreenda os argumentos de quem o defende, não sou adepta do formato utilizado.

A limitação dos dois minutos e meio para cada candidato instiga a ter um discurso preparado, baseado em frases feitas, sem explicações e que não é compatível com grandes contextualizações." Para Felisbela Lopes, professora de jornalismo na Universidade do Minho, as audiências atingidas também têm que ver com os dias e com o horário em que decorreram os debates: "É o horário das novelas e dos concursos. É o horário do entretenimento." No seu entender, "não nos podemos esquecer de que os frente-a-frente também servem para esclarecer, porque, num país onde se lêem poucos jornais, a televisão é um meio estruturante para a maior parte de nós.

Os debates acabaram por obrigar uma determinada franja da população a ouvir as propostas eleitorais." Os especialistas estão de acordo num ponto: não há debates "definitivos" que assegurem uma vitória nas urnas. Os estudos mais recentes sobre as motivações do voto demonstram, pelo contrário, a importância da experiência de vida de cada eleitor, o modo como ele sente a situação sócio-económica do momento, as opiniões políticas dos que lhe são mais próximos. "Tudo isso tem uma interferência muito maior", diz Rita Figueiras.

No entanto, André Freire, politólogo e professor do Instituto Superior de Ciências do Trabalho e da Empresa, salienta que "há um efeito de activação, que envolve as pessoas, levando-as a participar ": "E, em eleições muito renhidas, com um grande número de indecisos, tudo conta. Mesmo pequenas alterações no sentido de voto podem fazer a diferença." "Além disso, os debates têm um efeito de longo prazo de construção e consolidação da cultura política democrática ", remata André Freire. O historiador António Costa Pinto, do Instituto de Ciências Sociais, está de acordo. Apesar de realçar o facto de os debates terem sido vistos, sobretudo, por segmentos da população de classe média/classe média alta, Costa Pinto nota que, mesmo assim, "podem ter sido importantes para certas faixas de indecisos, eventualmente mais até do que a campanha eleitoral, durante a qual o confronto entre os líderes acaba sempre por se perder na espuma dos dias".

Para os partidos mais pequenos, como o CDS, os debates também serviram para expor as suas ideias, numa espécie de tempo de antena em horário nobre.

"Paulo Portas teve ali uma oportunidade de se afirmar politicamente", comenta Costa Pinto. Mas o mais provável, acrescenta, terá sido José Sócrates, que curiosamente começou por se opor à realização de uma série de debates com os restantes líderes, o grande beneficiado.

Por ser, como já alguém disse, um bom produto televisivo? "Foi uma oportunidade de tentar transmitir uma imagem mais moderada de si próprio, tentando, assim, recuperar os desiludidos." E terá conseguido? "Não muito. O problema é que, do eleitorado que, há quatro anos, deu a maioria absoluta ao PS, há uma franja que se incompatibilizou com o líder. E que tarda em voltar a dar-lhe o benefício da dúvida." Há quem não vá lá com palavras.

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