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Página inicial  >  Opinião  >  Pedro Norton  >  Mudar para ficar tudo na mesma

Mudar para ficar tudo na mesma

O que o caso das escutas põe a nu é um problema generalizado, estrutural e de regime

6:16 Quinta, 18 de Fevereiro de 2010
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Seguramente parece. E pode bem ser que tudo isto seja mesmo verdade. Pode bem ser que Sócrates tenha mesmo uma especial dificuldade em lidar com a liberdade de expressão e que tenha alimentado o sonho de controlar a comunicação social. E se assim for, pode bem ser que, apesar do calendário político, do terrível momento económico e das intermináveis discussões formais e processuais em que o País vai enredar-se, o primeiro-ministro fique mesmo politicamente ferido de morte. O que não vale a pena é taparmos o sol com uma peneira e acharmos que a história acaba aí. O que não vale a pena é que alguma coisa mude para que tudo fique na mesma. O problema, sejamos sérios, não é "apenas" um problema de protagonistas e muito menos é um problema partidário. Desenganem-se pois os que julgam que basta mudar de partido de governo ou de primeiro-ministro. O problema nem sequer se resume "só" a um problema com a comunicação social. Muito pelo contrário. O que o caso das escutas põe a nu é um problema generalizado, estrutural e de regime. Não entender isto é meio caminho andado para perpetuar este estado de coisas.

O "polvo" de que fala o jornal Sol está aí e está aí para ficar. O polvo chama-se, é sabido, uma escandalosa e crescente promiscuidade entre os poderes económico e político. O polvo, esse polvo que tanto é rosa como laranja, está montado para servir todos os poderes, quaisquer que sejam os seus protagonistas, qualquer que seja o partido no Governo. Por razões que, de resto, são bem fáceis de entender. Desde logo, porque poucos governos (se é que algum) resistem à tentação de não usar em proveito próprio as estruturas de poder que os seus antecessores diligentemente montaram. Por muito que se grite na oposição, por muito grandiloquentes que sejam as proclamações que se façam, o apelo de uma bem oleada máquina de influência é simplesmente grande de mais para que não se tire partido dela quando mudam as marés. Nesta matéria raramente se anda para trás. E cada novo patamar é sinónimo de uma democracia mais frágil, mais aprisionada, menos substantiva. Depois, porque o poder económico que se deixa atrair para este jogo perverso de interesses não tem exactamente uma grande fidelidade ou uma enorme coerência ideológica. Hoje serve-se o PS, amanhã é-se do PSD desde pequenino. Pelo meio, se necessário for, jura-se amor ao PP, ao PC, ao Bloco.

A solução? A solução, chamem-me liberal furioso, é reduzir drasticamente o peso e a influência do Estado na economia. Já não o digo em nome da competitividade. Digo-o porque me parece evidente que se o Estado não chegar a todo o lado, se não decidir sobre tudo, se não for grande cliente, se não empregar meio País, se não usar golden shares, se a sua infernal máquina burocrática não tiver, na prática, o poder de condenar à morte ou de elevar ao Olimpo empresas "inimigas" ou "amigas", estará quebrado este círculo vicioso e sinistro que se arrisca a dar cabo do nosso regime democrático. Nesta matéria deixei, infelizmente, de acreditar no Pai Natal e não consigo vislumbrar outro caminho.

 

Palavras-chave  opinião, pedro norton
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Um problema estrutural
a.dúvida (seguir utilizador), 2 pontos , 13:34 | Quinta, 18 de Fevereiro de 2010
Caro Pedro,

Plenamente de acordo consigo.
Se o Estado se arroga no direito de participar como regulador, fiscalizador e jogador na economia, não é só a equipa contrária que sofre, é o próprio jogo que fica em causa.
E seria na verdade iludirmo-nos pensado que mudando apenas o "capitão da equipa do estado" teríamos o assunto resolvido... Seria um erro tremendo.
Obrigado Pedro, por nos permitir reflectir sobre este assunto.

Sara
pnorton (seguir utilizador), 1 ponto , 18:16 | Sexta, 19 de Fevereiro de 2010
Sara, sou eu que agradeço a atenção que dedica ao meu texto. Ainda bem que posso contribuir para a sua reflexão.
Um abraço,
PN
Bom trabalho...
Lailai aires (seguir utilizador), 1 ponto , 15:18 | Quarta, 24 de Fevereiro de 2010
...mais ou menos. Gosto deste artigo, do Jornalista P. Norton. No emtanto, prefiro ler nas entrelinhas.
Só um reparo: o Pedro diz "" O Polvo está aí para ficar", eu penso que não, quando chegar o momento, das famosas escutas, incluirem
nomes sonantes do PSD,tudo será abafado. Aí o polvo não terá mais tinta.
BOA TARDE
PS: Chamei-o de JORNALISTA e não de jornaleiro
    Re: Bom trabalho...   
NÃO TENTO (seguir utilizador), 1 ponto , 23:14 | Domingo, 28 de Fevereiro de 2010
pnorton (seguir utilizador), 1 ponto , 16:48 | Quarta, 24 de Fevereiro de 2010
Lailai aires,
Obrigado pelo seu comentário e pela sua atenção. Tenho apenas de fazer-lhe um esclarecimento: não sou nem jornaleiro, nem jornalista. Colaboro na condição de simples cidadão.
PN
Escutar, Sempre a escutar, Nao sabem senao escutar
jcbs (seguir utilizador), 1 ponto , 17:48 | Terça, 2 de Março de 2010
No pai natal, tem-se sempre que acriditar!!! -Ele vem todos os anos!??
Agora, no que ele traz?... isso é outra coisa!... Fica-se sempre á espera.
Alemanha
grande confusão
Gurefe (seguir utilizador), 1 ponto , 14:43 | Quarta, 3 de Março de 2010
O que é dito sobre o polvo é factual .O que não é dito a esse respeito é que, dados os pressupostos da democracia, as organizações politicas candidatas a governar o pais precisam do 4º poder obrigatòriamente . É uma arma de tal modo poderosa que quem dela se não servir perde irremediàvelmente .Esse 4º poder é especialmente eficaz a construir no povo anónimo que vota imagens negativas da concorrência .
Este poder é um poder surdo,sem nome, cinzento, e a questão verdadeiramente preocupante não é por quem nem como esse poder é controlado , essa luta subterrânea é bem conhecida e faz parte das regras do jogo . O que é preocupante é haver analistas sérios e supostamente independentes dos jogos sujos a que as forças partidárias recorrem, a entrarem e fazer parte desses jogos .
Porque, o que se passa é que o propósito manifesto de 4 partidos politicos sendo a discussão do problema da liberdade de expressão e o controlo dos meios de comunicação social(falsos problemas que não são problemas para ninguém como tem sido sobejamente constatado) , são a máscara dos verdadeiros propósitos escondidos de ir produzindo lentamente mas de forma eficaz, a crucificação de um personagem incómodo .
Cabe, a quem é suposto estar acima desses maquiavélismos , denunciar esses mesmos jogos alertanto o povo anónimo da manipulação a que está sujeito .
A grande confusão está instalada quando reporteres dessa guerra surda e suja se juntam a um dos lados da barricada .ignorando motivações inconfessáveis .
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