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Museus Nacionais

Mudar imagens e linguagens

Aqui publicamos a resposta integral de António Nabais, presidente da Associação Portuguesa de Museologia, ao inquérito sobre os museus nacionais, publicado na edição 1028, actualmente nas bancas.

António Nabais
10:00 Domingo, 21 de Fevereiro de 2010
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Mudar imagens e linguagens

Qual deve ser, em seu entender, o perfil de um director de museu, especialmente dos museus nacionais? Deve-se privilegiar a formação académica, a especialização na respectiva área ou a capacidade de gestão? Ou devem-se exigir as duas?

O director de qualquer museu deve ter formação e experiência museológica. A formação museológica deve prever a gestão, quer administrativa e financeira quer das colecções e de todas as actividades do museu. Os museus nacionais em Portugal não têm evoluído, porque não têm tido dirigentes com formação museológica, nem orçamentos suficientes, nem quadros de pessoal especializados nas diferentes áreas da museologia. O mais importante é que os quadros dirigentes tenham o chamado olhar e sensibilidade para questões patrimoniais. Não podemos continuar com amadorismos na gestão de museus. A má experiência das últimas décadas na gestão do património cultural dá-nos lições para seguir outro rumo, em especial, nos museus. A falta de sensibilidade dos dirigentes tem deixado o património ao abandono e esquecido uma das funções do museu que é a incorporação de objectos.

 É de lamentar que continuem ainda a escolher amadores e a excluir os profissionais de museologia. Continuamos a assistir à admissão de aprendizes de feitiçaria e a excluir os que têm conhecimentos  e práticas para dirigir.

Acreditamos nos novos governantes da cultura, porque anunciam querer ouvir 'sábios' que estão no terreno e que têm experiência nas diferentes áreas da cultura.

Já demos provas ao Mundo que temos especialistas capazes de encontrar soluções para a realização de grandes eventos, como foi a EXPO'98.

É necessário acreditar.

 

Concorda com as mudanças já anunciadas em alguns museus, nomeadamente no Museu de Arte Popular, Museu de Arqueologia, Museu do Chiado, Museu dos Coches e Museu da Língua e da Viagem? Caso não concorde, entende que se devia manter a actual situação ou que outras mudanças preconiza?

O Museu de Arte Popular nunca deveria ter sido destruído. Durante vários anos foi ignorado pela tutela que nunca entendeu o seu significado cultural. Desde há muito tempo que necessitava de uma intervenção museográfica de modo a valorizar as suas colecções que retratam o país nas suas múltiplas facetas do saber fazer. Esperamos que agora encontrem os museólogos e museógrafos certos para o ressuscitar e o colocar no devido lugar da museologia portuguesa, sem destruir a arquitectura e as obras de arte.

O Museu Nacional de Arqueologia já há muitas décadas que espera edifício adequado para preservar e expor as suas notáveis colecções. Poderia ser um grande museu de referência para a cidade de Lisboa e para o país se lhe fosse dado um edifício com um programa museológico e um projecto para um edifício de raiz. 

A Cordoaria Nacional é um exemplar único do nosso património industrial que não pode ser destruído, nem descaracterizado. Qualquer intervenção neste edifício para fins museológicos exige uma adaptação dos espaços que não venha a destruir a identidade da arquitectura do monumento, porque não se pode preservar um património à custa da destruição de outro.

 

O Museu do Chiado necessita de um programa museológico para a sua expansão e de uma museografia renovada. Um Museu Nacional de Arte Contemporânea necessita de outra dimensão e de uma visão mais alargada da obra de arte e de um maior envolvimento dos artistas contemporâneos.

 

O Museu Nacional de Arte Antiga deveria ser visto com um olhar museológico como na sua época o Dr. João Couto o viu. Todas as intervenções posteriores a esta grande figura da museologia portuguesa ( XVII Exposição Europeia de Arte, Ciência e Cultura, em 1983 e Lisboa Capital da Cultura, em 1994,) reflectiram a falta de um programa museológico que lhe desse uma nova visibilidade, como aconteceu com outros museus europeus, nomeadamente no Louvre, em Paris  e no Prado, em Madrid.

 

Quanto ao Museu dos Coches não nos parece uma prioridade a sua mudança, porque no local onde se encontra foi sempre um pólo de atracção turística não só pela colecção como também pelo edifício. De qualquer modo o processo do novo edifício não nos parece que tenha sido bem conduzido. A dimensão do projecto deveria ter um programa museológico elaborado por uma equipa pluridisciplinar e com especialistas de museologia. Já que foi colocada a primeira pedra, iremos ver mais uma obra prosseguir, sem uma avaliação prévia das necessidades museológicas para a cidade de Lisboa e para a museologia nacional.

Para quê mais museus se os existentes exigem urgentemente de uma intervenção para a sua valorização?

O Museu da Língua e da Viagem também não é uma prioridade para Lisboa, enquanto não se renovarem os museus de referência da cidade Lisboa, tais como o Museu Nacional de Arte Antiga, o Museu Nacional de Arqueologia e o Museu Nacional do Azulejo. Estes três museus poderiam ser motivos suficientes para visitas obrigatórias à cidade de Lisboa e para o desenvolvimento do turismo em Portugal. Ao mesmo tempo existem museus nacionais que necessitam de intervenções imediatas, como o Museu Nacional do Traje, o Museu da Música, em Lisboa e os museus distribuídos pelo país, como o de Miranda do Douro, o Museu da Guarda, o Museu Dr. Joaquim Manso, na Nazaré, com um projecto do Arqto Siza Vieira, o Museu de Etnologia do Porto.... São museus que foram criados com uma vocação regional, mas que não podem cumprir a sua missão, porque têm deficientes instalações, quadros de pessoal insuficientes e um orçamento reduzido. O desenvolvimento do país também passa pela requalificação dos museus que estão sob a tutela do Estado, porque o turismo necessita destas instituições como espaços de atracção e de visita obrigatória.

O espírito da República, cujo centenário se está a comemorar, também devia ser celebrado na política museológica nacional. Como sabemos a República preocupou-se com a criação de museus regionais que perduraram até aos dias de hoje. Presentemente pretende-se inverter esta política de museus regionais sob a tutela do Estado, para passarem para as autarquias ou direcções regionais. Sabemos que seria um encargo menos penoso para o país manter museus de âmbito regional, como pólos de atracção turística e com funções coordenadoras dos museus locais. Estes museus para funcionarem necessitam de edifícios adequados, quadros de pessoal com formação na área da museologia e orçamentos suficientes para a execução dos planos de actividades. Na prática, têm-se aberto unidades museológicas, em vários pontos do país, mas não lhe dão os meios para o funcionamento normal da instituição museológica. Não basta abrir um espaço museológico; é necessário criar condições para o seu funcionamento.

 

 Quais os principais problemas que identifica no tecido museológico português e o que mais urge fazer? Em particular, há outros museus que devam ser criados ou reformulados?

 

O principal problema consiste na falta, desde há alguns anos, da definição de uma política museológica nacional. Não se tem investido nos museus, como se fez em Espanha e na maior parte da Europa durante as últimas décadas. Apenas algumas autarquias têm investido na museologia com projectos inovadores. Sente-se a falta de uma maior intervenção de profissionais de museologia na requalificação dos museus. A museografia dos museus requalificados não tem sido inovadora na maior parte dos casos, como aconteceu no Museu Grão Vasco e Museu Soares dos Reis, entre outros. Antes da criação de novos museus é necessário requalificar os existentes.

Não se entende como, hoje, existindo uma grande quantidade de pós-graduados e mestres em museologia estes profissionais sejam preteridos em relação a outros com formação noutras áreas disciplinares  para a admissão nos quadros dos museus.

Os museus necessitam de uma nova imagem e de novas linguagens para que possam cativar os públicos. Os museus não se formatam. Hoje, em Portugal, aplicam-se soluções expográficas muito repetitivas, modelos empresarias, e não se investe na criatividade (existem excepções). Criam-se museus, melhor, pseudo-museus, só apoiados em áudio-visuais ('casas de electodomésticos'), como o Museu de Foz Côa, que em certo momento optou por esta solução não museológica.

Vamos confiar nas novas equipas que estão à frente dos organismos dos museus e do património cultural. Não se esqueçam que os museus devem estar 'ao serviço da sociedade e do seu desenvolvimento' como aprendemos com a definição do ICOM.
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