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Autobiografia d'O Estrangeirado

Morreu Joaquim Vital

Joaquim Vital, escritor e editor, e uma das principais vozes da cultura portuguesa em França, criador das Éditions de La Différence, morreu dia 8, aos 62 anos, em Lisboa, vítima de ataque cardíaco. Republicamos aqui a 'autobiografia' que o editor escreveu para o JL, em 2008, intitulada O estrangeirado. 

 

Joaquim Vital
14:20 Segunda, 10 de Maio de 2010
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Joaquim Vital
Joaquim Vital

UM ESTRANGEIRADO

A minha primeira recordação, muito nítida, data do 25 de Outubro de 1951, dia dos meus três anos. Na véspera, já deitado, tinha ouvido barulhos de loiça na cozinha: minha mãe vigiava a cozedura da aletria e do arroz doce, fazia bolos, cortava às fatias um grande presunto, um paio e uma bola de queijo flamengo. De manhãzinha, sem acordar os meus pais, saltei da cama, atravessei o corredor na ponta dos pés e abri, com uma mão impaciente, a porta da sala de jantar. A mesa, coberta de pratos a abarrotar de iguarias, estava decorada tão faustosamente que teria evocado para mim os esplendores de Versailles... se eu estivesse a par da existência de Luís XIV. Que espectáculo fabuloso! Tal como a maior parte das casas de Lisboa, a nossa estava mal aquecida entre Outubro e Abril, portugueses, espanhóis, italianos e gregos continuam a extasiar-se, tremendo de frio, com a doçura do clima dos seus países respectivos e regressei depressa ao calor dos lençóis. O meu entusiasmo, esse, é que tão cedo não iria esfriar: durante muito tempo pensei que a vida era uma sucessão ininterrupta de alegrias, uma festa perpétua.

Uma nova recordação vem substituir-se à anterior. Tenho dez anos e, como em cada Verão, os meus pais levam-me para longe, muito longe, até à Costa da Caparica. O ritual é imutável: descem-se as malas, sobe-se para o táxi, espera-se no cais pelo barco, atravessa-se o Tejo, em Cacilhas volta-se a entrar no carro, o taxista guia com cautela ao longo da estrada sinuosa que vai dar ao oceano... Do jardim dos Anjos até à Pensão Palácio, o trajecto dura uma hora e meia, às vezes duas. A pensão, menos pretensiosa do que o único hotel da rua principal, fica a 100 metros da praia, imensa e quase deserta, e o recepcionista estende-me a sorrir a chave do meu quarto. A posse dessa chave enche-me de orgulho. Preciso de independência, de poder deixar a luz acesa pela noite dentro, pois a leitura tornou-se para mim uma paixão, uma paixão obsessiva. Júlio Dinis, Alexandre Herculano, Guerra Junqueiro, Jorge Amado, Victor Hugo, Alexandre Dumas, Charles Dickens... O tempo que não lhes consagro, dedico-o ao mar Atlântico e à contemplação das raparigas em fato de banho. Graças ao meu pai, interesso-me por política: partidário feroz da URSS, execro a OTAN e odeio a ditadura de Salazar. O recomeço das aulas em Outubro inspira-me vagos temores: a escola primária acabou, como irão correr as coisas no liceu?

Os três mosqueteiros eram quatro e, no Liceu Gil Vicente, primeiro ano, turma A, éramos também quatro espadachins, prontos a desafiar os esbirros do cardeal: o Vítor Frias, o Carlos Cáceres Monteiro, o Luís Almeida Martins e eu; um quinto, o Óscar Mascarenhas, juntou-se no segundo período a esse comité de anti-salazaristas sedentos de Literatura. Durante seis anos, até eu ser preso pela PIDE em 1965, num café qualquer ou nos intervalos das aulas, discutimos de tudo e de nada, com o entusiasmo dos que acreditam que o futuro lhes pertence. (O Frias e o Cáceres Monteiro já morreram, vejo raramente o Almeida Martins, perdi o endereço do Mascarenhas.) No início de 1962, mentindo sobre a minha idade, aderi ao Partido Comunista clandestino e enviei os meus primeiros textos, umas novelas insípidas, ao Diário de Lisboa Juvenil, que Mário Castrim dirigia. Para esse suplemento, no qual colaboravam Eduardo Prado Coelho e Nelson de Matos, entrevistei Domingos Monteiro, Ferreira de Castro e Aquilino Ribeiro. No âmbito da célula juvenil do Partido Comunista e da associação, proibida, dos alunos do Ensino Secundário de Lisboa, militava com ardor contra o regime e contra a guerra colonial.

Distribuíamos o Avante, participávamos em reuniões inúteis onde se construíam sólidas amizades (lá conheci a Margarida Garrido, com quem ainda me cruzo de vez em quando), policopiávamos os poemas de combate de Manuel Alegre, ouvíamos em silêncio, num silêncio religioso, as canções de José Afonso... O sol brilhava em Portugal o sol brilha que se farta, os bons eram muito bons e os maus muito maus. Apesar de uma desilusão amorosa, vivia mergulhado numa doce euforia.

Fui preso aos 16 anos. Se guardo uma lembrança sinistra dos interrogatórios na Rua António Maria Cardoso e dos 60 dias passados nos curros do Aljube não obstante o apoio do meu companheiro de cárcere, Jorge Neto Valente, os quatro meses que se seguiram, em Caxias, deixaram-me reminiscências menos sombrias. Nas camaratas do Reduto Sul aprendi muito sobre os homens e as coisas. Quando recuperei a liberdade, ao cabo de um processo que a imprensa, sujeita à censura, não foi autorizada a comentar o " processo dos 31", em que Mário Soares e Jorge Sampaio foram advogados e se mostraram muito combativos, era, finalmente, adulto. (Por vezes, quando vejo o jornal televisivo em Paris, o da RTP Internacional, os rostos envelhecidos de antigos companheiros de Caxias surgem no ecrã. Ministros, responsáveis políticos, altos funcionários... Lembrar-se-ão eles, ainda que fugazmente, desses estranhos tempos ?) Com uma conjuntivite crónica e 15 quilos de excesso de peso, ia em breve apanhar o vírus da edição. Não possuía nenhum diploma e não desejava retomar os estudos. O meu amor pelos livros permanecendo inalterado, porque não fazer deles o meu ofício? O poeta Edmundo de Bettencourt, que exerceu sobre mim uma influência considerável, Luís de Sttau Monteiro e Urbano Tavares Rodrigues encorajaram essa vocação precoce o Urbano chegou mesmo a confiar-me, no Outono de 1967, uma colectânea de ensaios, Escritos temporais, que entreguei a uma tipografia, mas a PIDE não me perdia de vista. Já então eu deixara de ser membro do Partido Comunista: gravitava em volta de um núcleo de dissidentes que preconizavam acções violentas. Luísa Vilar, que viria a ser a mãe das minhas duas filhas, Natália e Sónia, avisou-me que, devido a uma denúncia, corria o risco de ser novamente preso. Preferi o exílio.

Em Bruxelas, acabei de escrever três livros, dois de poemas e um de novelas, que talvez sejam editados, com um impressionante aparato crítico, no âmbito das minhas Obras completas, daqui a cinco ou seis séculos... Prosseguia as minhas actividades contra a ditadura, mas lutar longe do campo de batalha era uma tarefa ingrata. Em companhia de alguns intelectuais belgas, fundei as Éditions La Taupe, que projectavam publicar, e que publicaram, em língua francesa, autores marxistas ou afins: Staline, Trotsky, Mao, Lumumba... Se, pela sua heterodoxia, o seu eclectismo, o empreendimento estava de antemão condenado ao fracasso, teve no entanto o mérito de reforçar a minha convicção de que o ofício de editor me assentava como uma luva.

Após cinco anos passados na Bélgica, resolvi dar novo rumo à vida. Como em Portugal, apesar da morte de Salazar e da chegada ao poder de Caetano, em aparência nada de essencial mudava, a França em efervescência do pós-Maio 68 parecia-me uma solução adequada: Paris era uma capital dinâmica, onde poderia desenvolver melhor as minhas capacidades. A insistência de um amigo, o pintor Jean Hélion que me iniciou na arte contemporânea, um domínio que eu não mais deixaria de percorrer venceu as minhas últimas reticências. No final de Dezembro de 1972, instalei-me na capital francesa.

 

O 25 de Abril de 1974 surpreendeu-me e encantou-me. Que felicidade que foi voltar a ver o Tejo! Manifestei, ri, cantei, desfilei de punho erguido e bebi copos com amigos que, tendo escolhido estratégias políticas opostas, se odiavam cordialmente, e a quem infligi discursos tão peremptórios e tão inconsequentes como os deles. Se ainda morasse em Bruxelas, creio que teria regressado a Lisboa... mas morava em Paris, onde tinha terminado a realização de um álbum de estampas de artistas abstractos Max Bill, Calder, Sonia Delaunay, etc. e onde preparava, com Marcel Paquet e Patrick Waldberg, o lançamento das Éditions de La Différence. Em Paris tudo me atraía, e a morte do meu pai, que eu adorava, no fim do "Verão quente" de 75, pôs termo às minhas conjecturas sobre a eventualidade de um regresso à terra natal.

Depois, um ou dois anos mais tarde as Éditions de la Différence já existiam e Colette Lambrichs, que viria a ser a mãe do meu filho, Jerónimo, já fazia parte da minha vida, o imprevisível aconteceu: sonhei em francês.

Não troquei de bilhete de identidade, mas doravante é em francês que sonho e que escrevo.

Acho inútil alongar-me sobre o meu percurso profissional. Editei mil e quinhentos livros, em prosa e em verso, franceses e estrangeiros, dos quais uma boa centena, clássicos e contemporâneos, traduzidos do português, entre eles o romance de Vergílio Ferreira Manhã submersa, que recebeu em França o Prémio Femina Étranger, e as antologias de poemas de Sophia de Mello Breyner, Apesar das ruínas e da morte, e de Vasco Graça Moura, Uma carta no Inverno, tendo ambas obtido o Prémio Max Jacob.

Também publiquei a Peregrinação e a Odisseia e viajei muito, embora menos do que o "pobre de mim" do Fernão Mendes Pinto ou o Ulisses.

Tive a sorte de trabalhar com grandes artistas, grandes escritores, grandes poetas, homens e mulheres notáveis, e sou autor de três livros Adieu à quelques personnages, onde traço o retrato de alguns deles, já desaparecidos, Un qui aboie, poemas, e La vie et le reste, ficções, todos inéditos em língua portuguesa.

Vou fazer 60 anos em Outubro e, há um mês, comecei a escrever um romance, Le Salut par les femmes. No fundo, não me enganava tanto como isso: a vida é uma festa, mesmo se, às vezes, a comida é má e o vinho azedo.

Palavras-chave  Joaquim Vital
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