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Poeta

Miguel-Manso - Contra a corrente

Sílvia Souto Cunha
11:37 Domingo, 1 de Maio de 2011
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Miguel Manso
Miguel Manso
Bruno Simão

A conta é redonda como um seixo. Três livros publicados, três pedradas no charco. Alinhem-se os títulos: Contra a manhã burra (2008), Quando escreve descalça-se (2008), e Santo subito (2010), lançados em edição de autor e reeditados (o primeiro volume pela Mariposa Azual, o segundo pela Trama). Os críticos crismaram-no poeta revelação dos últimos anos. Ele sacode os encómios. Miguel-Manso, hífen adotado, corpo formado por doze anos de karaté equivalentes a cinturão negro (ele não fez a graduação, a intensidade é guardada para outras paragens), ironia português suave, desmonta clichés: "Isso é uma treta. Esta história toda do novo talento está entre o privilégio e a tragédia. Estou muito interessado na escrita. E é melhor...Não sei se é melhor mas é agradável que se escreva e se diga bem dos meus livros. Mas o mais importante, muito antes de começar a escrever e ainda na adolescência, é algo como a minha mãe a dizer-me: "Ah, não quero ler o que tu escreves, faz-me chorar." É perceber que se pode chegar a um ponto qualquer que poderá tocar em coisas que não sabemos que temos." Até porque, acrescentará mais à frente, "somos uns chatos, os poetas, uns palermas do maior". 

Certo dia, comprou um punhado de carimbos bonitos numa loja de velharias na Bélgica, onde entrara atraído por uma bandeira portuguesa na montra. Cinquenta cêntimos trocados de mão, que inaugurariam o hábito de carimbar, tatuar, as capas dos livros em edição de autor que fez. A imagem de um padre, uma cabana cercada por uma paliçada, outra cabana erguida em altas estacas... Fazem parte da série que Miguel-Manso intitula Os carimbos de Gent. "Tenho trabalho nesses livros de poesia para mais uns aninhos", conta. E explica: "Serão nove livros mais um, porque equivalem a dez carimbos. O último volume sai da linha: tem uma frase, e não um desenho, a dizer snapshots, e aí quero reunir só os poemas fotográficos, aqueles onde falo muito de fotografia e de cinema." O quarto e o quinto livro, prevê ele, serão publicados no início de 2012. 

Ruídos do mundo

"Não aspiro a nenhuma perfeição", diz, defendendo os seus "poemas maus e erros". A grande descoberta do seu primeiro livro, conta, foi "a forma: a quebra de verso, a escolha de vocabulário...."  "O livro tem pilares, e há zonas moles entre eles por onde vão entrando os poemas. Ainda não percebo bem como é o método, se há método... Os livros são trabalhados segundo uma ideia, uma chave de entrada. É claro que, depois, eles é que mandam." Há farrapos biográficos, referências bibliográficas, auto-irrisão, ele a "fazer de pateta em vez de poeta". Mas também o ruido do mundo, real ou imaginado: viagens e cidades, aventuras e epifanias, mulheres e momentos. "E as minhas mentiras também", sublinha Miguel. "Não tenho zonas escuras onde não me interesse ir."

Foi para escapar à brancura do "deserto cultural e humano" de Almeirim, onde vivia, que Miguel-Manso desaguou em Lisboa com vinte anos. Nascido em Santarém, em Setembro de 1974 (filho de pai engenheiro técnico agrário, hoje reformado, e mãe antropóloga e bibliotecária), recorda-se da curiosidade por tudo. Pela música - que tentou sob a forma de bateria. Pela vontade de fazer coisas - o que incluiu recitais com amigos em lugares públicos. Pelo teatro - que faria em Lisboa até "deixar de fazer sentido", e pela experiência recente de colaboração com a companhia Cão Solteiro, que trabalhou os poemas que viriam a ser o livro Santo súbito.

A pintura também o tentou. Quis entrar em Belas Artes, mas as notas não deixaram. Escolheu design de comunicação: um erro, percebeu cedo. Acabou por estudar desenho durante três anos na Ar.Co. "No primeiro ano, tive uns laivos de virtuosismo, que foram descobertos e massacrados. E ainda bem. O virtuosismo é a pior coisa que há. Porque é cobarde, técnico, mecânico. É um talento", afirma o poeta. E repete a imagem já explicada noutras entrevistas: "Comecei a ter tanta liberdade no desenho que as folhas eram cada vez maiores, e os desenhos cada vez mais pequenininhos, até que desapareceram fisicamente e ficou isto, que consigo fazer nos textos: esta coisa mental."   

A escrita, claro. Em casa dos pais, as estantes familiares tinham tanto os livros trazidos pelo senhor Manuel do Círculo de Leitores como tomos de agricultura. "Lembro-me de abrir uma antologia do [Alexandre] O'Neill, que me pareceu completamente absurdo. De dois em dois anos, ia lá e continuava a ser difícil. Até que, um dia, houve um momento "ok, já estou a perceber"". Juntou-se-lhe Pessoa e Rui Knopfli. "Esses três poetas fizeram-me ir à procura de outras pistas." 

Escrita e esquecimento

Ensaiou a mão para o romance em blogues (Baixa-Shiatsu, Largo do Karma, Rua Luxuriano), que não lhe interessa recuperar em livro (mantêm apenas o último, Um marujo ou Vieira da Silva). "Eram uma coisa de sedução, para conhecer miúdas", atira. Até que muda a maré, e ele experimenta a escrita a sério. "Numa madrugada, escrevi umas sete páginas, nunca tinha feito uma coisa tão intensa. Nessa noite houve um ahrrrr... O pescoço doía-me, cresceram-me borbulhas nas costas, quis vomitar, quase desmaiei. Alarguei para um sítio novo, parecia que tinha mais caixa torácica para avançar", descreve. Os poemas, descobriu, eram-lhe forma natural.

A poesia é patroa avarenta. Alojado numas águas-furtadas, casa cedida pelo avô, Miguel-Manso alinhavou trabalhos de ocasião: exercitou a formação (feita para sossegar os pais) de técnico de biblioteca, foi padeiro em Almeirim e vigilante no Museu do Chiado. E há mais: responsável pelo centro de documentação da galeria Zé dos Bois, tarefeiro na Ellipse Foundation, porteiro do Hotel des Artistes da Casa d'Os Dias da Água , arrumador da biblioteca do jornalista e poeta Fernando Assis Pacheco... Tarefas que o deixavam escrever. "Deem-me um quartinho e uma mesinha e eu escrevo, que é o que quero."

Mesmo que seja para o esquecimento. "Não me desaponta nada caminhar para a decadência, para um livro esquecido e à venda na Feira da Ladra. Como naquela exposição da Lourdes Castro, o Grande Herbário das Sombras: é a mesma ideia bonita do desaparecimento, da sombra que vai comer tudo", declara. 

Por estes dias, Miguel-Manso está a terminar uma residência artística em Évora, integrada na programação do Festival Escrita na Paisagem. Aliás, hoje, às 22h, lerá em público 25 poemas (sete deles escritos em Évora) na Capela dos Ossos, espaço a bruxa teatro (Rua do Eborim, Évora).  A não perder: ele é um bom leitor. 

P.S.: Miguel-Manso não gosta de que lhe retirem poemas avulsamente, soltando-os na internet. Arrisquemo-nos a contrariar o poeta para dar a conhecer um dos seus primeiros poemas: 

Balada da Rua Damasceno Monteiro

ardia de amor pela casa
uma confusão de silêncios ou
dizendo de outro modo

afundava-se numa líquida recordação cardíaca

ocultos pólen pólvora fósforos
a má reputação dos dedos
paixão cartografada remota
toponímia de enganos

braço a braço crescia alto
o incêndio no interior do peito
deliberado ritual de lâminas e pele
a transparente certeza
da cicatriz

mas ardia de amor pela casa soturna
silêncio dando para o saguão luz muitíssimo
extinta por sobre a larga extensão destruída

morrer, principalmente de amor, é
uma compendiosa tarefa doméstica

dentro do coração antigo
                  serei breve

(in Contra a Manhã Burra)

 

Palavras-chave  Miguel-Manso
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