Na rentrée, a peça, a encenação e os atores são os mesmos; e o público também, mas cada vez menos: é o esplendor da mesmice política
9:36 Quinta, 2 de Setembro de 2010
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O pano já subiu. Se é que chegou a descer e não ficou apenas como que entreaberto, suspenso, enquanto os atores iam ali à praia e voltavam logo. Porque os atores são os mesmos. E a peça também. Este o grande problema: ser a peça sempre a mesma, inclusive quando os atores têm mudado, em geral pouco e para pior (os grandes atores devem-se manter em palco até ao fim). E além de a peça ser a mesma, com meras variações formais, tal como a encenação, não ter qualidade nem êxito: daí o público ser igualmente o mesmo, mas cada vez menos...
Refiro-me à chamada rentrée política. Mas então porque se mantém o "espetáculo"? Primeiro, por falta de imaginação e de ideias. Segundo, para corresponder às expectativas dos tais "mesmos", que nos casos das jotas partidárias podem ter caras diferentes: estas rentrées são o esplendor da mesmice política. Terceiro, para aquecer os motores, tipo jogos de preparação das equipas de futebol. Quarto, e sobretudo, porque apesar de já não ser como foi, os media, sobretudo as televisões, ainda lhe dão muito espaço, "tempo de antena": o que agora aconteceu de novo, não obstante haverem voltado os devastadores incêndios, durante muitos anos, como os comícios, sempre iguais, mas cada vez piores...
Deixando para a próxima as presidenciais, de tudo que ocorreu e foi dito não retenho nada de particularmente novo e/ou interessante. No fundamental, no PS, José Sócrates, nestas circunstâncias que de todo não o aconselham, voltou a falar às vezes do modo menos adequado para quem precisa, no interesse do País, de estabelecer acordos, em particular para fazer aprovar o Orçamento do Estado (OE). E tentando, como necessário, transmitir confiança e algum otimismo, algumas vezes tem ido também longe de mais, com risco de perda de credibilidade, na valorização de certos ainda pálidos indícios positivos.
Quanto ao PSD continua a emaranhar-se numa deplorável proposta de revisão constitucional, nos aspetos essenciais à partida condenada ao insucesso (nem o apoio implícito de Cavaco Silva terá...), que nos faria recuar décadas em termos de Estado Social, num momento em que o Estado Social mais necessita de ser reforçado; e a afundar-se no enorme disparate que foi avançar tão cedo com tal proposta, oferecendo ao PS o melhor trunfo que poderia ambicionar. Por outro lado, ao ter enfatizado muito, porventura para diminuir o impacto do desastre constitucional, a possibilidade de chumbar o próximo OE, o PSD e Passos Coelho (que no entanto manteve sempre um tom correto e cordato) também não foram felizes, dado que devem chegar mesmo a um acordo com o PS, que nas suas propostas já terá prevista uma margem de "recuo" para esse efeito.
Mas um comício, ou similar, pode servir para propostas concretas e aparentemente fora do imediato tric-tric partidário. Foi o que fez, em nome do CDS, Paulo Portas, ao defender um referendo com três perguntas para forçar outras tantas alterações da lei penal. Ótimo? Péssimo! Porque se tratou do caso mais notório de uma primária demagogia e de querer conquistar apoios, traduzíveis em votos, explorando o excessivo sentimento de insegurança que muita gente tem e a legítima indignação perante casos em que as leis são inadequadas ou a justiça não funciona.
Sem entrar em questões, inclusive jurídicas, mais complexas, falo em demagogia primária por quatro razões: a) não se trata de matéria que tenha dignidade para ser sujeita a referendo; b) se o fosse, então igualmente o deviam ser muitas outras matérias na esfera penal, tão ou mais importantes do que estas; 3) as perguntas propostas nem sequer são admissíveis, por falta da "objetividade, clareza e precisão" que a Constituição exige (basta dizer que em duas delas se preconiza que "em regra", etc; e na terceira que a "liberdade condicional seja seriamente (sic) restringida..."); 4) além de serem perguntas que, face à sua generalidade e indefinição, podem não ter efeito útil, e para as quais, tal como são apresentadas, já se conhecem antecipadamente as respostas...