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LOUISE-MICHEL, de Benoit Delépine e Gustave Kervern

Louise-Michel: A Lota Continua

Louise-Michel: A Lota Continua
Uma caldeirada que envolve patrões de grandes multinacionais , um operariado pouco dócil, uma revolução mais burlesca do que combativa. E o mais divertido de tudo neste filme: é uma comédia... belga.

Ana Margarida de Carvalho
23:11 Terça, 29 de Junho de 2010
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É um estranho, quase bizarro, objecto cinematográfico, este vindo da dupla francesa Benoit Delepine e Gustave Kervern, que conquistou alguma aura de culto em séries satíricas na televisão. E de facto o que mais surpreende neste filme que leva o nome de uma heroína anarquista da Comuna de Paris, Louise-Michel é a loucura desenfreada. Quando se pensa que se chegou ao cume do absurdo, ainda se avistam mais cordilheiras burlescas, surreais, de uma descompustura, às vezes desorientadora, outras a roçar o puro mau gosto, mas sobretudo desafiadora. Os realizadores, que se auto-intitulam "vagabundos cinematográficos", chamam-lhe um "western social" dos dias de hoje. E o próprio conceito começa logo por ter graça - à parte do potencial humorístico sempre inerente a uma comédia que se passa na plana Bélgica.
 
Louse-Michel (o título tem um hífen porque fala do encontro de duas personagens, um homem e a mulher tão rotundos e grotescos como a história que protagonizam) é antes de mais um on road, supostamente anarquista e revolucionário, um epopeia libertária, mas onde os criadores não se conseguem levar a sério e ainda bem. Porque apesar de parecer ser um OVNI ou pelo menos um dirigível de forma excêntrica que paira a muitos metros do solo terrestre, a verdade é que, se formos ver bem, ele está estranhamente bem ancorado, com cordas bem firmes, que o prendem à realidade social. Paira, flutua, suspenden-se, mas depois há algo que o deixa sequestrado destes tempos bizarros em que vivemos. Quando mais doido melhor, sim, é verdade. Como se o manicómio social e económico não estivesse há que tempos instalado nesta Europa civilizada.
 

O filme começa com uma cena muito batida: a do funeral desastrado que provoca sempre risos nervosos na sala. Este é o de uma cremação, em que a geringonça mecânica que eleva o caixão para o forno está desengonçada, desequilibra-se o caixão, consternam-se os parentes, e soa a música da Internacional- o que, convenhamos, para metáfora é fraquinho. Mas à parte, deste sketch inicial,o que vem a seguir é (igualmente pouco subtil) mas bastante mais original - logo, atenção, menos consentâneos com as lógicas de cinema de massas, mas é sempre assim. No fundo é um filme de alçapões, e na cena seguinte podemos sempre pisar terreno inseguro, e vem daí parte da frescura do filme.
A seguir temos enfim a apresentação da personagem - a actriz belga Yolande Moreau, vencedora de um César e que já antes víramos em Seraphine. Só que aí ela era a louca da aldeia, neste filme ela é a louca da união europeia.

Louise (Yoland Moureau) é operária têxtil de uma fábrica. O patrão faz um discurso paternalista às empregadas, lamentando a crise que se atravessa e bla, bla, bla... Para as recompensar oferece uma bata nova a cada uma, com o seu nome bordado. Elas  ingénuas festejam o acontecimento, mas na manhã seguinte, quando "pegam" ao trabalho, toda a maquinaria da fábrica desaparecera. Face à deslocalização da empresa e ao despedimento colectivo, as operárias decidem o que fazer com a escassa indemnização. Uma tem a ideia lúcida de juntar a maquia de todas e usá-la em proveito colectivo - o que parece bastante razoável, já que o que cabe a cada uma é tão pouco que não lhes dará uma sobrevivência digna. Mas é o único momento de lucidez do filme, a partir daí começa a escalada do non-sense. Uma das operárias sugere que se monte uma pizzaria. Outra alvitra que se faça um calendário... Até que Louise propõe: reunir a maquia para contratar um assassino profissional para matar o patrão. A proposta de Louise é aceite na hora, sem pestanejar.
E é a partir desta premissa extraordinariamente subversiva, mas aceite como a solução mais natural deste mundo, que começa a epopeia de Louise que conhece Michel, um segurança desastrado, de apartado em apartado até à multinacional final.

E a intriga entra nesta digressão de loucura, de onde não vai voltar a sair, sempre na senda desta veia humorística um bocado trash, e inestéticos,benoit  com uma câmara impiedosa que persegue estes dois personagens absurdos e ridículos. Como se ridículos e absurdos não fossemos nós todos. Neste mundo da alta finanças, das outsourcings e das multinacionais sem rosto.
 


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