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O GOSTO DE JOÃO BRAZ

LA GUEULE OUVERTE, de Maurice Pialat

O editor de cinema João Braz é o convidado da secção O Gosto dos Outros. Fala-nos sobre o filme La Guele Ouverte, de Pialat

João Braz
12:49 Segunda, 14 de Junho de 2010
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La Gueule Ouverte
La Gueule Ouverte
"Home is the place where a man can let down the guard on his weakness"
John Cassavetes

"La gueule ouverte" (1974) de Maurice Pialat é um dos filmes mais errados que conheço, se visto pelas regras da escrita de argumento.
Não tem um enredo claro, não utiliza eficazmente a economia narrativa, as cenas duram mais do que o necessário para expor as situações. No entanto é um dos filmes mais poderosos que vi. As suas personagens são extraordinariamente ricas e cada cena do filme tem uma força surpreendente. Pode parecer um paradoxo, mas é um filme de Maurice Pialat.

Monique (Monique Mélinand) após fazer uns exames médicos vai ficando cada vez mais doente, primeiro internada no hospital e depois em casa, para onde é enviada para morrer.
A sua doença provoca o reencontro forçado da família: o seu filho, Philippe (Philippe Léotard) e o marido alcoólico e mulherengo, interpretado por Hubert Deschamps.
Este é um filme sobre a morte, a solidão e a família. Ou melhor, o que resta da família, que se reúne à volta de Monique, cada vez mais transfigurada pela agonia da doença, esperando a sua morte.

O filme de Pialat é realista e cru. Este realismo é como um estalo que nos desperta -  sem truques narrativos, sem artifícios visuais, e sem retórica cinematográfica. Nunca vemos os actores, mas sempre as personagens, as suas emoções, as suas fraquezas e as suas forças. As personagens não vão a reboque da história, elas são a história.

A minha cena favorita (confesso que poderia ser qualquer uma, são todas extraordinárias) é na abertura do filme, um final de almoço entre a mãe e o filho, que após confessarem as suas infidelidades um ao outro, ficam longos minutos em silêncio a escutarem a musica de um disco. Naquele momento silencioso de palavras, que ao mesmo tempo é o último momento de paz no filme,  podemos sentir todas as suas emoções; o amor, a ternura, a desconfiança, o ressentimento e o medo. A cena filmada num plano só, mostra como o tempo pode ser a força de um filme, não o comprimindo, não o estendendo, mas usando a duração justa para naquele momento, aquelas personagens expressem o que sentem.
Outro dos momentos extraordinários é perto do fim, pai e filho observam em silêncio a mãe moribunda na cama enquanto só ouvimos a sua respiração sofrida. É a imagem da solidão. Estão todos sozinhos naquele longo momento e esperam apenas que ela morra, mesmo que as suas memórias e feridas fiquem para sempre. "Acabou", diz o pai ao filho num tom vazio.

Maurice Pialat tal como John Cassavetes, mostra-nos  como o cinema pode ser verdadeiro. Sem artificialismos. Sem desonestidades. Sem truques. Mostra-nos como pode arriscar exprimir quem nós somos. Como deve ter a coragem de revelar o que nos faz diferentes. Como pode mostrar as pessoas e as suas personalidades únicas, as suas emoções, os seus erros, os seus riscos e as suas paixões.
Fernando Trueba, um realizador espanhol disse que "a vida é um filme mal montado e que acaba mal". Eu não posso discordar mais e Maurice Pialat também não.
No fundo, não interessa saber se a vida poderia ser como nos filmes, mas antes como é que os filmes podem ser como a vida.
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