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Jukebox

Sérgio Godinho: Mútuo Consentimento

Esta pequena canção é o melhor aperitivo para o novo disco de Sérgio Godinho. A ouvir por Mútuo Consentimento

MÚTUO CONSENTIMENTO

 

Pareceu-me

uma aparição de ti

mas era já tão tarde

e hoje ninguém há-de

agitar a minha solidão.

P'ra dar corda ao brinquedo

agora ainda era cedo.

 

A verdade é que ontem nem te menti

e tu nem precisaste

de saber quem amaste

não me fugiste nem eu te fugi

foi amor de um momento

mútuo consentimento

mútuo consentimento

 

Pareceu-me

uma desaparição de ti

 

 

12:57 Quarta, 14 de Setembro de 2011

Jukebox

Comida, dos Titãs

"A gente não quer só comida/ A gente quer comida, Diversão e arte", a letra é de Arnaldo Antunes e é um dos grandes hits brasileiros dos anos 80, gravada em Õ Blésq Blom, dos Titãs. Todos sabemos que, salvo raras exceções,  a cultura não se come... mas a verdade é que também nos alimenta. Será altura de acrescentar esta canção à lista das reivindicações. Ouça a canção e leia a letra.

Bebida é água!
Comida é pasto!
Você tem sede de que?
Você tem fome de que?...

A gente não quer só comida
A gente quer comida
Diversão e arte
A gente não quer só comida
A gente quer saída
Para qualquer parte...

A gente não quer só comida
A gente quer bebida
Diversão, balé
A gente não quer só comida
A gente quer a vida
Como a vida quer...

Bebida é água!
Comida é pasto!
Você tem sede de que?
Você tem fome de que?...

A gente não quer só comer
A gente quer comer
E quer fazer amor
A gente não quer só comer
A gente quer prazer
Prá aliviar a dor...

A gente não quer
Só dinheiro
A gente quer dinheiro
E felicidade
A gente não quer
Só dinheiro
A gente quer inteiro
E não pela metade...

Bebida é água!
Comida é pasto!
Você tem sede de que?
Você tem fome de que?...

A gente não quer só comida
A gente quer comida
Diversão e arte
A gente não quer só comida
A gente quer saída
Para qualquer parte...

A gente não quer só comida
A gente quer bebida
Diversão, balé
A gente não quer só comida
A gente quer a vida
Como a vida quer...

A gente não quer só comer
A gente quer comer
E quer fazer amor
A gente não quer só comer
A gente quer prazer
Prá aliviar a dor...

A gente não quer
Só dinheiro
A gente quer dinheiro
E felicidade
A gente não quer
Só dinheiro
A gente quer inteiro
E não pela metade...

Diversão e arte
Para qualquer parte
Diversão, balé
Como a vida quer
Desejo, necessidade, vontade
Necessidade, desejo, eh!
Necessidade, vontade, eh!
Necessidade...

 

 

Manuel Halpern
17:39 Quinta, 11 de Novembro de 2010

Jukebox: especial mundial

Eto'o, su jugador favorito

Os Camarões perderam, mas nós continuamos a gostar de Eto'o, assim como La Granja, a banda indie espanhola que lhe dedicou uma canção, quando este jogava no Barcelona. Uma pérola negra

23:04 Segunda, 7 de Junho de 2010

Jukebox: into my arms

O que Nick Cave diria ao Papa?

Qual a melhor banda Sonora para a visita do Papa? Sugiro Into My Arms, de Nick Cave


Qual a melhor banda Sonora para a visita do Papa? Cântico gregoriano, ou música sacra, por um daqueles grupo que recriam os instrumentos medievais, e os sons, sem sombra de progresso. Gospel não será com certeza, coisa demasiado arrojada. Mas a música que eu gostaria de sugerir a sua santidade, no caso dele consultar o site do JL para matar o tempo na viagem para Fátima, caso ele tenha Papanet, é Into My Arms, de Nick Cave. Ele provavelmente preferiria ouvir a versão de Foi na Cruz, mas eu insisto nesta que é a mais teológica canção de amor que eu conheço.

Pode ser que Ratzinger embirre logo com o primeiro verso, em que cave diz que não acredita num Deus de intervenção. Mas qualquer teólogo sério sabe que a não intervenção divina, em nome da liberdade do Homem, é um dos princípios da sustentabilidade da existência de Deus. Caso contrário, seria um Deus aleatório, especialista em brincadeiras de mau gosto. Diria: "Agora tu levas com um tremor de terra, para não te armares em esperto, enquanto tu apanhas banhos de sol; tu és condenado a viver na miséria, enquanto tu vais ganhar o Euromilhões; tu andas a pé, enquanto tu viajas de Papamobile." E Nossa Senhora, contagiada pelo humor negro do filho, jogaria às escondidas com os crentes, ora espreita em Lourdes ora espreita em Fátima, no Médio Oriente eventualmente também terá aparecido uma ou outra vez, só que ninguém a conhece. E além do mais anda a dizer segredinhos, como se fosse uma criança.

Nick Cave escreveu a canção numa igreja. E é belíssima, porque é uma espécie de oração ao contrário, como quem diz: "Está-se bem aqui, Deus por favor não estragues tudo". Se Deus tem algumas responsabilidades no que os homens fizeram deste mundo, devia ser metido atrás das grades. Quanto ao Papa já percebeu, tal como os seus antecessores, que é mais fácil entusiasmar as pessoas com superstições e rituais de origem pagã ou medieval do que confrontá-lo com os enigmas da existência e um Deus incógnito.

 

INTO MY ARMS (LETRA)

I don't believe in an interventionist God
But I know, darling, that you do
But if I did I would kneel down and ask Him
Not to intervene when it came to you
Not to touch a hair on your head
To leave you as you are
And if He felt He had to direct you
Then direct you into my arms

Into my arms, O Lord
Into my arms, O Lord
Into my arms, O Lord
Into my arms

And I don't believe in the existence of angels
But looking at you I wonder if that's true
But if I did I would summon them together
And ask them to watch over you
To each burn a candle for you
To make bright and clear your path
And to walk, like Christ, in grace and love
And guide you into my arms

Into my arms, O Lord
Into my arms, O Lord
Into my arms, O Lord
Into my arms

And I believe in Love
And I know that you do too
And I believe in some kind of path
That we can walk down, me and you
So keep your candlew burning
And make her journey bright and pure
That she will keep returning
Always and evermore

Into my arms, O Lord
Into my arms, O Lord
Into my arms, O Lord
Into my arms 

Manuel Halpern
16:10 Terça, 11 de Maio de 2010

Mãe, dos Xutos e Pontapés

Édipo, Freud e os Xutos & Pontapés

JUKEBOX. Uma coisa é o mito de Édipo, outra é o complexo. Outra ainda é a música dos Xutos & Pontapés

xutos

Esta vem a propósito de Rei Édipo, a peça de Sófocles, que Jorge Silva Melo leva ao palco do Dona Maria. Mas, para evitar equívocos, é bom que as histórias se distingam: uma coisa é o mito de Édipo, da Antiguidade Grega, outra é o complexo que Freud descreveu. Outra ainda é a música dos Xutos & Pontapés. Mas já lá vamos.
A peça recria o mito de Édipo, um rei que não consegue fugir à previsão trágica do horóscopo e acaba por desposar a mãe e assassinar o pai. Em Freud, nada disto é real, o exemplo serve para metaforicamente descrever a relação ambivalente de amor, desejo e ódio que os filhos sentem pelos seus progenitores.
A personagem dos Xutos verbaliza o complexo, transformando-o num caso agudo, numa psicopatia. A diferença essencial é que Édipo não sabia que aquela mulher que desposou era a mãe, nem que aquele homem que matou era o pai. Na música dos Xutos, pelo contrário, há uma declaração de intenções: "Mãe, mãe, eu já matei o pai pai pai pai pai, mão foi uma morte sem dor". Na linha do que Jim Morrison cantou no apocalíptico The End: "Father, I want to kill you; mother, I want to fuck you".
Não sei o que os pais do Tim acharam desta canção, mas assenta que nem uma luva no período mais punk dos Xutos, que corresponde aos primeiros anos: está no álbum 1979-1982. Tem a força e energia, uma linguagem e forma de estar insurrecta, politicamente incorrecta, embora denuncie os maus tratos domésticos. Ao todo, na versão ao vivo, repetem a palavra "Mãe" 53 vezes (salvo erro), e em número semelhante dizem "pai" e "tu", sempre numa espécie de eco, acentuando a ideia de triângulo amoroso familiar, presente na história que conseguem contar. A forma como as palavras são gritadas combina, na perfeição, com o som da guitarra, e faz desta canção, tão peculiar, um imenso grito de raiva. Freud explica, Édipo também, os Xutos qum sabe.

 

Mãe -Letra

 

Mãe tenho ciúmes do pai
Quando se deita contigo Mãe
E te chupa as tetas
E te esborracha os seios
E se monta em ti
E se vem depois. Mãe

Mãe eu não suporto o pai
Mãe vou dar cabo do pai
Quando ele diz Mãe
Gosta de mim Mãe
Quando ele diz Mãe
Gosta de ti Mãe
Quando ele diz Mãe
Que nos ama aos dois
E depois bate sem fim

Eu vim cá para fora
Toda a gente chora
Toda a gente berra
Foste tu
Foste tu

Mãe
eu já matei o pai
Mãe
Foi uma morte sem dor
Agora sou só eu Mãe
Agora és só tu Mãe
Agora somos só dois
E depois, e depois

Mãe
Morreste também
Mãe
Traíste-me assim
Agora sou só eu Mãe
E procurei o fim Mãe

Eu vim cá para fora
Toda a gente chora
Toda a gente berra
Foste tu
Foste tu

Manuel Halpern
11:24 Segunda, 15 de Março de 2010

A Menina dos Telefones, de Maria José Valério

Toca o telefone a toda a hora

A propósito do caso das escutas, aqui fica este tesourinho deprimente do nacional cançonetismo, só para mostrar que não é de hoje nem de ontem que há linhas trocadas e ouvidos intrometidos

Isto era no tempo em que as linhas se trocavam, agora... escutam-se, o que faz toda a diferença. Outro pormenor importante é que o sujeito desta canção não é o primeiro-ministro. Mas não sejamos elitistas. Por que, por engano, namorar com a Babazinha em vez da Clarinha, pode ser suficientemente dramático.

Esta canção, tão alegre e sedutora, data de 1962 e é da autoria de Eduardo Damos e Manuel Paião, uma das mais felizes duplas do nacional cançonetismo. Na altura, a Maria José Valério ainda não pintava o cabelo de verde, mas já cantava a Marcha do Sporting, que fora composta, dois anos antes, pela mesma dupla. Lá fora, os Beatles e os Rolling Stones começavam a discutir quem tinha a trunfa mais gadelhuda. E o Elvis arrebentava com tudo.

Por aqui, enfim, ouvia-se este género de músicas e a malta ria-se. E assim iam passando os dias. A canção em causa até tem uma melodia agradável, sempre na linha do que se fazia no estrangeiro, mas com uns anos de desfasamento. A estrutura, por si só, é curiosa. É animada e cheia de ritmo desde o início, dando vontade de dançar. Ao estilo francês, é interrompida, na sua lógica, para fazer um gag. E depois retoma, bem-disposta. Agora ganha um gosto anacrónica, porque esta figura da telefonista, que às vezes ouvia as conversas dos outros, é mesmo do tempo da outra senhora. Mas, hoje, ainda há quem escute.

 

 A Menina dos Telefones

 

Sou Telefonista
Vá não vejo à lista
Porque a demora é um horror..
Sou Telefonista
Mas não vejo à lista
Porque sei o número do amor
Toca o telefone a toda a hora,
Toca,
Toca,
E se não atende sem demora,
Toca,
Toca
Está quem é que fala desse lado
É de certo alguém apaixonado!
Toca o telefone no momento,
Quero, quero,
Que esse alguém me fale em casamento...
Espero, eu espero.

Toca o telefona a toda a hora,
Toca,
Toca,
E se não atende sem demora,
Toca,
Toca
Está quem é que fala desse lado
É de certo alguém apaixonado
Toca o telefone no momento,
Quero, quero,
Que esse alguém me fale em casamento...
Espero, eu espero.

- Estou?
-Está?
-Por favor, és tu meu amor?
-Sim, minha beleza. Sou eu com certeza!
-Ontem não te vi, escuta, eu não posso viver sem ti.
-Oh ventura minha, como eu te amo.. Babazinha!
-Babazinha!? .. Eu sou a Clarinha!
-Clarinha? Não conheço nenhuma Clarinha ..
-Oh meu Deus...
- HOUVE ENGANO NA LINHA!

Toca o telefona a toda a hora,
Toca,
Toca,
E se não atende sem demora,
Toca,
Toca
Está quem é que fala desse lado
É quem está por si .. apaixonado!
Não me diga; toca o telefone no momento
Quero, quero
Que esse alguém me fale em casamento...
Espero, eu espero
Espero, eu espero
Espero, eu espero

Manuel Halpern
13:55 Quinta, 18 de Fevereiro de 2010

Amor e Pão Quente

O pequeno-almoço segundo Rosa Lobato Faria

No Jukebox revisitamos uma canção de Paulo Bragança com letra de Rosa Lobato Faria. Nunca um pequeno-almoço foi tão sensual

Um dia telefonei à Rosa Lobato Faria. Estava a preparar o meu livro sobre o Novo Fado, O Futuro da Saudade, e pretendia utilizar uma das suas muitas letras. No caso, Amor e Pão Quente, com música de Mário Pacheco, na voz de Paulo de Bragança (está no seu primeiro disco, Notas Sobre a Alma, 1992). A simpática senhora - sempre simpática e sempre senhora - respondeu prontamente que sim. Mas embaraçou-me com a pergunta: "Porquê essa?"
Na verdade, não tinha grande justificação para no universo extensíssimo de letras de canções escritas por Rosa Lobato Faria escolher aquela e não outra. Nem poderia dizer com segurança se aquela era a minha letra preferida da sua autoria.
O capítulo em causa era sobre Paulo Bragança e não sobre a letrista/actriz/escritora. E aquela letra servia bem para ilustrar o início da carreira discográfica do fadista, em que ainda não tinha feito opções radicais, que lhe valeram o cognome de fadista punk, mas já deixava adivinhar um certo grau de irreverência. E a letra ajudava.
Nunca o pequeno almoço continental tinha entrado no fado, ainda para mais com tal sensualidade. Todas as quadras aparecem divididas em duas partes que correspondem a dois estados de espírito. Nas duas primeiras estrofes a descrição do pequeno-almoço, nas duas últimas uma acepção sensual: "Espremeste as laranjas num jarro de vidro/ mais sumo há no beijo na boca esquecido". É um jogo muito inteligente entre texto e subtexto, que se vai intensificando, até ao êxtase: "Dispo-te a camisa sem ninguém saber/ faço amor contigo sem sair da mesa". Ao telefone, não lhe terei explicado isto tudo. Mas ela, seguramente, já o saberia.
A título de curiosidade recordo que Paulo Bragança e Rosa Lobato Faria estiveram juntos, anos mais tarde, em Tráfico, de João Botelho. Ele fazia de padre e cantava o Hino Nacional. Ela de dondoca e servia uma sardinhada temperada com cocaína. Hilariante.

 Amor e Pão Quente
(Letra de Rosa Lobato Faria)

Pousaste na mesa
o copo de leite
mais branca é a seda
da pele do teu peito

Vem um tabuleiro
com pão 'inda quente
melhor é o cheiro
do vão do teu ventre

Espremeste laranjas
num jarro de vidro
mais sumo há no beijo
na boca esquecido

Serviste torradas
compota de ameixas
mais doces, douradas
as tuas madeixas

Negro e fumegante
deitaste o café
é mais excitante
o nu do teu pé

Penso se te vejo
trincar um croissant
morder o teu seio
à luz da manhã

Com gestos de brisa
és linda de ver
a espalhar na casa
conforto e beleza

Dispo-te a camisa
sem ninguém saber
faço amor contigo
sem sair da mesa

 

Manuel Halpern
13:55 Quinta, 4 de Fevereiro de 2010
Rosa Lobato Faria
Rosa Lobato Faria
Victor Freitas

Meio Bicho e Fogo, d'O Governo (valter hugo mãe)

O escritor que canta com maiúsculas

Para nosso Governo, valter hugo mãe também sabe cantar. No Jukebox, ouvimos Meio Bicho e Fogo, o primeiro teledisco da sua banda

VALTER HUGO MÃE canta com todas as letras, sobretudo as maiúsculas, com a caixa (torácica) bem alta, uma surpresa para quem ouve e para quem o conhece. É que canta mesmo, à séria, apostando no esplendor da voz, quase num acto de vaidosismo, que contradiz a sua aparente timidez. Inscreve-se assim numa lista de escritores-cantores, onde também se incluem Jack Kerouac, William Bourroughs ou, aqui por Portugal, Jacinto Lucas Pires, para não falar no grande cantor-escritor Chico Buarque. Nesta linhagem valter hugo mãe (não sei se o cantor também se escreve assim, só com minúsculas, fica a dúvida) é dos melhores. A sua voz explode entre a música, lembrando a força expressiva de um Antony. A letra de Meio Bicho e Fogo é tão complexa como estranha e arrevesada, raríssima no pop português. Um labirinto de imagens, de mensagem difusa, porventura borgiano. A música de Miguel Pedro (Mão Morta/Mundo Cão) tem uma estrutura inteligente que favorece a voz, através da forma como prepara o clímax do refrão. walter hugo mãe não só é o escritor português de que toda a gente fala como é um cantar que vai dar que falar.

 

Meio-bicho e fogo

parte o navio para o labirinto,
sai o navio no fio vermelho,
vai ardendo na linha da água
e o combustível vem do temporal...
e a fuga do amor que vier?
não há fuga,
eu sou tão impuro!
e segue o navio para o labirinto,
para mim...
que tonto e difícil
o mítico corpo,
meio bicho e fogo,
minotauro bomba
prestes a rebentar, já segue morto...
o navio a afundar sob o temporal!
não há fuga do amor que vier!
não há fuga,
eu sou tão impuro!
e segue o navio para o labirinto,
para mim.
para o labirinto,
para o fim...

(nota: o teledisco é feito com desenhos de Esgar Acelerado)

 

Manuel Halpern
16:35 Segunda, 25 de Janeiro de 2010

Haiti, de Caetano Veloso e Gilberto Gil

O Haiti é aqui. O Haiti não é aqui

O Haiti é o país mais azarado do mundo. Nos anos 90 Caetano e Gil serviram-se de uma outra tragédia no estado das Caraíbas para falar da miséria Brasileira

Pense no Haiti, reze pelo Haiti. A canção parece vir mesmo a propósito da catástrofe ocorrida na ilha das Caraíbas, mas, na verdade, e de forma inteligentemente irónica, a música Caetano Veloso e Gilberto Gil, inserida no álbum Tropicália II fala do próprio Brasil. Na altura, nos anos 90, corria uma campanha de ajuda humanitária ao Haiti - aquele que é um dos mais azarados países do mundo tinha acabado de sofrer as consequência de um devastador furacão. Caetano e Gil quiseram chamar a atenção para o absurdo de estar a ajudar o Haiti perante a miséria que se vive/vivia no Brasil. Por isso cantam "O Haiti é aqui, o Haiti não é aqui". E o tema tem uma toada hip-hop que se ajusta ao tom de protesto.E uma música de intervenção.

A verdade é que perante o tremor de terra, o minuto maldito em que a terra quase engoliu um país, a miséria haitiana é incomparável. E toda a ajuda é bem vinda, seja do Brasil ou da Somália.

Não obstante, a letra tem alguns pontos que se aplicam a actual situação, que são precisamente aqueles que aproximam o Brasil da república das Caraíbas. É também isto que se vê aqui e ali: "De ladrões mulatos e outros quase brancos/ Tratados como pretos/ Só pra mostrar aos outros quase pretos/ (E são quase todos pretos)/ E aos quase brancos pobres como pretos/ Como é que pretos, pobres e mulatos/ E quase brancos quase pretos de tão pobres são tratados". Os mortos podem chegar aos 500 mil, mas o mais difícil é cuidar dos vivos, pois "pense no Haiti, reze pelo Haiti"

 

Letra de Haiti (Caetano Veloso e Gilberto Gil)

 

Quando você for convidado pra subir no adro

Da fundação casa de Jorge Amado

Pra ver do alto a fila de soldados, quase todos pretos

Dando porrada na nuca de malandros pretos

De ladrões mulatos e outros quase brancos

Tratados como pretos

Só pra mostrar aos outros quase pretos

(E são quase todos pretos)

E aos quase brancos pobres como pretos

Como é que pretos, pobres e mulatos

E quase brancos quase pretos de tão pobres são tratados

E não importa se os olhos do mundo inteiro

Possam estar por um momento voltados para o largo

Onde os escravos eram castigados

E hoje um batuque um batuque

Com a pureza de meninos uniformizados de escola secundária

Em dia de parada

E a grandeza épica de um povo em formação

Nos atrai, nos deslumbra e estimula

Não importa nada:

Nem o traço do sobrado

Nem a lente do fantástico,

Nem o disco de Paul Simon

Ninguém, ninguém é cidadão

Se você for a festa do pelô, e se você não for

Pense no Haiti, reze pelo Haiti

O Haiti é aqui

O Haiti não é aqui

E na TV se você vir um deputado em pânico mal dissimulado

Diante de qualquer, mas qualquer mesmo, qualquer, qualquer

Plano de educação que pareça fácil

Que pareça fácil e rápido

E vá representar uma ameaça de democratização

Do ensino do primeiro grau

E se esse mesmo deputado defender a adoção da pena capital

E o venerável cardeal disser que vê tanto espírito no feto

E nenhum no marginal

E se, ao furar o sinal, o velho sinal vermelho habitual

Notar um homem mijando na esquina da rua sobre um saco

Brilhante de lixo do Leblon

E quando ouvir o silêncio sorridente de São Paulo

Diante da chacina

111 presos indefesos, mas presos são quase todos pretos

Ou quase pretos, ou quase brancos quase pretos de tão pobres

E pobres são como podres e todos sabem como se tratam os pretos

E quando você for dar uma volta no Caribe

E quando for trepar sem camisinha

E apresentar sua participação inteligente no bloqueio a Cuba

Pense no Haiti, reze pelo Haiti

O Haiti é aqui

O Haiti não é aqui

 

Manuel Halpern
14:01 Quinta, 14 de Janeiro de 2010

JUKEBOX I u she, de Peaches

O mais importante é o amor

Raparigas que são rapazes que gostam que os rapazes sejam raparigas

O ritmo é frenético, a letra minimalista, assim como a melodia. Bem ao estilo de Peaches, diga-se. Um punk electrónico, aqui em forma de manifesto bissexual, bem a propósito da legalização do casamento gay em Portugal (revelámo-nos um país de vanguarda). O direito a não escolher coisa nenhuma, apelando ao limite da mente aberta. O tema da canadiana faz uma ligação directa a outra canção mais antiga, de um grupo que está quase nos seus antípodas, os Blur, quando a banda de Damon Albarn se lembrou de cantar: "Girls who are boys who like boys to be girls". Tudo para chegar a uma só conclusão, que é a mesmo que vem nos Salmos "O mais importante é o amor". 

 I, u She 

I, you, he together, come on, baby let's go

I, you, she together, come on, baby let's go

I don't have to make a choice, I Like boys and I like Girls 

 

Como vídeo a participação de Peaches na série Letra L, que passou na RTP2

Manuel Halpern
18:10 Sábado, 9 de Janeiro de 2010
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