O objectivo é muito claro: numa semana, percorrer 1000 quilómetros, de bicicleta, de Lisboa a Casablanca (Marrocos). Todos os dias leia, aqui, mais uma CRÓNICA deste aventureiro
Quantos dias tem uma semana? Sete ou oito dias? A pergunta fervilhava na minha cabeça, enquanto pedalava com os primeiros raios da manhã. Morad e eu tomámos o pequeno almoço numa cafetaria e pouco depois ele foi trabalhar e eu fiz-me à estrada, em direcção a Rabat. Era tudo muito plano, ao contrário do que estava à espera e pensei para comigo que seria bem possível fazer os 200 quilómetros que me faltavam para completar a minha viagem e pedalei, pedalei, tentando, psicologicamente, combater as longas rectas que tinha pela frente. Chegava a ser agonizante, mas quando via uma recta de quilómetros de extensão olhava o chão e ficava entregue aos meus pensamentos. Há várias pequenas povoações junto à estrada nacional e sempre que precisava de abastecer de líquidos não me era difícil de o fazer. Havia imensas pequenas mercearias, onde se vendia o essencial. Parei numa delas e pedi uma garrafa de água fresca. Morad havia me ensinado que ao contrario do que poderia parecer, nem toda a água era mineral. Muita da água, mesmo engarrafada, era água que tinha sido tratada e a que tinha sido adicionados produtos mineralizantes. A melhor água era a Atlas, que como o próprio nome indica vinha da cordilheira do Atlas e essa sim, era natural. Pedi também uma Sprite e na lata do refrigerante estava impresso o preço de três dirhams. O rapaz estava a pedir cinco e eu perguntei porquê.
- C´esta ma comission - respondeu, ao que eu recusei. Sabia que não ía mudar o modo de pensar de alguns dos marroquinos, mas não pactuaria com injustiças e, apesar de sedento, andei mais meia dúzia de quilómetros onde encontrei outra mercearia e aí sim, o miúdo, que não deveria ter mais de 14 anos, foi honesto e eu, em consciência ofereci-lhe uma gorjeta de 3 dirahms.
Cheguei a Rabat fazendo para mim um jogo que me ajudava psicologicamente. Corria em sprints para quebrar a monotonia, atingindo, em recta, não raras vezes, os 35 quilómetros hora, o que com uma bicicleta de BTT, embora remodelada e o peso do alforge, era muito bom, tanto mais que sentia a minha condição física a melhorar de dia para dia, depois do inferno que tinha sido atravessar o sul de Espanha. Em Rabat fui saudado por inúmeros automobilistas que apitavam e faziam gestos com o polegar como que a dizer força e mal chaguei à cidade dirigi-me de imediato à mesquita, local obrigatório de Rabat. Estava de passagem é certo, mas tinha de o fazer. Não se pode entrar com a bicicleta nas praças das mesquitas e o guarda a cavalo fez questão de me lembrar esse facto. Mas ainda assim, uma turista belga, num inglês irrepreensível, fotógrafa de profissão, mostrou-se interessada no propósito da minha viagem e tirou-me várias fotos, a que se juntaram um casal de turistas espanhóis e os filhos que me felicitaram pelo meu feito que estava prestes a ser atingido. Faltavam apenas noventa quilómetros e as minhas pernas ganharam asas. Pedalei como nunca pedalei em toda a minha vida e sentir o tempo passar descontraidamente. Se não houvesse nenhum azar de maior chegaria ao final da tarde a Casablanca, mas tinha de me despachar, pelo que não perdi muito tempo em Rabat.
Pouco depois de se sair do centro de Rabat, e junto à estrada nacional, estava aquilo que rapidamente presumi fosse a residência do rei de Marrocos. Toda ela murada e com jardins resplandecentes, guardada por militares, dava de caras para a estrada movimentada, enquanto alguns trabalhadores, debaixo de um forte calor, colocavam sumptuosos candeeiros ao longo de toda a extensão de quilómetros de um muro de cor rosa, com jardins cuidados, não dando para ver o seu interior, mas imagina-se que fosse algo fora de extraordinário. Tanta opulência contrastava com a maioria das condições degradantes em que vivia grande parte do povo marroquino, mas não havia muito a fazer, a não ser ter esperança que tudo pudesse mudar para melhor e não seria eu a ingerir-me nos assuntos internos daquele país tão fustigado pelas sucessivas ocupações estrangeiras, portuguesas incluídas.
Já tinha de saído de Rabat há uma hora quando senti que precisava de comer alguma coisa. O contra-relógio que estava a fazer poderia ficar hipotecado se não me alimentasse convenientemente, pelo que parei no caminho para comprar um melão. Havia dezenas de locais onde o poderia fazer, ao longo da estrada, mas aleatoriamente parei junto a um homem que tinha oito melões para vender enquanto os outros tinham dezenas. Era uma forma de ajudar aquele pobre homem, pensei enquanto travava com o meu único travão, o da frente, depois de, em Sevilha, ter desmontado o travão de disco da roda traseira. E funcionava na perfeição, apesar da chiadeira que por vezes fazia. Parei mesmo a tempo de não esbarrar com os melões e pedi o mais pequeno que tivesse. Eram de cor amarelada e o homem, que não sabia falar francês, não parecia perceber que eu estava a perguntar quanto custava, porque apesar de lhe mostrar o dinheiro ele insistia em pôr o melão nas minhas mãos. Nisto chega um rapaz de moto e ajuda-me na tradução e é então que eu percebo toda a situação. Ó homem estava a oferecer-me o melão e não queria nada por ele. Pensei para comigo até que ponto pode chegar a generosidade humana para pessoas como aquele velho homem que me estava a dar um oitavo daquilo que tinha para vender naquela recta imensa. Agradeci, e senti-me na obrigação moral de descer da bicicleta e partilhar com aquela gente o melão que me haviam dado. E foi então que chegaram mais dois homens, vindos do nada e ali ficámos os quatro, eu a servir fatias de melão aquela gente e a banquetear-me também com aquela fruta deliciosa. Mas tinha de ir e despedi-me daquela gente cerrando o punho junto ao coração em sinal de agradecimento sincero.
- Bonne chance - gritou um deles enquanto voltava ao negro da estrada que cortava as culturas que ocupavam planícies imensas.
E de repente quase tudo a perder
Sabia que só algo muito grave me impediria de chegar a Casablanca naquele sábado, sete dias depois de ter saído de Lisboa e de várias vezes, ao longo da viagem, ter posto em causa toda aquela aventura. Tinha feito um sacrifício enorme, mas tinha sobretudo me fortalecido física e psicologicamente, quando as forças pareciam escassear e estava à beira de conseguir um objectivo difícil de alcançar, tenho de o reconhecer. Eram estes os pensamentos que ocupavam a minha cabeça, quando a pouco menos de trinta quilómetros de Casablanca, algo estava prestes a acontecer que poderia ter custado toda a viagem. Um miúdo que não deveria ter mais de dez anos de idade, passeava uma ovelhas e mal me viu, saiu a correr na minha direcção. Tentou agarrar o alforge e trazia consigo um pau que presumi quisesse colocar entre os raios da roda e travar assim o meu andamento. Mal me apercebi afastei-me, guinando para o meio da estrada evitando assim o contacto, mas por pouco que não era colhido por um carro que buzinou e o condutor não parava de gritar em árabe, enquanto que o pequeno pastor não desistia da perseguição. Senti por momentos que a viagem poderia acabar mal e segui tentando me manter calmo. Até Casablanca já não faltava muito e quando dou por mim estava no centro da cidade fundada pelos portugueses em 1515, há quase quinhentos anos. A velha medina lá estava, sinalizando o centro de toda a vida da cidade e parei para apreciar aquele momento.
Eram 18:45 horas e o GPS marcava um total de 1030 quilómetros. Estava feliz por ter conseguido atingir o meu objectivo e no meio da multidão que se afunilava para o interior da medina, tirei umas fotos para a posteridade e recordei os momentos que haveriam de me enriquecer como pessoa e que eram, esses sim, os objectivos desta viagem. As pernas estavam duras do esforço de 200 quilómetros de uma longa etapa e sinceramente não sabia como o tinha conseguido em sete dias ligar Lisboa a Casablanca. Parecia estar num mundo à parte, e saboreava, sentado na bicicleta, todo suado, dorido das costas, das palmas das mãos, pela pressão constante contra o guiador e com os músculos esfrangalhados um momento irrepetível.
Alberto, em Tânger, tinha me lido o pensamento e como ninguém percebeu o que eu sentia por dentro. Recordava então as palavras que o meu amigo me tinha confessado no bar do hotel Minzah:
- Esta é uma viagem para que o teu filho um dia se possa orgulhar de ti, José - e era verdade. Mas muito além do orgulho gostaria de lhe poder ensinar que para ser respeitado há que respeitar os outros, independentemente da sua raça ou credo, mostrar compaixão, ser justo e generoso. Ensinar-lhe que por detrás do esforço de uma subida, há sempre a recompensa do descanso de uma descida e não desistir à mínima dificuldade. Esta viagem tinha muito de isso.
Não o queria admitir mas psicologicamente sentia uma descarga emocional e pus a cabeça junto ao guiador, satisfeito pelo meu objectivo pessoal ter sido atingido, mas ao mesmo tempo revoltado por ter visto tanta miséria humana, num país com uma quantidade enorme de recursos naturais, como são os casos da terra e do mar, mas, na maioria das situações, sem o acesso básico às mais elementares condições como sejam a saúde, educação ou à habitação condigna. Por isso tinha esperança que dentro de vinte anos tudo estivesse melhor, para bem de um país que tanto o merece.
Recordava a generosidade de pessoas como Alberto, Nuno, o frade franciscano, Mustafá, Morad, o vendedor de melões ou dos dois "Juans" que me haviam ajudado em Sevilha. Para Portugal iam os meus pensamentos para todos os que haviam acreditado em mim, em particular ao Pedro Nunes, da Visão, aos meus amigos e à minha família, que sempre estiveram do meu lado. Comprei um cartão telefónico e de uma cabine pública liguei para cada um deles, depois de me ter instalado no hotel Excelsior e de ter tomado um banho retemperador. O meu irmão estava orgulhoso e tinha deixado aberta no móvel do hall de entrada de minha casa, a Revista Visão, na página em que haviam feito uma reportagem sobre mim, e que ainda não tinha tido oportunidade de ver, à espera do meu regresso a Portugal. Estava esgotado mas feliz e isso superava tudo o resto. Obrigado por estas férias inesquecíveis.
O importante não é a vida... é o que se faz da vida.
O objectivo é muito claro: numa semana, percorrer 1000 quilómetros, de bicicleta, de Lisboa a Casablanca (Marrocos). Todos os dias leia, aqui, mais uma CRÓNICA deste aventureiro
Acordei eram umas nove da manhã e depois de ajeitar a bandeira de Marrocos na haste de fibra de vidro onde trazia a também a bandeira de Portugal e de um duche rápido, desci à recepção do hotel onde paguei os 100 euros por cinco horas de sono e fui até à garagem para preparar o alforge, que segurei ao suporte da garagem, com a bicicleta quase a cair sobre o segurança que não parava de olhar para os meus gestos de amarração.
- Shockram - disse para o guarda, o que quer dizer obrigado em árabe, mas o homem não saía da minha frente.
- Monsieur... argent pour le guardian - e fez o gesto de dinheiro roçando ao de leve o indicado com o polegar.
- Pas de argent, pas de biciclete - ameaçou, pelo que tive de puxar da carteira e pagar 20 dirahms para poder sair dali.
Nunca me tinha agradado a hipocrisia destes lugares chamados de chiques, onde a simpatia se compra a troco de gorjetas mais ou menos avultadas mas não era caso único em Marrocos. Agora esbarrem-me a saída por falta de um suposto imposto gorjeteiro é que nunca me tinha acontecido antes, tanto mais que quando deixei a bicicleta também deixei uma gorjeta ao segurança. Bem... tinha mais com que me preocupar e decidi ir ter com Alberto e Mustafá com quem tinha combinado me encontrar no coração de velha medina.
Mal me viu chegar, Alberto abriu os braços e gritou ao longe:
- José... hombre.
Sentei-me e lá contei em "portunhol", a minha aventura da noite anterior e percebi na cara de Alberto uma desilusão imensa.
- La policia no es la solution - rematou, entre gestos que cruzava com um árabe para mim imperceptível, traduzindo assim, para quem connosco estava, as peripécias da noite anterior.
Estava na hora de seguir viagem e despedi-me de Alberto e de Mustafá. Era já quase meio-dia e ainda queria ir almoçar a Assilah. Alberto abraçou-me e disse-me, em espanhol, uma coisa que guardarei para sempre:
- Para conhecer um amigo é preciso uma hora, um dia para o admirar e uma vida inteira para o esquecer. Vai José. Que Deus te acompanhe.
E fui, tomando a direcção da Nacional que indicava Rabat, a capital daquele país que apesar de ser conhecido por ser o mais europeu dos países africanos, ainda assim deixava margens para o deslumbramento que queria levar dali. E fui. Mas há sempre um choque cultural, inevitável, e ao pedalar em direcção a Assilah olhava para os bairros pobres por onde passava, à medida que ía saindo da malha urbana de Tânger. O lixo estava por toda a parte e o cheiro, intensificado pelo calor, fazia-me estranheza. A dada altura, a cerca de 20 quilómetros de Assilah e com as praias por cenário de fundo, a par do lixo que era despejado à beira da estrada sem mais nem menos, fiquei horrorizado com o adiantado estado de decomposição de um cavalo que estava na berma da estrada, rodeado de dois cães que se alimentavam dos seus restos. O cheiro era irrespirável e tive de fazer um esforço para não vomitar o pequeno-almoço. Pedalei mais forte, perante o ladrar de ameaça de um dos cães, mas também porque aquela era uma cena surreal para mim. Bom... cheguei finalmente a Assilah. A marginal à praia, decorada com palmeiras e bandeiras de vários países, estava cortada ao tr
trânsito automóvel e o segurança lá me abriu passagem, ao mesmo tempo que, olhando para a bandeira que trazia, acabou por dizer as palavras mágicas de que estava há espera à muito tempo:
- Portugal... ohhh Cristiano Ronaldo - e acrescentou - je ne aime pas Cristiano Ronaldo. Sorri e em português respondi:
- Deves ser guarda-redes para não gostar do Cristiano Ronaldo.
Duzentos metros depois estava às portas da fortaleza portuguesa que havia sido construída no século XVI e onde tudo acontecia em Assilah. No interior as casas eram de um branco cal e mais parecia estarmos numa qualquer aldeia alentejana. Sem dúvida que parecia um bocadinho de Portugal e foi às portas desse legado histórico dos portugueses que almocei uma farta bandeja de peixe frito, acompanhada de dois litros de sumo de maça.
Após o almoço nem dei tempo para fazer a digestão e continuei estrada fora olhando os inúmeros vendedores ambulantes que montavam as suas tendas, improvisadas com paus e cobertura de colmo. Vendiam sobretudo melões, melancias e cebolas, na esperança de que algum transeunte captasse a sua atenção, até pela forma cuidada como dispunham os produtos. Entrei na província de Kenitra e ainda lá estava o edifício da fronteira, que tinha sido deixada como marco da história recente de Marrocos e que marcava a separação entre o domínio francês, a sul e o espanhol, a norte, de que apenas resta hoje a cidade de Ceuta, de que os espanhóis não abdicam por nada. Se o fizessem, podia ser um efeito dominó para outras regiões que reclamam a independência de Espanha e por isso Ceuta, apesar de estar em África, era uma questão política muito sensível.
Política à parte, a província de Kenitra é conhecida pelas suas terras férteis e de fácil acesso, como pude comprovar pelas extensas planícies que atravessa a um ritmo cada vez mais forte. Para ser sincero julgava que iria ser mais difícil, mas como o meu amigo Jorge me tinha dito em Portugal, depois de passar o mais difícil, iria me sentir mais forte e era um facto. E a principal estrada nacional de Marrocos até estava em boas condições e o topografia não apresentava desafios de maior, apesar da ameaça, ao longe, das montanhas. O maior desafio era mesmo o trânsito e os marroquinos não estão, seguramente, entre os mais prudentes condutores do mundo. A par da condução há que acrescentar o facto do parque automóvel estar muito degradado e os acidentes eram inevitáveis, como pude constatar várias vezes, depois de ter saído de Assilah. Já estava a pedalar há 8 horas e o sol há muito que tinha dado lugar à noite e, prevenido com luzes de emergência, pedalei o mais que pude. Decidi parar em Souk Larbaa e procurar um local para dormir, de preferência sem baratas. Algo me dizia para me dirigir aquele homem, que não devia ter mais de trinta anos e que se passeava pelas ruas de forma descontraída.
- Vous parlez français? - perguntei, ao que Mourad, com um sorriso, responde:
- Français, español, árabe, aleman.
Perguntei-lhe onde poderia encontrar um sítio onde dormir e Mourad responde em espanhol perfeito que passo a traduzir:
- Há aqui um hotel, mas podes ficar em minha casa - o convite era no mínimo inesperado e Morad percebendo a minha desconfiança, acrescenta:
- Não te preocupes... em Marrocos é algo normal. Eu sou Morad. Muito prazer.
Não sei porquê decidi aceitar o convite. Morad explicou-me então que a família tinha saído para Casablanca nesse mesmo dia e que até calhava bem, porque assim tinha companhia com quem conversar, especialmente o espanhol, pois há já alguns anos que não voltava a Espanha, onde tinha tirado um mestrado em agricultura, na região de Almeria. Morad mostrou-me as fotos dos amigos que deixou na pizzaria onde trabalhou para pagar o curso e sentia-se uma nostalgia naquele homem que com trinta anos se tinha casado há apenas seis meses, mostrando-me, orgulhoso, as fotos do seu casamento, todo ele com pompa e circunstância, à boa maneira árabe.
Morad trabalhava para uma firma espanhola, como supervisor numa quinta ali próximo, tendo a seu cargo cerca de 120 pessoas, na sua maioria mulheres, com quem articulava o trabalho duro que começava cedo, por volta das seis e meia da manhã.
- Aqui é complicado motivar as pessoas pois ganham muito pouco, cerca de cinco euros por dia, enquanto que em Espanha ganham dez vezes mais - explicou Morad, um caso de excepção num país onde a mão de obra não é qualificada, fruto da enorme taxa de analfabetização da população.
Perante tanta hospitalidade a única coisa que poderia fazer era mesmo oferecer o jantar a Morad, ao que este aceitou, convidando também Youness, um amigo e colega de trabalho que se juntou a nós num restaurante ali perto, onde jantámos galinha assada com batatas fritas. Tudo, para os três, ficou em cerca de oitenta dirahms (cerca de oito euros) - por isso - barato, mas Morat logo me avisou que nos centros turísticos os preços facilmente disparam. Saímos os três do restaurante e caminhamos um pouco, aproveitando eu para experimentar o sabor dos zebures, um fruto muito rico em vitaminas, doce e suculento que nasce em cactos de uma determinada espécie, que tinha tido oportunidade de ver um pouco por toda a parte e mesmo no sul de Espanha.
Tinha feita cerca de 165 quilómetros, o que não estava mal, se tivermos em conta que apenas pedalei de tarde e parte da noite e ainda parei em Assilah. Cansado demais para fazer o que quer que fosse, deixei-me adormecer no colchão improvisado que Morad tão generosamente me tinha arranjado na sua casa. O meu amigo iria se levantar bem cedo, cerca de cinco e meia da manhã, o que era óptimo, pois isso dar-me-ia tempo para tentar a ligação a Casablanca. Estava agora a 200 quilómetros do meu destino final.
O objectivo é muito claro: numa semana, percorrer 1000 quilómetros, de bicicleta, de Lisboa a Casablanca (Marrocos). Todos os dias leia, aqui, mais uma CRÓNICA deste aventureiro
Conheci Albertico, ou Alberto para os amigos, quando estava no porto de Tarifa, a aguardar autorização para embarcar no ferry de ligação a Tânger. Alberto vinha na sua bicicleta eléctrica, com um ar de hippy dos anos sessenta, a quem não faltavam os óculos de armação de arame, um chapéu que lhe cobria os cabelos brancos, a barba por desfazer e um olhar de quem olha o mundo com um sorriso de desdém. Alberto é director artístico em Marbelha, mas os seus pais são de origem marroquina, pelo que quando lhe apetecia, vinha para Tânger rever amigos e saborear "las cosas genuinas", como me disse com a espontaneidade sincera de quem vive a vida a tempo inteiro. Alberto era um bon vivant e há muito que se tinha revoltado contra aquilo que considerava ser a podridão de Marbelha e aproveitava as frequentes viagens ao Norte de África para rever pessoas que não via há muito tempo, mas também para negócios, como era o caso desta vez, em que iria propor ao responsável da cultura do reino de Marrocos um Festival Internacional de Jazz.
- Portugal? - perguntou-me ao olhar a bandeira que trazia na bicicleta
- Sim, Portugal - respondi estendendo a mão a Alberto que logo puxou de um cartão de visita e se apresentou. Curioso, quis saber o propósito da minha viagem e depois de uma conversa que não demorou mais que dez minutos, Alberto, fez questão de me dar a conhecer Tânger. Aceitei o desafio, que por sinal vinha mesmo a calhar. Assim que desembarcámos seguiu-o até onde a polícia aduaneira inspeccionava quem chegava.
O polícia olhou-me de alto a baixo, sempre com um sorriso, enquanto Alberto, em árabe, ia conversando com ele.
- Anithing declare? Drugs, pum-pum? - perguntou-me o polícia, num inglês que apesar de cómico, deu bem para entender. Sorri e disse que o mais perigoso que trazia era um canivete suíço. Alberto tratou da tradução em árabe e os três ficámos a rir uns dos outros sem sabermos muito bem a razão. Segui Alberto e poucos metros depois de deixarmos a alfândega, Alberto acelerava pelas ruas da antiga medina, serpenteando por entre os inúmeros transeuntes, num verdadeiro caos. As ruas, estreitas e íngremes, obrigaram-me a um esforço suplementar para seguir a bicicleta eléctrica de Alberto, que não parava de apitar a buzina e a dizer algo em árabe que suponho fosse "cuidado" ou algo parecido. Chegamos a uma espécie de cruzamento e o ambiente parecia-me saído de um filme de Ali Babá. Só então pude descansar e apreciar a entrada numa nova cultura. Havia imensa gente de djelaba, o traje típico marroquino, uma espécie de túnica, usada tanto por homens e mulheres, mas também pessoas que usavam roupas convencionais para os hábitos ocidentais, com jeans e camisolas de cubes de futebol europeus. Vivia-se uma atmosfera inebriante, com lojas por toda a parte e a música dos vendedores de compact-discs. Ao contrário do que estava à espera, ninguém veio tentar me impingir o que quer que fosse e o que me foi dirigido naqueles breves minutos em terras marroquinas foram alguns bravos e a simpatia universalmente aceite pela linguagem universal. Alberto apeia-se da sua bicicleta e acena-me para eu o seguir, enquanto ainda estava a tentar digerir a minha entrada naquele novo mundo. Segui-o, através daquela torrente de gente e não andámos mais que vinte metros, até que Alberto bate a uma porta de madeira. Um frade franciscano vem ao nosso encontro e Alberto é recebido efusivamente, sendo logo convidado a entrar.
- Tambien es portugues - disse Alberto apresentando-me a Nuno, um frade português que estava em Tânger ía para mais de dois anos, naquela que viria a saber pouco tempo mais tarde, se tratar da Casa Nazareth, dos Irmãos Franciscanos da Cruz Branca. Alberto já se tinha enfaixado para o interior do edifício enquanto estava à conversa com Nuno. Criou-se uma empatia automática e natural entre nós dois e não pude deixar de admirar a coragem e a fé daquele frade franciscano, que paredes meias com uma mesquita, zelava pelo bem-estar dos mais desprotegidos, entre os quais se encontravam doze jovens marroquinos com deficiência mental profunda, em regime interno e que encontravam naquela casa o conforto e o carinho, próprios da dignidade do ser humano, pese embora as suas diferenças. Senti-me pequeno perante a grandeza da obra que estava perante os meus olhos e entrei na sala onde os jovens me saudavam enquanto viam televisão. Senti um aperto no coração e tive de fazer um esforço para conter as lágrimas, disfarçando com sorrisos sinceros e com uma sessão de fotografia em que todos posámos para a câmara com uma alegria contagiante.
Chamei Nuno à parte e remexi na minha bagagem oferecendo as barras energéticas que trazia comigo. Era o mínimo que podia fazer. Fiquei com apenas três barras para alguma emergência, mas achei que havia quem precisasse mais que eu.
Foi-me então explicado que para além daqueles jovens com deficiência profunda, a instituição tinha ainda um posto médico, uma lavandaria, chuveiros, refeitório, tudo para acudir às necessidades básicas de muitos jovens daquele bairro tão carente de tudo e onde os turistas faziam passagem obrigatória, desconhecedores da dura realidade que se escondia nos becos e vielas de onde emanava um cheiro estranho. Era o cheiro do lixo, que apesar dos esforços de funcionários pouco motivados pelo mísero salário que auferiam, se amontoava a olhos vistos, sem que houvesse contentores do lixo (pelo menos não vi nenhum). Recordava agora as palavras dos ciclistas espanhóis que havia encontrado no Cais do Sodré, e que me avisaram que a minha primeira impressão seria algo estranha assim que visse o lixo nas ruas.
Mas a Casa Nazareth era, no seu interior, limpa e asseada e inserida no bairro mais carismática da antiga medina, dava conta das necessidades de tantos jovens que andavam nas ruas aos Deus dará sem nada fazer, sem perspectivas de vida, que não fosse deixar passar o tempo. De resto, tinha reparado no pormenor, antes de subir as ruas da medina, que havia jovens que olhavam o mar fixamente, empoleirados nas escadarias.
- Estão esperando um barco ou um camião para poderem fugir para a Europa - explicou-me Alberto, que com o olhar resignado, pareceu não querer adiantar mais nada. Mais tarde vim a saber que havia muitas mortes nessas tentativas desesperadas de dar a volta à vida. Jovens que se escondiam por baixo dos camiões e morriam esmagados, ou que subiam clandestinamente aos barcos e que desapareciam para sempre.
Estava na hora de deixar a Casa Nazareth, o Nuno e o seu superior e avançar atrás do meu guia improvisado. Alberto tinha um bom coração. Tinha por Marrocos a esperança mas sobretudo o orgulho de um país que lhe corria nas veias.
- Yo soy marroquino - disse Alberto, num tom autoritário, enquanto é rodeado de abraços e beijos pelo grupo de homens que se sentavam na esplanada improvisada do café. Estacionei a bicicleta e todos me cumprimentaram com um forte aperto de mão. Recordo particularmente Mustafá, que de barbas pretas se sentava na esquina a vender cigarros avulso a quem passava. Era uma figura já conhecida de todos e fez-me sentar na cadeira a mim e ao Alberto, enquanto mandava vir chá de menta para ambos
- Gent genuine - disse, em francês, Alberto, olhando nos olhos de Mustafá, que se desdobra num sorriso enorme, derrotado pela cárie.
- Vamos Jose. Te levo a comer - diz Alberto, depois de se inteirar das novidades dos seus amigos.
- Las biciletas, Alberto? - perguntei algo surpreso, com receio que as pudessem roubar, tanto mais que eu trazia bagagem. Mustafá percebendo os meus medos, acercou-se de mim e tocando-me levemente nas costas, disse:
- José... pas problem - e Alberto, descontraidamente, leva-me rua abaixo, dizendo baixinho:
- No tengas problema Jose. Se algiene toca en las bicicletas ellos lo matan - bem... com uma resposta destas não sabia se havia de ficar mais descansado ou não, pois a minha bicicleta não parava de atrair atenções. Mas segui os passos de Alberto, confiando naquele homem, que apesar das minhas reticências iniciais, me inspirava confiança.
Entrámos num restaurante, que ficava meia dúzia de metros afastado da Casa Nazareth e Alberto pediu uma sopa marroquina de nome hrira, acompanhada de pão, que iria perceber, era alimento quase obrigatório. Alberto explicou-me então que em Marrocos, a maioria da população passava grandes dificuldades, é certo, mas nunca passava fome. E a razão era simples. Os alimentos básicos, como o pão ou o leite, eram baratos, por imposição do próprio governo, que assim se defendia das manifestações daqueles que procuravam o essencial para viver. Um pão enorme não custava mais de vinte cêntimos, algo impensável na Europa e o peixe era quase dado, quando não era mesmo dado e não estou a exagerar.
Voltámos ao centro de medina histórica e as bicicletas lá estavam... intocáveis. Mustafá olhou-me com um sorriso e disse-me:
- Voilá... tranquille - respondi com um sorriso que dizia tudo. Mustafá percebeu e despedimo-nos enquanto Alberto me convidava para conhecer um dos mais luxuosos hotéis de Tànger: o Minzah. Deixámos as bicicletas na garagem do hotel, vigiadas pelo "guardian" de serviço (em Marrocos há seguranças em todo o lado). Alberto dirigiu-se ao bar do hotel e não me restou outra alternativa senão segui-lo, apesar do meu embaraço por estar vestido com o meu equipamento de ciclista, mas ninguém se pareceu importar com isso. Alberto era conhecedor daquela gente e daqueles lugares e como dominava o árabe na perfeição, as portas abriam-se como que por magia. No bar do hotel, um pianista fazia as honras da casa e não pude deixar de admirar os tectos, soberbamente decorados com motivos árabes. Ao lado, um imenso páteo, rodeado pelas paredes altas do edifício do início do século vinte, de traça original britânica, mas entretanto remodelado com o estilo e o gosto marroquinos, com influências iraquianas à mistura. Mas o resultado era relaxante e digno de um hotel de luxo.
Para surpresa minha, dos funcionários do hotel e dos poucos clientes que se mantinham aquela hora tardia, Alberto desafia o pianista e agarrando no microfone começa a cantar canções em francês, que remontavam ao tempo da Belle Époque e que traziam um ar de serenidade aquela atmosfera já de si acalmante.
Tinha-se passado uma hora e peço a Alberto se podíamos ir embora, pois começava a sentir-me cansado do esforço da etapa que havia terminado horas antes, mas o meu amigo não se queria ir deitar antes de visitar uns amigos franceses que tinham um restaurante em Tânger. E lá fomos, por entre sentidos proibidos e trânsito contrário, já sem o frenesim de gente que tinham rumado a suas casas. Passámos por uma rua escura e não pude deixar de ficar chocado com o cheiro nauseando de uma verdadeira lixeira que se amontoava num dos becos. Uma centena de metros depois, o cenário muda por completo e entramos na área reservada de um restaurante de luxo, onde nos demorámos umas duas horas numa conversa dominada por Alberto e por Remi, o jovem proprietário, que lembravam, entre outras coisas, da vida que Remi tinha deixado para trás em Marbelha, desapontado com a violência e a podridão de valores que se instalara naquela que fora em tempos a princesa da moda do turismo europeu. Foi Alberto quem convenceu o amigo, há uns sete anos, a tentar a sorte em Tânger e Remi dava-se por muito satisfeito pela decisão, pelo que parecia ter uma espécie de dever de gratidão para com Alberto.
Despedimo-nos de Remi e da sua irmã e a vida parecia estar suspensa nas ruas da antiga medina. A animação tinha-se transferido para a marginal marítima de Tânger, onde abundavam as discotecas e onde os jovens davam asas aos seus excessos, acelerando perigosamente, perante o ar de completa passividade da polícia, cuja presença era bem visível em vários pontos da extensa avenida.
Hotel, baratas e polícia
Procurávamos agora um hotel, deviam ser umas três da manhã, mas não se afigurava tarefa fácil, pois a resposta era sempre a mesma: Esgotado. Num hotel de quatro estrelas pediram 120 mil dirahms (o equivalente a cerca de 120 euros) por uma pessoa e decidimos tentar a sorte nos hotéis com ar de pensão da velha medina.
Já começava a ser difícil contrariar o sono e já estava por tudo. Com a bateria da bicicleta eléctrica de Alberto nas últimas e com o meu cansaço a acumular-se, lá fomos de novo pelo caminho que já conhecia de cor. Chegámos de novo à rua da Casa Nazareth e batemos à porta do "hotel" Mamofa. Digo "hotel" entre aspas porque até a mais modesta pensão da Rua da Boavista teria melhor aspecto, mas o rapaz que nos atendeu assegurou-nos que era um "hotel asseado". Pediu cerca de vinte e cinco euros por cada pessoa e entrámos no hall. Afinal o interior não parecia assim tão mal e depois de deixarmos as bicicletas em plena sala de estar, subimos com a bagagem. Despedi-me de Alberto, combinando tomarmos o pequeno-almoço, por volta das 10 horas, no café onde Mustafá costumava fazer o seu ponto de venda de cigarros avulsos Marlboro, os mais apetecidos por aquelas bandas.
Mas entrei no quarto fiquei com uma sensação estranha. A casa de banho era tudo menos limpa e as cortinas estavam meio caídas, mostrando, de forma visível, a varanda do prédio vizinho, a que se podia chegar com um simples salto. A minha primeira preocupação foi ver os lençóis e mal puxei a cobertura da cama para trás fiquei algo apreensivo. Aquilo não era de um branco limpo e tinha sérias dúvidas que tivesses sido lavados desde a última vez que alguém tinha estado ali hospedado. Decidi então que iria dormir sobre a minha toalha, que haveria de estender sobre a cama.
- Se calhar estou a ser muito exigente - pensei para comigo mesmo, ao mesmo tempo que me preparava para lavar os dentes antes de tentar dormir naquele quarto. Mas como era só para dar descanso ao corpo, não haveria de ser nada - pensei, tentando me acalmar a mim próprio. Lavei os dentes, ainda a tentar me habituar à ideia de que seria apenas uma noite de sono e quando regresso ao quarto, eis que fico boquiaberto, quase sem reacção. No chão tinha agora dezenas de enormes insectos que rastejavam em todas as direcções, cada um com cerca de três a quatro centímetros. De imediato abri a porta e arranhando o francês pedi ao moço da recepção para me acompanhar ao quarto. Esboçou um sorriso de "chico esperto" tentando se fazer de despercebido.
- Si vous pleau - insisti, indicando a escada por onde seguimos em silêncio, com o jovem a adivinhar o que o esperava. Abri a porta do quarto e ainda eram mais as enormes baratas, ou lá o que era aquilo. O rapaz, lançou um ahhh com um sorriso matreiro e começou a calcar os insectos, esborrachando-os literalmente.
- Ah o tanas! - disse em bom português, para que não me percebesse mesmo e agarrando nas minhas coisas deixei o quarto num ápice. Nunca tinha visto nada daquilo em toda a minha vida e estava visivelmente incomodado. Esperei o rapaz na recepção enquanto montava o alforge na bicicleta, para sair dali o mais depressa possível.
- C´est pas possible - quase gritei, irado pela situação. Pedi o passaporte e ainda bem, que, por sorte, não tinha ainda pago, senão não sei o que seria. Pedi também o livro de reclamações, que estava em cima da mesa da recepção, mas o rapaz ficou simplesmente parado atrás do balcão dizendo que eu não tinha o direito de escrever no livro de reclamações e depois ele também não sabia dele. Já não estava com paciência para esgravatar no meu francês enferrujado e apontei para o livro, enquanto dizia na minha língua materna.
- Oh pá... O livro de reclamações é esse aí ou tás a fazer de mim parvo? - O rapaz puxou de uma folha simples e eu percebi que não valia a pena e antes que a coisa azedasse era melhor terminar por ali. Peguei na bicicleta e achei que em consciência deveria ir à polícia fazer queixa da situação, mais que não fosse para que não se ficasse a rir ao negar-me a um direito que tinha de expressar, de forma civilizada, o meu descontentamento para com a situação criada e para que, em último caso, se tomassem providências no sentido de o "hotel" Mamofa tivesse mais cuidado com a higiene e salubridade das suas instalações.
A ideia era boa, só que eu não esperava esbarrar com a irresponsabilidade de dois dos polícias de Tânger, que na esquadra local se riam enquanto tentava explicar o sucedido.
- Tu est en Africa - disse, a certa altura, um deles, perante a minha cara de espanto, pois para mim, um africano tinha a mesma dignidade de um europeu e nem uma queixa por escrito quiseram receber. Percebi que o melhor era mesmo ir embora e procurar um hotel minimamente decente, pois a polícia não era uma grande ajuda para a minha intenção de reclamar às autoridades para a falta de higiene de uma casa situada no centro histórico de Tânger que se intitulava "hotel". Hotel um ova. E fui, descendo as ruas, às quatro da manhã. Acabei por ficar no Ramada, um hotel de quatro estrelas e depois de acertarmos o valor, eis que, depois do check-in, sou informado que o preço não incluía pequeno-almoço. Bem... só me faltava mais esta. Mas estava cansado demais para regatear e depois de deixar a bicicleta na garagem do hotel, subi ao quatro, resignado e entristecido porque as minhas primeiras horas em Marrocos, tinham sido um misto de deslumbramento e desilusão. Subi ao quarto, e da varanda olhei a enorme avenida, vizinha da praia da Tânger e não deixei de admirar toda a azáfama que por ali se vivia como se fosse dia. Adormeci, cansado, não sem antes vigiar por baixo da cama e inspeccionar muito bem a casa de banho.
O objectivo é muito claro: numa semana, percorrer 1000 quilómetros, de bicicleta, de Lisboa a Casablanca (Marrocos). Todos os dias leia, aqui, mais uma CRÓNICA deste aventureiro
Acordei cedo e tomei um pequeno almoço refrescante bem em frente à imponente Catedral de Sevilha, com o desfilar de turistas, de máquinas em punho e olhos no ar, olhavam, maravilhados, a grandeza daquele monumento histórico que concentrava todas as atenções.
Antes de sair de Sevilha tinha de procurar a oficina do Mateo, que ficava algures na Carretera de Carmona. Para além das mudanças estarem a saltar de vez em quando, também o eixo da roda traseira dava sinais de partir a todo o instante e depois de procurar uma boa meia hora, sob um sol escaldante, lá dei com a loja de bicicletas, onde se encontravam pessoas com o mesmo gosto pelo ciclismo, para simplesmente conversarem. Mudaram-me o eixo da roda, reviram-me as mudanças e segui caminho por uma das inúmeras ciclovias, em direcção à saída da cidade, não sem antes me ter abastecido de provisões num hipermercado local. Fruta, água e sumos faziam parte da minha lista de compras, mas depois de carregar tudo e de ter feito um par de quilómetros, resolvi-me a tomar medidas drásticas para resolver aquele irritante barulho que vinha da roda traseira. Sabia que os travões de disco não eram uma boa ideia para este tipo de viagens longas e a prova aí estava, Com a praça de touros de Sevilha por cenário de fundo, retirei toda a bagagem, virei a bicicleta de rodas para o ar e simplesmente removi o disco de travagem da roda traseira.
Quarenta minutos depois e já com o relógio a apontar para as três da tarde, tomei a direcção de Dos Hermanas mas rapidamente percebi que algo de errado se passava pois estava a afastar-me da minha rota em direcção à Nacional IV. Valeu-me a ajuda de um outro Juan, que ao volante da sua velha furgão, fez questão me tirar daquele labirinto de ruas. Seguiu-o com um pedalada forte e depois de uns cinco minutos a tomar a direcção Cadiz, finalmente estava em condições de tomar a direcção certa.
Juan saiu da sua carrinha e de mapa em punho foi-me mostrando por onde deveria ir mas já não tinha nada que enganar.
- Me gusta de Portugal - disse por fim, inesperadamente, apontando para a t-shirt de um azul escuro que trazia vestida, onde estava inscrito, num tamanho pequeno, "Fogos Florestais de Viseu 2003". Juan explicou-me então que tinha sido piloto de aviões de combate aos incêndios e lembrava o Verão de 2003 como tendo sido um ano de muito trabalho em Portugal.
Despedi-me com um sorriso e da parte de Juan ainda ouvi ao longe o grito de "Suerte hombre" e mantive-me alinhado por aquela estrada que começou, pelos primeiros 30 quilometros, por passar por extensas culturas de planícies imensas, a perder de vista, cuidadosamente cuidadas, onde predominavam os girassóis e uma planta que tive dificuldades em entender o que seria, apesar de ter perguntado ao longe, a um agricultor, que me respondeu algo imperceptível. Existia um sistema de rega que se alimentava dos transvases do rio Guadalquivir, com canais de irrigação e aquedutos dos tempos modernos, com quilómetros de extensão.
Pedalar numa nacional com forte calor e trânsito constante pode ser muito cansativo e como já havia saído tarde de Sevilha, assim que se fez sete da tarde (hora portuguesa), parei em El Cuervo, onde aluguei um quarto mesmo ao lado da Nacional IV.
Pelo caminho atingi a barreira dos 500 quilómetros, metade desta viagem e comemorei, sozinho, numa estação de serviço, devorando duas latas de Aquarius num ápice e meia garrafa de água bem fresca que me soube como uma benção divina.
Pela primeira vez nesta viagem consegui jantar com uma clarividência que não tinha tido nos outros dias, pois com cerca de 75 quilómetros percorridos, não se pode dizer que tivesse sido uma etapa dura, comparado com o que já tinha passado. Uma febra grelhada com um punhado de batatas fritas fizeram parte do meu menu simples.
Deitei-me cedo, bem disposto, sem as nauseias e as tonturas dos dias anteriores. Amanhã sairia bem cedo e pus o relógio a despertar para as 6 da manhã.
O objectivo é muito claro: numa semana, percorrer 1000 quilómetros, de bicicleta, de Lisboa a Casablanca (Marrocos). Todos os dias leia, aqui, mais uma CRÓNICA deste aventureiro
De Aroche a Sevilha deveriam ser uns 130 quilómetros, pelo que de manhã tomei um pequeno almoço, reconfortante depois de uma noite mal dormida. Percebi então que o meu organismo não estava a reagir bem aos alimento sólidos e só me apetecia líquidos. Antes disso ainda mudei o pneu à bicicleta e o sol da manhã para mim era o prenúncio de um dia complicado, por causa do calor.
Não sei se há algo em Aroche que valha a pena ver, mas que me desculpem os "aronchenses": É que eu estava com pressa para chegar a Sevilha e lá voltei à Nacional 433, marcada com uma sinalética exemplar e que ía indicando, em contagem decrescente, os quilómetros que faltavam para Sevilha. Desta vez não iria complicar e sabia que tinha de dosear o meu esforço, depois de enorme tirada do dia anterior, pelo que segui em passo descontraído, sem forçar os músculos, já de si fatigados, das minha pernas. Mas poucos quilómetros depois da minha saída de Aroche o primeiro furo do dia. O arranjo do pneu não tinha ficado nas melhores condições e nas subidas, o peso do alforge criava uma pressão suplementar e o resultado era inevitável, mais tarde ou mais cedo. Demorei cerca de meia hora na resolução do problema mas outro problema maior me esperava: Bem-vindo à Serra de Aracena. E agora é que eram elas... subidas de mais de dois quilómetros, descidas rápidas que nem davam para descansar e assim sucessivamente por mais de 100 quilómetros. Foi um dia inteiro nisto e para se perceber da dificuldade que tinha pela frente, basta dizer que a determinada altura, para percorrer cerca de 12 quilómetros, foram precisas quase duas horas. Não sabia se ia aguentar, para ser sincero, mas de uma coisa tinha a certeza: Nunca tinha bebido tantos líquidos em toda a minha vida. No final do dia calculei que tivesse bebido cerca de 12 litros, entre água e bebidas energéticas. O engraçado é que não sentia vontade nenhuma de urinar. Suar suava, mas o bafo quente do vento apagava os rastos visíveis do meu esforço. Quase sempre que via uma povoação parava e abastecia de água com que enchia os cantis e onde misturava um produto energético em pó, com sabor a limão. Passada meia hora aquilo que pretensamente deveria ser um refresco passava a chá autêntico, por força do calor, mas como era com sabor a limão, posso dizer que até se tornava agradável.
Quando deixei a serra de Aracena para trás e avistei Sevilha lá ao longe enchi-me de uma energia renovada e pedalei a um ritmo forte, com médias de mais de 28 quilómetros.
É já às portas de Sevilha que encontro Juan, que na sua bicicleta de corridas foi de uma simpatia a toda a prova. Pai do ciclista espanhol António Piedra, que participa na Volta a Portugal, Juan levou-me por becos e vielas, sentidos proibidos e sinais vermelhos, até ao coração de Sevilha, onde a majestosa catedral se mantém, imponente e intocável.
Contou que a cidade tem mais de 60 quilómetros de ciclovias e um sistema de aluguer de bicicletas em que se compra um cartão tipo passe que custa dez euros por ano e assim se pode usufruir dessas bicicletas, o que pude comprovar a olhos vistos. Tirámos fotos, trocámos contactos e não pude deixar de agradecer toda a simpatia de Juan. Não fosse ele ainda andava à procura da entrada para Sevilha. Precisava, no dia seguinte, de fazer uma revisão na bicicleta e Juan indicou-me uma loja não muito longe dali. Foi-se embora com um sorriso e a desejar-me toda a sorte do mundo e procurei um quarto por ali perto o que não demorei a encontrar. Por vinte euros e às portas da Catedral não podia pedir melhor. As ruas do centro histórico eram verdadeiras vielas, não tendo mais de dois metros de largura, o que lhe dava um ar aconchegador. Turistas por toda a parte e de toda a parte acabavam sempre por desaguar na imensa catedral que dominada Sevilha.
Tomei um duche e fui jantar a um restaurante árabe, por indicação do dono da pensão. Desta vez não vomitei e o ar condicionado do quarto funcionou perfeitamente, o que trouxe algum bem-estar nesta verdadeira aventura. Adormeci a pensar nas pessoas que me são chegadas e a sentir saudade de casa. A aventura continua.
O objectivo é muito claro: numa semana, percorrer 1000 quilómetros, de bicicleta, de Lisboa a Casablanca (Marrocos). Todos os dias leia, aqui, mais uma CRÓNICA deste aventureiro
O dia começou cedo, com o despertador irritante, que de forma estratégica deixei afastado da cama, para assim ser forçado a levantar-me e a preparar-me a tempo e horas do comboio das oito menos dez. Apesar dos primrios raios de sol da manhã adivinharem um dia de Verão, o tempo estava fresco e ainda não tinha pedalado um quilómetro, quando decidi-me a vestir o polar que havia trazido no alforge, todo ele decorado com o logotipo que havia criado para a ligação Lisboa-Casablanca.. E lá pedalei os cerca de dez quilómetros que separam a minha casa à estação da CP de Aveiro, agasalhado e algo ansioso pelo arranque desta aventura, ao mesmo tempo que revia mentalmente aquilo que me havia levado a tomar esta estranha decisão de ter umas férias activas e em quase solidão.
Entrei para o comboio, não ser antes notar os olhares curiosos das poucas pessoas, que aquela hora da manhã aguardam o embarque para outras paragens. O meu destino era Casablanca e estava bem claro, mas o bilhete, por enquanto iria apenas me levar até Santa Apolónia. Um comboio regional que faria a morosa ligação entre Aveiro e Lisboa, pois só os regionais é que permitem o transporte da bicicleta e sempre numa das extremidades da composição, algo que aprendi depois do simpático revisor me pedir para levar a bicicleta para junto da cabine de controlo do comboio. Foram mais de quatro horas a ouvir a mesma voz, a anunciar roboticamente cada uma das estações e apeadeiros e depois de sair e entrar em Coimbra B e Entroncamento, eis que chego à estação de destino, já meio farto de tanto tédio, que procurei combater tentando me entender com o GPS que ainda não tinha tido oportunidade de explorar. E eis que descubro que afinal a máquina fotográfica estava com um problema e que não tirava fotos, Era a lente e não me restava outra alternativa senão comprar uma lente Canon pelo caminho. Talvez em Beja, pensei eu.
- Próxima estação: Lisboa Santa Apolónia - dei um salto do banco, pois já estava meio sonolento, agarro na bicicleta e dirijo-me para a porta.
- Boa sorte para a travessia - diz-me simpaticamente o revisor, ao que eu agradeço com um sorriso.
- Quantos é que vão? - perguntou de seguida, ainda antes de o comboio parar por completo.
- Apenas eu - respondi.
- Eh lá... sozinho não é nada fãcil - retorqui, ao que eu concordei com um encolher de ombros.
Mal me vi fora da estação montei-me na bicicleta e muito lentamente lá me dirigi para o Cais do Sodré, ponto de encontro com o fotografo da revista Visão. Já me tinham feito uma longa entrevista por telefone e agora o Nuno Fox vinha tirar uns "bonecos". Enquanto esperava por ele, mesmo frente à estação do Cais do Sodré, sou surpreendido por um grupo de oito ciclistas de Córdoba. Vinham carregados de mochilas, sacos cama e alforges e conversámos um pouco. Davam-se pelo nome de Trepachulos (a tradução para português tem o mesmo sentido do castelhano) e estavam a visitar Portugal. Iam para Sintra, por dia faziam cerca de 120 quilómetros e notei neles alguma admiração assim que lhes contei o propósito da viagem que estava prestes a iniciar. Tirámos fotos juntos, trocámos emails e lá seguiram o seu caminho. Enquanto isso, o Nuno Fox lá chegou e fomos para a zona ribeirinha. Não estou habituado a ser fotografado e muito menos com um mini arsenal de equipamento fotográfico. Mas o Nuno deixou-me à vontade e ainda não eram duas da tarde e já estava no cais de embarque para Cacilhas.
INICÍO TRANQUILO Num instante o ferry chegou a Cacilhas e eis que tinha a estrada por desbravar à minha frente. Calcei as sapatilhas com encaixes para os pedais, liguei para casa e a minha mãe, pessoa que talvez melhor me conhece e compreende, desejou-se toda a sorte do mundo. E iria precisar, sem dúvida. Num acto irreflectido, benzi-me e colei as mão ao guiador enquanto me metia à estrada. Duas horas depois e pelas minhas contas, sabia que iria ser difícil chegar a Beja com a luz do dia e lembrei-me o quanto poderia ser perigoso andar de bicicleta durante a noite, pelo que me propus a pedalar até cerca das sete da tarde. Entre as inevitáveis paragens para pedir informações e beber uma bebida mais fresca, cheguei a Alcácer do Sal, depois de percorrer, sem dificuldade de maior, cerca de 92 quilómetros em pouco mais de quatro horas (tempo útil). Não estava cansado, mas achei que o mais sensato era sair do IC1, onde o trânsito circulava a alta velocidade, e procurar um porto seguro. Ainda houve tempo para um grupo numeroso, todos eles conduzindo as míticas Vespas, passarem por mim e acenarem, com apitadelas de incentivo. Acenei-lhes também, retribuindo a atenção que, de quando em vez, recebia de algum automobilista. Acenei eu e acenava constantemente a irrequieta bandeirinha de Portugal, que colada à vareta de fibra de vidro, dava conta, de forma indisfarçável, do meu orgulho patriótico.
Em Alcácer do Sal optei por ficar no Parque de Campismo, tomar um duche retemperador e jantar algo mais que as barras energéticas que haviam sido o meu almoço e lanche. Os três boiões de bebida energética que trago agarrados ao quadro da minha companheira também estavam no fim e foi em boa altura para parar e pernoitar. Era melhor assim e abandonei por momentos o meu espírito competitivo que se sentia tentado a ir até Beja, numa tirada só, custasse o que custasse. Mas havia que refrear ânimos, em nome da razão e sobretudo da segurança e eis que dou comigo na recepção do parque de campismo para o check-in.
A minha indumentária de ciclista não deixava dúvidas e apesar de ter deixado a bicicleta fora do alcance do olhar da jovem que me atendia, ela ficou algo surpreendida quando lhe dei a minha morada para a factura:
- Não em diga que vem de Aveiro de bicicleta? - perguntou, admirada.
Lá lhe expliquei que não e resumi em poucas palavras o que me trazia de passagem por Alcácer do Sal. Fiquei então a saber que eram muitos os suecos, finlandeses, belgas e holandeses que passavam por ali de bicicleta. Paguei adiantado, pois queria sair bem cedo em direcção a Grândola, com passagem por Beja.
- É o melhor caminho - assegurou-me a jovem recepcionista, informação que já havia recolhido nas bombas de gasolina, poucos quilómetros antes, ante o olhar atónito do funcionário, que não tirava os olhos do propósito da minha viagem, estampado numa lona colorida.
Amanhã há mais... mas há também que recuperar algum do atraso do primeiro dia. Beja ainda está a 82 quilómetros (a acreditar no Via Michelin online) e pelo menos saio do trânsito frenético do IC1. Depois veremos até onde irei, mas creio que tomei a melhor decisão, muito embora tenha de recuperar este atraso nos próximos dias. É para isso que servem os planos "B".
O objectivo é muito claro: numa semana, percorrer 1000 quilómetros, de bicicleta, de Lisboa a Casablanca (Marrocos). Todos os dias leia, aqui, mais uma CRÓNICA deste aventureiro
Havia que recuperar do atraso do dia anterior e feitas as contas deveria fazer, por dia, em média, cerca de 125 quilómetros para completar os 1000 quilómetros a que me havia proposto fazer na ligação de Lisboa a Casablanca. Por isso arranquei de manhã cedo, ainda não eram oito horas da manhã, para uma longa jornada. Só pararia mesmo quando o sol se pusesse e no centro de Alcácer do Sal lá me indicaram que o melhor mesmo era seguir para Beja mas na direcção do Torrão e não de Grândola, como a menina da recepção me tinha explicado. E segui viagem admirando o silêncio que se fazia sentir naquela rua de suaves colinas que ia fazendo sem custo de maior. Cheguei a Beja a tempo do almoço e acabei por comprar a máquina fotográfica, depois de perceber que uma nova lente para a minha Canon estava fora de questão, pelo seu elevado preço e rapidamente voltei à estrada em direcção a Serpa. Parei numa estação de serviço às portas da terra que viu nascer Nicolau Breyner, com um calor insuportável. Pedi uma garrafa de litro e meio de água fresca enquanto entrava uma senhora manifestamente incomodada pelo calor.
- Jesus credo! Tanto calor! Devem estar uns 40 graus! - exclamou a senhora, ao que um homem, de meia idade, de etnia cigana, com uma garrafa de cerveja na mão, respondeu:
- E ainda a senhora não viu nada. Quando se diz que Serpa é o local mais quente de Portugal as pessoas não se acreditam.
Na verdade já tinha ouvido falar disso e podia comprovar na pele que não era um mito. O vento soprava quente mas mesmo assim não havia mais nada a fazer senão pedalar, pedalar... Passaram por mim alguns carros dos bombeiros de combate ao incêndio, apressados, com a sirenes a apitar e a indicação mais à frente não deixava dúvidas. Elevado risco de incêndio.
Entrei na fronteira espanhola de forma insonsa. É que nem uma placa Espanha a anunciar a entrada no país vizinho nem nada. O melhor que encontrei foi a indicação que Comunidad de Andaluzia Provincia de Heulva. Foi junto ao marco do quilómetro 155 da Nacional 433, que encostei a bicicleta e tirei uma foto para a posteridade.
Não perdi muito tempo a voltar a cavalgar na minha ginga e confesso que já estava a sentir-me cansado. A localidade de Aroche ficava a 25 quilómetros e decidi que seria aí que ia pernoitar, mas eis que o pneu de trás começa a esvaziar. Estava com um furo. O primeiro da viagem. Usei do spray reparador que me daria, quando muito, para aguentar 10 quilómetros, mas como se fazia tarde, decidi arriscar, e para não ter de parar e reparar o furo, segui estrada fora. Parei várias vezes para encher o pneu e o simples facto de parar de pedalar era um verdadeiro tormento. Aqueles últimos quilómetros da etapa estavam a ser muito difíceis para mim e já só queria descansar. Comecei a ter tonturas e com muito sacrifício chego a Aroche, onde não demorei muito a encontrar estadia. Um quarto com casa de banho virado para o casario daquela pequena vila, encastrada numa colina de forte inclinação.
Tomei um duche e já quase não sentia as pernas. Tinha percorrido 190 quilómetros num só dia, debaixo de um forte calor e sinceramente creio que exagerei, pois o meu corpo começava agora a dar sinais de alerta estranhos. A começar pela descoordenação motora. Quem me visse nesse momento diria que estava com uma grande bebedeira, mas na verdade sentia-me com tonturas e o meu cérebro começava a projectar imagens confusas. Estava numa fase de delírio e sabia-o. Comi rapidamente e subi ao quarto. A muito custo meti a chave na porta e mal entrei fui a correr para a sanita da casa de banho, onde vomitei o jantar que havia comido minutos antes. Não estava nada bem e para ajudar à festa o ar condicionado do quarto estava avariado, pelo que não me restou outra alternativa senão comer uma banana que ainda me restava das minhas poucas provisões e dormir de janela aberta. Estava exausto.