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Jazz em agosto e de bom gosto

Começando esta sexta-feira, dia 6, e improvisando até 15 de Agosto, a Fundação Calouste Gulbenkian apresenta a 27ª edição do Jazz em Agosto. Chega novamente a Lisboa aquele que é o outro lado do jazz, apresentando músicos que refletem as tendências inovadoras do jazz que é tocado na atualidade.

André Pinto
12:58 Sexta, 6 de Agosto de 2010
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Começando esta sexta-feira, dia 6, e improvisando até 15 de Agosto, a Fundação Calouste Gulbenkian apresenta a 27ª edição do Jazz em Agosto. Chega novamente a Lisboa aquele que é o outro lado do jazz, apresentando músicos que refletem as tendências inovadoras do jazz que é tocado na atualidade.

É neste espaço de independência e resistência que o Jazz em Agosto 2010 apresenta no anfiteatro ao ar livre, duas figuras históricas do jazz contemporâneo, num diálogo próprio e invulgar: o saxofonista e clarinetista John Surman e o baterista e pianista Jack DeJohnette. Este último mais conhecido pela associação ao trio do painista Keith Jarrett, mas que tocou também com Bill Evans e Miles Davis. E Surman, um inglês que compõe também para bandas-sonoras, colaborou com Gil Evans e percorre todo um espetro que vai desde a música do Renascimento musical inglês de John Dowland (séc. XVI/XVII) até ao drum'n'bass, com o free jazz a dominar a perspetiva. Assim, dois veteranos que cultivam a forma introspetiva de dueto há duas décadas, percorrendo e ampliando o legado do jazz, ao mesmo tempo que nos transportam para o ambiente da eletrónica. Poucos concertos e apenas dois discos fazem deste concerto - que a abre o Jazz em Agosto sexta-feira dia 6, pelas nove e meia da noite - o grande destaque da festa.

Dois dias depois, domingo dia 8, à mesma hora, o saxofonista britânico Evan Parker apresenta-se com o seu Electro-Acoustic Ensemble. Uma formação através da qual tem procurado, na última década, explorar os limites da música eletrónica e da improvisação, contando aqui com a sua maior formação de sempre - 18 músicos - integrando solistas como Peter Evans, Agustí Fernández, Paul Lytton, Richard Barrett ou Ikue Mori. Um concerto multimédia, onde imagem e música entram em diálogo.

Outro destaque, dentro das propostas deste ano do Jazz em Agosto, é o do quinteto do clarinetista francês Louis Sclavis, sexta-feira dia 13, também às 21h30. Sclavis, um intérprete e compositor que nos apresenta o mais recente projeto, Lost On The Way, inspirado na Odisseia de Homero. Incidindo em Ulisses, cumpre-se assim uma viagem musical onde sobressai a singularidade de Sclavis, com aproximações aos universos de Miles Davis e Eric Dolphy e revelando também uma nova geração do jazz francês. Linhas melódicas complexas, cerebrais, angulares, caracterizam a linguagem deste clarinetista, dotando-o de uma identidade musical reconhecida. Domingo, dia 15, à mesma hora e a encerrar o festival, toca a Circulasione Totale Orchestra. Banda liderada pela saxofonista e clarinetista Fröde Gjerstad, e onde sobressaem músicos como Louis Moholo, Paal Nilssen-Love, Sabir Mateen, Bobby Bradford ou Kevin Norton. Uma orquestra multinacional e multidimensional que existe há vinte anos, sempre em contínua evolução, agregando gerações e celebrando a improvisação libertária e festiva. Intérpretes que vêm da Noruega, Suécia, África do Sul, Estados Unidos e Reino Unido, de várias gerações que adotam o mote da evolução permanente em forma livre. O agrupamento é assim formado por figuras históricas a par de uma juventude musical já reconhecida, desenvolvendo um corpo cuidadosamente organizado mas passível de todas as transgressões. Música poderosa e extrovertida que dá assim um adequado encerramento ao Jazz em Agosto 2010.

 

 

Mas além destes destaques, há outros nomes a ouvir dentro deste festival bem variado. Ainda no anfiteatro ao ar livre da Gulbenkian, sábado, 7, às nove e meia da noite, toca o trio Steamboat Switzerland. Baseado numa fórmula de power trio, com órgão Hammond B-3 e uma vigorosa secção rítmica, formada por baixo e bateria, evocando free rock e jazz. Uma banda de características provocadoras e sons tórridos, mas meticulosa na sua progressão. Música na fronteira com o rock, em que a austeridade sonora do trio evoca memórias de quatro décadas de desvios do jazz.

Daí a uma semana, sábado, 6 de Agosto, pelas 21 e 30, o sexteto Sol 6 de Luc Ex explora as peculiaridades nas práticas atuais do jazz. Isso é conseguido através do cruzamento do jazz e da improvisação radical com punk e Groove, apresentando pelo meio canções não convencionais.

O Jazz em Agosto 2010 expõe ainda outros concertos e atividades: Domingo, dia 8, às 15h30 apresenta-se o Open Speech Trio uma formação onde se destaca o flautista Carlos Bechegas, pioneiro da música improvisada em Portugal e com projeção internacional, explorando os limites da flauta no seu mais recente projecto. No mesmo dia, mas pelas seis e trinta da tarde, é altura de ouvir o pianista Guus Janssen e o baterista Han Bennink, personagens lendárias da cena do jazz de Amesterdão, em diálogo cúmplice e contagiante. De Lisboa, vem o Red Trio, com formação clássica de jazz piano/contrabaixo/bateria, um combo de notoriedade recente, que explora uma via menos convencional a partir de piano preparado. Um trio português que explora a tradição com invenção e audácia, conservando laços evidentes com o jazz e cultivando técnicas instrumentais inovadoras. Explorações que, em sólido equilíbrio, criam novos horizontes a 14 de Agosto, um sábado, às 18 e 30. O Red Trio é formado por Rodrigo Pinheiro, ao piano, Hernâni Faustino no contrabaixo e Gabriel Ferrandini, bateria e percussão. Novos contrastes traz outro trio de piano, contrabaixo e bateria. Pat Thomas / Raymond Strid / Clayton Thomas, são improvisadores de créditos confirmados, que dão ênfase a interações criativas no último dia, domingo, 15, às seis e trinta da tarde. Na parte audiovisual, sábado, 7, às seis e trinta da tarde é exibido o documentário Hazentijd, de Jellie Dekker e Dick Lucas, que se debruça sobre o universo do baterista Han Bennink, que dedicou a sua vida à música e à pintura, dando ênfase à dualidade do mundo em que vive entre a Natureza e a Metrópole. Daí a uma semana, no outro sábado, 14, mas às 17 horas, é a vez de Die Posaune des Jazz (O Trombone do Jazz), de Thorsten Jess, um filme que evoca um dos maiores trombonistas do jazz europeu, Albert Mangelsdorff que viveu entre 1928 e 2005, num documento que revela os novos caminhos abertos por este músico consagrado pelas novas técnicas instrumentais que aprofundou. Há ainda tempo para uma conferência dedicada ao mote Jazz Europeu e Jazz Americano: um diálogo não interrompido, pelo jornalista, crítico e teórico italiano Francesco Martinelli abordando a natureza da programação deste ano do Jazz em Agosto.

Um festival que mostra um olhar sempre atento às transformações sociais e tecnológicas que se operam no mundo e que revela a história do jazz contemporâneo, na sua riqueza e diversidade.

 

André Pinto

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