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Janeiro

As cabeleireiras do Selão Pereira, perto da casa da minha infância, ainda hoje me fazem sonhar

4:06 Quinta-feira, 4 de Fev de 2010

Que mês de janeiro tão comprido, que lentidão nas horas. Dia 7 fazia anos a minha outra avó: já ninguém se lembra dela, morreu completamente. O problema, depois de desaparecermos, será não ser esquecido ou não ser suficientemente esquecido? O que é um nome, a memória de um nome? Às vezes pode ficar-se vivo por uma frase só. Por exemplo a rapariga, na Índia, de quem Camões dizia que chiava como água num pucarinho novo. Dessa recordo-me sem nunca a ter visto. Ou de D. João de Castro a comentar, acerca de um homem de barba branca e cabelo preto ­

- Pensa mais com os queixos do que com a cabeça.

As coisas que me ficam na ideia, meu Deus, que armazém os meus miolos. Os vencedores da volta a França quase todos, por exemplo, desde 1930. Gangsters de há mais de 60 anos, Baby Face Nelson, Machine Gun Kelly, Legs Diamond, o grande Dillinger. Pugilistas: Carl Bobo Olsen que tinha Mama no braço tatuado, Ray Sugar Robinson, o imenso Georges Carpentier que se finou antes de eu ter nascido e usava risca ao meio. Tive uma fotografia dele, elegantíssimo, as orelhas um bocado em couve flor, é claro, o nariz um bocado amassado, é evidente, mas elegantíssimo, de boquilha e polainas. No princípio do século 20 houve um combate em 112 assaltos. Gosto de ciclismo, de gangsters, de boxe. De certas respostas. Uma senhora que detestava Churchill a declarar-lhe ­

- Se eu fosse sua mulher envenenava-lhe o chá

e a resposta de Churchill ­

- E se eu fosse seu marido, minha senhora, bebia-o.

Um primo do meu pai ao apresentarem-lhe o rei Humberto de Itália ­

- Tem graça, é a primeira vez que vejo um rei fora do baralho e me ficou para sempre porque não concebo reis fora do baralho a menos que Baby Face Nelson fosse imperador de Portugal. E janeiro não acaba. Também porque carga de água havia de acabar? Leio livros maus uns atrás dos outros: a quantidade de tralha que se imprime deixa-me de boca aberta. O que pensarão os autores destas coisas das bodegas que fizeram? Se calhar andam felizes, como eu quando vi Oscar de la Hoya combater. Sabará, Maneca, Vavá, Pinga e Parodi, a linha avançada do Vasco quando tinha 6 anos: tudo se me pega à memória, que maçada. Criaturas a tocarem piano. Cromos de actrizes de cinema que sorriam, em fato de banho, no papel, e eu seguro que era para mim que sorriam. Uma ocasião, no eléctrico para o liceu, uma mulher da idade da minha mãe encostou-se a mim: a primeira grande perturbação, um pânico feliz. O peito a roçar-me na cara, os dedos na pega sobre os meus e eu muito quietinho, extasiado, cheio de durezas inesperadas, porções que cresciam, agarrado a ela num desespero de náufrago. A certa altura desprendeu-se de repente e foi-se embora. Agarrado a ela num desespero de náufrago aprendi nos livros maus. Nunca mais a encontrei e se a achasse de novo, mesmo hoje, agradecia-lhe. Se calhar passa as tardes na pastelaria, viúva, diante de um café vazio, com o guarda- -chuva nas costas da cadeira e uma reformazinha aflita, a água do reumático a assobiar nos ossos.
As cabeleireiras do Salão Pereira, perto da casa da minha infância, ainda hoje me fazem sonhar. E aquelas que arranjavam as unhas aos homens na barbearia do meu avô. O senhor Melo, que me cortava o cabelo, parecia um arquiduque.

- O menino nunca vai ficar careca

anunciava ele com pompa. Enganou-se um bocado, e a toalha cheia de madeixas loiras que às vezes se metiam no colarinho e me faziam cócegas pelas costas abaixo. Torcia-me e o senhor Melo ­

- Ainda lhe corto uma orelha se continua assim

e que mês de janeiro tão comprido, que lentidão nas horas. Ontem estive no hospital: desgraças e desgraças, os olhos das pessoas. Cá fora sol. A paragem do autocarro cheia de gente séria que nem sabe como a minha outra avó foi. Falava pouco. Tinha olhos azuis. Era feia. Pareço-me com o irmão dela, com a família dela. Nem sonhava quem era Machine Gun Kelly. É horrível confessar isto, avó, mas penso mais em Ray Sugar Robinson do que em si.

Palavras-chave   Crónica António Lobo Antunes
 
 
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Janeiro
a.dúvida (seguir utilizador), 2 pontos , 11:50 | Quinta-feira, 4 de Fev
Um mês de Janeiro tão comprido...
Um nome, um rosto, uma frase... pessoas que caminharam ao nosso lado no percurso da vida. Hoje são apenas ...gratas memórias que guardamos num lugar bem reservado do nosso coração.
As coisas que nos ficam na ideia...
Um abraço para si.
Sara
Sempre encantador...
lygnus (seguir utilizador), 1 ponto , 10:49 | Quinta-feira, 4 de Fev
...com as estórias da sua infancia. É um nato na maneira de escrever o que lhe vai na alma.

Mas Janeiro já findou é sempre um mes muito comprido e pouco ou nenhum dinheiro na algibeira, mas eu gosto particularmente do Janeiro.
Obrigado Dr/Escritor...espero por si.
Janus
arturgoncalves0 (seguir utilizador), 1 ponto , 16:02 | Quinta-feira, 4 de Fev
Como de costume António sigo-lhe o rasto das letras que foi deixando pelo caminho. Uma inevitabilidade, quase sempre, um flash back, só que os meus são pechebéque ...não sou escritor, gosto de, livre, solto e quase sem cânones, de me encontrar(?),consigo aqui nesta janelinha com um contador de caracteres...um bom contador de histórias me saiu o Amigo...também tenho as minhas e as minhas referências. As Vitórias (fabricadas junto à Ig. da Vitória, Porto), bem nao sei se chegavam a Lisboa, coleções(castelos, personagens históricas, animais - o bacalhau e a cobaia eram difíceis para caramba), muito se gastava para completar a coleção em papel tipo vegetal .Tinha um amigo de infãncia bom de desenho que as copiava, em papel adequado e na perfeição. Grande artista o Soares, acabava sempre as coleções, o safado, e ganhava as bolas de câmara d'ar. E os meus idolos, o Agostinho; o Zé Henriques (o do frango lembra-se?); os filmes de cowboys às quartas que me faziam sonhar com soldadinhos de plástico que saíam no gelados Rajá; o primeiro filme de que me lembro Por quem os Sinos Dobram, marcou-me ainda hoje me lembro dele com frequência...era eu garoto, mesmo garoto...tenho a felicidade de me lembrar das coisas mais recuadas...nas férias um dia recordo e porque não gostei do corte de cabelo queria voltar ao barbeiro, apanhar os cabelos e colá-los, vejá lá! Ah! e por falar em cabelo hoje é dia de ir ao barbeiro, digo cabeleireiro, assim mesmo para não ofender o senhor David,o artista.
Sugar Ray Robinson (born Walker Smith Jr., May 3
operasingerbass38 (seguir utilizador), 1 ponto , 16:26 | Quinta-feira, 4 de Fev
Selão Pereira? (gralha)
  Ray Sugar Robinson? (o açúcar vem primeiro do raio ;)
Cada vez me custa mais ter de esperar pelas suas preclaras crónicas, não só pelo fabuloso conteúdo, mas também por desencadearem um "flash back" sobre a época da sua meninice que é (foi) a minha...
Obrigado! Volte depressa! Já faz parte da minha psicoterapia.
P.S.- Veja já para o que me havia de dar hoje. Pôr em causa a sua memória, se calhar com ciúmes de não saber escrever como V.
"Eu que me comovo por tudo e por nada"
zorro (seguir utilizador), 1 ponto , 1:09 | Sexta-feira, 5 de Fev
Só quero dizer-lhe uma coisa. Sempre que leio o que escreve, vem-me sempre à memória: "Eu que me comovo por tudo e por nada". É assim que o sinto e o sei. E me vou também sabendo ("parecemo-nos tanto uns com os outros, não é?")

O resto é o seu estilo inconfundível. GENIAL.
Janeiro...
Apolo (seguir utilizador), 1 ponto , 1:45 | Sexta-feira, 5 de Fev
Realmente, o Janeiro é um mês enfadonho e longo: ou chove ou faz um frio tramado que nem o sol consegue aquecer, que tristeza meu Deus! não se veem os pássaros e não há velhos no jardim; como os jardins ficam tristes sem os velhotes! com eles há sempre histórias para contar, riem-se delas conforme as contam, o que será que fazem quando não frequentam o jardim! conversam sózinhos com suas memórias! e de vez em quando sorriem; 90 anos é obra! são recordações que nunca mais acabam... e cem? um século de vida!
Todos os anos há um banco de jardim que chora, quando finda o Janeiro , porque um deles se apagou!
Cumprimentos DR.
Manuela R.
O dr. António
conde abranhos (seguir utilizador), 1 ponto , 19:46 | Sexta-feira, 5 de Fev
È engraçado, quase todos os que lêem LA, se parecem com Ele, querem ser como Ele, ou parecer-se com Ele.Isto é um fenómeno invulgar num escritor, normalmente gosta-se ou não, do que o autor escreve, mas nem sequer nos lembramos do dito cujo.Eu também faço parte desses, que depois de lerem LA, parece que o conhecem, que andaram com ele nas escola, são amigos de familia. È certo que nos livros, o pai, a mãe, os irmãos e os avós, estão sempre a ser caracterizados, e quem lê os seus livros, práticamente, conhece a familia toda.
Não o conheço pessoalmente, mas li todos os livros que publicou, e tenho algumas afinidades com ele, para mim é o maior escritor vivo, da lingua portuguesa.
    Re: O dr. António   
Apolo (seguir utilizador), 1 ponto , 1:41 | Sábado, 6 de Fev
O cabeça de nabo
Gil Reis (seguir utilizador), 1 ponto , 4:10 | Domingo, 7 de Fev
Na hora de ser velho,é que me dá a pica para levantar as pedras do caminho percorrido.Á cata de sonhos para mostrar ao gang de malfeitores que dizem ser meus netos,levá-los a visitar os cois,de lhes mostrar toda a panóplia usada no tempo em que não havia o bit a separar e isolar os putos da rua:peões,bilas,arcos de ferro,flechas iguais ás varetas de chapéu de chuva,bonecos da bola e a colecção de revistas do José Vilhena,que o meu pai escondia atrás dos 78 rotações.Mas nunca lhes direi que,cada vez que o Sr.Abel,amigo de tertúlia de meu pai na tasca do Abílio,me cortava o cabelo,os putos da ponte pedrinha atazanavam-me o juízo chamando-me cabeça de nabo.Obrigado por dezenas de anos de leitura
As Cicatrizes do passado ou as Memórias presentes
manuelrod (seguir utilizador), 1 ponto , 11:52 | Terça-feira, 9 de Fev
Os factos que me riscaram a alma, que a fizeram sangrar no passado, são essas as minhas memórias, tão verdadeiras e importantes para mim e ao mesmo tempo tão inválidas, inocentes, inofensivas, impróprias para outros...(?); é como no cinema, um homem com uma faca na mão num frame não é suficiente para me transmitir a imagem de um assassino pois que ele poderá apenas ir abrir o papo-seco do lanche e o meu tempo anterior é só meu. O que tem tido a capacidade de me riscar a memória em cada momento da minha vida e de a fazer sangrar e acabar por deixar a cicatriz da recordação depende (em) muito Das Mesmas Silhuetas que o rio sub-entende no serpentear do seu rumo na planície em direcção à foz, tanto nas formas do seu leito, que as águas sentem e se deixam Magoar Inconscientemente como nos obstáculos mais dificeis de ultrapassar como as montanhas de repente semeadas nas planicies à sua frente e que o marcam e fazem definir no presente e no futuro.

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