O Condestável, o óleo de fritar peixe e o olho da cozinheira
17:49 Quinta, 23 de Abril de 2009
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O Nuno Álvares Pereira chama-se, a partir de domingo, São Nuno de Santa Maria (santidade a dobrar, portanto, o que não é para qualquer um). Quem o quiser tratar pelo nome que aproveite agora. Na semana que vem acabam-se essas familiaridades.
O que me leva a escrever sobre o Nuno não é isso: é o milagre que o Vaticano escolheu como razão boa q.b. para o rebaptizar. Parece que o homem que nos ganhou a independência em Aljubarrota curou uma queimadura feita com óleo de fritar no olho esquerdo de uma cozinheira de Ourém.
Os cínicos, os ateus e os espanhóis vão desvalorizar o milagre oftalmológico. Já ouvi gente dessa dizer que teria sido bem mais fácil impedir que o óleo quente com aroma a peixe tivesse saltado para o olho da senhora. Mas isso é não saber como funcionam as coisas. Este pessoal dos milagres gosta de dar nas vistas (tal como o óleo de fritar, tem piada). Manter o óleo quietinho na frigideira não seria tão espectacular como curar o olho esquerdo. Aliás, nunca ouvi falar de ninguém que desse em santo por evitar que acidentes desses aconteçam.
O meu problema com o milagre do óleo no olho é o oposto: não tem a espectacularidade de outros tempos. Não me interpretem mal. Longe de mim pedir que o Nuno transforme água da torneira em Esporão Reserva ou encha os barcos dos pescadores de peixe-espada-preto (com os limites das quotas, também a Comissão Europeia não deixava). Não, o estilo "levanta-te e anda" já não se usa, um claro sinal dos tempos e de que a crise chega mesmo a todo o lado. Mas estou convencido de que se o Nuno fosse inglês, francês ou alemão lhe arranjavam um milagre em condições. Os mínimos olímpicos que se exigem por aqueles lados são dois olhos, um olho e um braço partido ou um generoso engano por intercepção divina no reembolso do IRS.
Como se não bastasse a humilhação pública de ganharmos o nosso sétimo santo por causa de uma queimadura com óleo de girassol, o Vaticano ainda espanholiza o Nuno - nos convites para a canonização, o condestável aparece lá como "Nuno Alvarez Pereira". Alvarez! Ironia suprema, ou divina, este "engano" no nome do português que mais fama ganhou a dar pancada em espanhóis. Nuestros hermanos devem passar o próximo domingo a chorar de tanto rir: a vingança tarda mas não falha.
Nota: Hoje tinha de escrever uma crónica, mas estava naqueles dias vazios de ideias, em que só um milagre me podia safar. Fiz o caminho para o trabalho a rezar por inspiração e, quando cheguei e liguei o computador, vi no meu e-mail um comunicado do Corpo Nacional de Escutas sobre a canonização de Nuno Álvares Pereira. Alguém aí tem o telefone do Vaticano?
Milagre era o meu amigo escrever esta crónica enquanto fritava umas batatas e uns rissóis. Aposto que a sua mulher passava de imediato a chamá-lo de São Luís Ribeiro :)
Belo texto, abraço
RF
Bem,caro senhor Luís Ribeiro,dou-lhe os meus parabéns por êste
belo texto.De facto a Igreja cristã depois que se tornou imperial,
para substituir os Deuses do Paganismo,inventou os Santos do Cristianismo.Já o filósofo dizia:-Credo quia absurdum.
Mais um estratagema do «placebo» aproveitado pelo clero da ICAR.
Estas coisas não passam de crendices.
Quem ouviu o «morto» dizer à senhora «cura-te», ou «em nome de Deus cura-te»?! A única coisa que podemos dizer é que a senhora se curou quando já não estava à espera de tal cura e nada mais, o resto são «falsos testemunhos».
Morto, sim, D, Nuno, morreu e está morto.
Ninguém o viu ressuscitar. Quem diz que está no céu está apenas a especular.
Quanto a «santos» há uma diferença enorme entre o significado de «santo» mencionado na Bíblia e o significado de "SANTO" usado pela ICAR (Igreja .. Romana).
Mas suponhamos que esta santa fraude tinha fundamento. Devo dizer que YHWH, não se submete ao reconhecimento de um SUMO PONTÍFICE ROMANO.