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Irène, de Alain Cavalier

Irene: morreste-me

Irene: morreste-me
Uma reflexão sobre a ausência, a perda, a morte, a solidão num filme pessoal e quase intransmissível

Manuel Halpern4 olhos
12:11 Quarta, 25 de Agosto de 2010
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Poderia ser uma espécie de The Blair Witch Project do cinema francês, só que, em vez de a câmara ao ombro aparecer virada para fora, mostrando os medos exteriores e uma vasta gama de sustos, vira-se para dentro, não na direção do umbigo, mas dos medos mais profundos, da perda, da solidão. Irene é um diário íntimo, género tão difundido que já merece secção própria no DocLisboa. Também poderia fazer parte do vasto espólio de Jonas Mekas, o realizador lituano que mantém um diário filmado há mais de 50 anos. Mas deve ser visto apenas como uma honesta exposição da alma, um cinema do 'eu', próximo da literatura, da psicanálise, de uma liberdade perturbadora.

Irène Tunc, atriz e mulher do realizador Alain Cavalier, morreu, em 1972, num acidente de viação, nunca tendo ficado esclarecido se se terá tratado de um suicídio. O luto, a perda, a viuvez e a solidão, marcaram indelevelmente Alain que, só agora, talvez por exorcismo, ou pela distância, resolveu fazer um filme sobre Irène. Mas o filme que fez é também um filme sobre o filme que queria fazer. Porque o resultado, de certa forma, é a negação do próprio cinema. Alain acompanha-se a si próprio na exposição do seu sofrimento, da angústia, das confissões, das histórias felizes, das dúvidas formais, na falta. É um filme vazio de gente, feito de objetos, de pequenas metáforas, como o ovo que coloca na talha de melancia e retira com pinças, simulando o seu próprio parto que provocou a esterilidade da mãe. Caminhando sempre para Irene, obsessivamente, para chegar ao impedimento de ter filhos que terá sido, em parte, a causa da sua infelicidade.

Às tantas, Alian afirma ter sonhado com Sophie Marceu. A atriz revelava que era filha de Irene e que seria a única pessoa que poderia desempenhar o seu papel num filme. E filma compreensivamente um cartaz de Sophie. Mas a atriz nunca chega a aparecer. Nem nada, nem ninguém. Irene é feito de memórias num campo vazio. O realizador percorre-se em voz off, num encadear de frases literárias, que graças à sua sensibilidade e articulado se torna atraente. É o que mais de aproxima de Morreste-me (José Luís Peixoto) ou Fernanda (Ernesto Sampaio) no cinema. Deixa-se acompanhar por frases visuais que suportam o texto. A imagem está lá para servir o discurso, mas é nitidamente subalterna, apesar de ele se esforçar para exceder o seu valor semântico, como no ataque de gota logo no início do filme, ou a tentativa de queimar os diários, que é sobretudo a ilusão de que se pode estorricar o passado, mas também é o propósito de acabar com a própria palavra.

Este é o mais genuíno cinema de autor, o que mostra o realizador ao espelho e também uma das mais nobres tentativas de filmar o pensamento. Cavalier teve meia dúzia de cúmplices para realizar o projeto, mas poderia tê-lo feito literalmente sozinho. Como sozinho se mostra no mundo. Não será um filme fácil. Depende da disponibilidade de nos deixarmos levar. Mas vale a pena a tentativa, num cinema verdadeiramente livre que eleva a um extremo o estilo experimental da Nouvelle Vague, partindo das entranhas da alma. O cinema é tão livre que até se pode negar a si próprio.

 


 

 

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