Visão - Homepage
Faça aqui o seu
Subscreva dos feeds RSS da visão.pt
RSS
Assinaturas: Papel | Tablets e Vouchers | Digital
Convite aos Leitores: Deixe aqui a sua Opinião
Página inicial  >  Eleições 2011  >  ARTIGOS DE FUNDO  >  Independentes, mas pouco

Autárquicas 2009

Independentes, mas pouco

Nas eleições de domingo, dia 11, há cerca de meia centena de grupos de cidadãos que se candidatam. A maioria dos cabeças de lista já passou pelos partidos tradicionais

Sónia Sapage e Tiago Fernandes
15:47 Quinta, 8 de Outubro de 2009
Partilhe este artigo:

Nos anos em que chefiou a Maternidade de Beja, Dulce Amaral ajudou a  nascer "milhares de bebés". Hoje, esses seres frágeis e indefesos que lhe passaram literalmente pelas mãos, como vieram ao mundo, fazem parte do eleitorado que, no dia 11, escolhe o próximo presidente da Câmara. Ela, ex-enfermeira e advogada, concorre com o apoio de um grupo de cidadãos "para continuar a transformar Beja" e espera que a sua visibilidade lhe traga alguns votos. Já no caso de António Moreira da Silva, que, durante duas décadas, esteve à frente do quartel de Bombeiros de Coruche, como comandante, a hora é de continuar a apagar os fogos no concelho. Candidata-se como independente contra um homem, o actual presidente, que o pôs em tribunal. Um combate que se adivinha, no mínimo, escaldante.

Tal como Dulce e António, outra meia centena de homens e mulheres concorrem, nas próximas autárquicas, a municípios de Norte a Sul do País (de Bragança a Faro), apoiados por grupos de cidadãos. Chamam-lhes independentes ou apartidários. Mas, nas contas da VISÃO, que foi consultar um a um os currículos dos diferentes candidatos, contam-se pelos dedos os que nunca tiveram contacto com a realidade partidária. Há-os, mas poucos. "Eu candidatei-me em 1997 nas listas do PS porque só em 2001 a lei passou a permitir candidaturas independentes", explica-se Madalena Tavares, bióloga, ex-chefe dos Correios do Marvão, concelho onde agora se candidata.

Maria Antónia Pires de Almeida, investigadora do Centro de Estudos de História Contemporânea Portuguesa do ISCTE e autora de vários trabalhos sobre as elites locais e sobre grupos de cidadãos nos municípios portugueses, também corrobora a tese dos falsos independentes. "Sobre os independentes e os grupos de cidadãos que concorrem às autárquicas pode-se afirmar que se candidatam contra o sistema de partidos. Os seus candidatos são geralmente dissidentes partidários, tanto por se encontrarem descontentes com o partido de origem, como por terem sido expulsos.

Casos como o de Isaltino Morais, Valentim Loureiro ou Fátima Felgueiras - que se apresentaram a eleições depois de vários anos na presidência camarária, apoiados pelos respectivos partidos - não são, de facto, únicos. Apenas mais mediáticos. "Por norma, quem cria um grupo de cidadãos sabe, de antemão, que já tem uma estrutura de apoio e uma percentagem de votos assegurada", nota Maria Antónia Pires de Almeida.

Assim, em Campo Maior, João Burrica concorre ao seu quarto mandato, depois de ter sido presidente, sempre eleito pelo PS. Em Arganil, Rui Silva, que passou oito anos à frente dos destinos do município socialista, lidera o movimento Concelho com Futuro. O mesmo acontece em Amares, com José Barbosa (PS) ou em Faro com José Vitorino (PSD). Histórias de zangas e desilusões com os partidos, que até 2001 eram a única via para se chegar a uma autarquia.

A investigadora do ISCTE estudou, com especial atenção, os grupos de cidadãos que concorreram às autárquicas de 2001. As suas análises permitiram-lhe concluir que, "nas câmaras, todos os candidatos eleitos já tinham pertencido a um partido e grande parte voltou a pertencer, nas eleições seguintes". Quanto ao perfil dos concorrentes, segundo a professora "não se pode dizer que haja um candidato-tipo diferente dos restantes". São, na maioria, homens, com mais de 40 anos, pertencentes a grupos socioprofissionais que se integram perfeitamente no grupo geral dos presidentes e que concorrem a municípios rurais.

Alcanena: o primeiro dos "sem partido"

Em 2001, o ICA, Independentes pelo Concelho de Alcanena, elegeu um presidente de Câmara. Foi o primeiro movimento apoiado por um grupo de cidadãos a conseguir semelhante proeza. Mas a verdade é que Luís Azevedo, que ainda hoje continua à frente dos destinos do município, não tinha muito de independente - era edil, desde 1996, eleito pelo PS. E à semelhança do que costuma acontecer nos partidos, este ano não se recandidata, mas apoia, para o lugar, o seu vice-presidente, Eduardo Marcelino Camacho, de 59 anos. O que levou estes dois homens, com uma história de militância, a sair da esfera partidária, conta-se num ápice. "Na altura (2001), o engenheiro Luís Azevedo foi preterido pelo PS, que optou por outro candidato", conta Marcelino. Um erro que os socialistas viriam a pagar caro. Com a lei dos "independentes" acabada de sair, o então presidente decidiu testar o seu valor nas urnas. Ganhou. E repetiu a vitória em 2005. Agora, dá lugar a um homem que conhece as duas faces da moeda e que prefere ser independente. "É triturante, mas é apaixonante. Não estamos pressionados pelo partido para tomar decisões de acordo com as orientações a nível nacional", explica. "Vivemos do nosso esforço e do nosso voluntariado." Em Alcanena, o ICA faz campanha porta-a-porta e aposta no contacto directo: um dia de campanha em cada uma das dez freguesias do concelho. Depois, na Câmara, tem-se  trocado a política do porta-a-porta pela da porta aberta. No próximo mandato, o candidato diz que ainda há "muita coisa para fazer" por Alcanena. "Quero tornar o nosso concelho mais limpo, mais seguro e, acima de tudo, mais sustentável. Se, para atingir estes objectivos, tiver que assumir rupturas, assumirei."

Coruche: o regresso do comandante

Garante que não se trata de "vingança" ou "ajuste de contas" para com o presidente da câmara, Dionísio Mendes. Mas António Moreira da Silva admite que encabeçar a candidatura do Movimento Independente de Cidadãos por Coruche (MIC) à liderança da autarquia lhe permitirá "aparecer de cara lavada e limpar a má imagem". Abril de 2004: António é, há 20 anos, o comandante dos bombeiros da terra, quando o edil socialista o destitui do cargo, alegando irregularidades financeiras. O caso é entregue à Justiça, que arquiva o processo. O ex-chefe dos bombeiros processa, então, Dionísio Mendes por difamação e, em Abril último, o tribunal de Coruche dá-lhe razão. Por essa altura, o MIC já dava os primeiros passos e António, que nunca se tinha metido em política, surge como o candidato mais óbvio para defrontar o autarca. "Não é realista pensar em ganhar as eleições. Do que se trata é de  fazer com que ele perca a maioria absoluta, para o obrigar a dialogar com as outras forças." António espera ser eleito vereador, apesar do orçamento de apenas 2 800 euros para a campanha, saído do bolso dos líderes do movimento. "Foi tudo feito com produção caseira", graceja, referindo-se aos dois carros particulares usados nas acções de rua e ao material de som emprestado por amigos. As suas prioridades são a "reabilitação do corpo de bombeiros", para onde entrou com 14 anos e que diz ter hoje "gente a menos e viaturas estragadas a mais" e a criação de uma polícia municipal para pôr cobro "aos problemas de segurança, roubos e brigas". Admite vir a fazer acordos com os outros partidos. Menos com o PS. "Com aquele senhor que lá está, não vale a pena."

Sines: um caso de dissidência

Manuel Coelho, 68 anos, diz que se sente livre. Liberto dos "jogos partidários", com vontade e "em condições de discutir com outras forças políticas" o desenvolvimento do seu concelho. Tem esta sensação desde que, em Janeiro passado, pôs fim a 35 anos de militância no PCP. Com estrondo, chamando ao partido  "esclerosado" e "reaccionário". E agora recandidata-se à Câmara Municipal, como independente, cabeça-de-lista do movimento SIM - Sines Interessa Mais. Manuel Coelho integra o grupo maioritário dos independentes que se zangaram com os seus partidos. Algo que também não é uma novidade, no PCP: há quatro anos, o partido perdeu a Câmara do Redondo, quando Alfredo Barroso abandonou a militância e se candidatou como independente. Já a "paciência" do autarca de Sines esfumou-se, no início deste ano. "O partido fez tudo para me desacreditar. Na Assembleia Municipal, chegaram a fazer uma declaração de voto a acusar a Câmara de estar a colaborar com o Governo na destruição da escola pública, por eu ter assinado um contrato de concessão assumindo a gestão das actividades extracurriculares", explica o presidente. Médico de profissão, cresceu numa aldeia, junto da serra da Lousã e foi resineiro como o seu pai. Cumpriu o serviço militar em Timor e aí continuou os estudos, na ânsia de deixar o fechado mundo rural e alargar horizontes. Foi na Faculdade de Medicina, em Lisboa, que tomou contacto com a UEC- União de Estudantes Comunistas. Terminado o curso, estabeleceu-se em Sines, acabando por ser escolhido pelo PCP, em 1997, para suceder a Francisco do Ó Pacheco, antigo presidente da Câmara, que agora volta a ser o candidato dos comunistas... contra Manuel Coelho.

Beja: prestar contas aos cidadãos

"Se alguma vez me cortarem a cabeça, é por dizer a verdade." Com esta, Dulce do Carmo Lopes Caleiro Amaral, 56 anos, encerra a sua curta passagem pelo PS. "Concorri numa lista a uma junta lisboeta e ganhámos. Mas quem é eleito por um partido não pode pensar pela sua própria cabeça. Ou está com ele ou está contra ele." Não é difícil perceber que Dulce Amaral, agora candidata à Câmara de Beja numa lista apartidária, não voltou a ser apoiada por nenhum aparelho. O que não significa que seja mulher para fugir a disputas. "Quem me conhece não duvida da minha garra", assegura a ex-enfermeira. E são muitos os que a conhecem em Beja, onde vive há 32 anos. Desde logo, porque foi chefe da maternidade e ajudou a nascer milhares de bebés, no concelho. Mas também porque, na qualidade de advogada, profissão que abraçou depois de se aposentar, tem várias acções em tribunal, em defesa de alguns conterrâneos. "Não preciso de tachos", atira, directa. "Tenho uma reforma alta e muitos processos a decorrer. Não vou para a política para chegar a algum lado." Dulce Amaral candidata-se porque a

 terra precisa dela, livre das amarras dos partidos, diz. "O meu lema é independência, transparência e desenvolvimento. Só quero ter de prestar contas aos cidadãos." Durante vários meses, Dulce e a sua equipa desenharam um programa eleitoral com preocupações sociais, atento às energias alternativas e à desburocratização. Mãe de dois filhos e licenciada duas vezes (Enfermagem e Direito), a candidata diz que está a trabalhar para que, no dia 11, possa haver uma surpresa em Beja. E se não houver, reforma-se? Nada disso. "Só quando tiver um neto é que me reformo de vez."

Marvão: Agradar aos velhotes

Este município do Alto Alentejo é dos mais microscópicos do País: 3 900 habitantes e cerca de três milhares de eleitores. Surpreende assim que, de uma assentada, dois grupos de independentes se tenham abalançado à disputa da autarquia. Mas talvez só o Juntos por Marvão tenha reais hipóteses de discutir a vitória, uma vez que a sua líder, Madalena Tavares, foi, nos últimos 12 anos, uma dinâmica vereadora da Acção Social e com especial enfoque na terceira idade, o que há-de dar-lhe alguns votos num concelho fortemente envelhecido como este. Em 1997, esta bióloga de formação era chefe do posto dos Correios da vila e ainda dava aulas no ensino recorrente, quando achou que chegara a hora de se meter nas lides autárquicas, como independente, nas listas do PS. "Por várias vezes tentaram filiar-me no partido, mas nunca quis. Prezo muito a minha independência", frisa Madalena, que diz ter sido pressionada para avançar a solo, "fruto do descontentamento popular com a arrogância do executivo do PSD", que há quatro anos destronou o PS. A bióloga acredita ter "algumas hipóteses de ganhar" e acena com os vários protocolos que assinou, desde 1997, como vereadora e permitiram que "muitas crianças tivessem ido à praia pela primeira vez e que muitos idosos tivessem tido oito dias de férias fora daqui". A sua campanha tem sido porta-a-porta e é aí que, diz, tem sentido "uma grande adesão das pessoas" ao seu trabalho. Ainda assim, conseguiu reunir 10 mil euros para a campanha, que considera ser "um orçamento reduzido", mas que deu para pôr outdoors em cada uma das quatro freguesias, e distribuir canetas e outros brindes. "Tudo negociado a preço de amigo."

 

Faça login pelo Facebook e comente este artigo!
 
 
Aumentar texto  Aumentar texto Diminuir texto  Diminuir texto ImprimirImprimir Enviar por emailEnviar por email
Partilhe este artigo:
 
 
PUB
 
Grupo ImpresaACAP