As obras plásticas desta vez expostas por Joana Rêgo alinham conceptualmente a ordem (e as aberturas) do alfabeto com imagens cuja identificação acciona a letra correspondente
Rocha de Sousa
11:41 Terça, 27 de Abril de 2010
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A propósito de Rudolf Arnheim, e da sua obra "Arte e Percepção Visual", lembro-me de ter consagrado (por mim e para fundamentos de tese) a frase "a palavra pensa a imagem". Luísa Soares de Oliveira, no ensaio que dedica ao trabalho de Joana Rêgo, evoca a controversa frase que Magritte escreveu por baixo da representação verista de um cachimbo. A obviedade da imagem era desmentida pela seguinte notificação: "isto não é um cachimbo". Tal ironia devia-se às polémicas sobre a natureza transversal da palavra enquanto nomeava ou convivia com o corpo da pintura. Era também a representação pictórica verista de um cachimbo, a todo o instante recuperada. A negação aqui citada relevava da problematização das imagens plásticas no quadro de novas relações que submeteram a pintura, no século XX, ao seu maior processo desconstrutivo, reduzindo-a quase por completo ao mais importante elemento estrutural que lhe era inerente: a cor. Um vasto leque de hipóteses formais veio assim a gerar processos e tendências de discurso, atingindo conceptualmente a abstracção absoluta. O que não impossibilitou o retorno à pintura sensitiva, figurativa, ligada à visão e sem renegar muitos dos novos modos de formar. A letra e a palavra nunca mais se desligaram deste espaço de produção cultural, entre nomes ou títulos, inclusive pela simbiose legível, significativa, de letras e matérias plásticas, envolvendo por vezes uma secreta matriz de escritas autónomas antes da palavra.
Não é uma imagem que vale mil palavras. São mil palavras que pensam essa imagem. Por outro lado, o título de um quadro não o explica nem o torna ilustrativo: o título, adoçado à imagem, obriga o espectador a pensar formas que, aparentemente óbvias, encerram segredos e enigmas.
De A a Z entre imagens e palavras
Sou apreciador (sem qualquer estratégia crítica) dos artistas que dedicam ao seu ofício um importante espaço de reflexão, escrevendo sobre experiências diversas, sem nenhum afundamento prioritário na rede das intuições nem apego exclusivista à habilidade manual. Desta vez, além de uma série de outros materiais, Joana Rêgo forneceu-me uma síntese do seu próprio projecto e um belo reportório (através da Internet) da sua obra. Ela pretende associar o trabalho A a Z ao trabalho que enquadra o tema da tese de doutoramento: "Artistas entre Imagens e Palavras". Joana Rêgo investiga, em múltiplas vertentes, aquilo a que chama diálogo entre imagem e palavra na praxis artística contemporânea, reflectindo sobre a utilização da palavra como processo artístico numa perspectiva formal e conceptual. O seu processo criativo desenvolve-se igualmente na coordenação do princípio conceptual com os "principais movimentos artísticos da história da arte." Mostra-se fascinada pelos casos exemplares desse encontro imagem/palavra, não apenas, como se depreende das suas palavras, no espaço das coesões fenomenológicas mas também no interior de cada facto, génese por vezes anterior à palavra. Se a palavra, feita de símbolos de A a Z, nos permite codificar e descodificar as imagens, Joana, com o seu trabalho, dá-nos também diversas chaves para nomear a forma plástica ou os enigmas com que esta nos envolve. É minha convicção de que a palavra pensa a imagem. E daí podemos procurar resolver outro problema decisivo para a nossa permanência civilizacional: é que, além do mais, a imagem pode surgir suportada por palavras, ajudando-nos a pensar o mundo. Essa interacção consolidou a necessidade de trabalhar a palavra na obra de arte (antes e durante o século XX), quer pela apropriação designativa da imagem, quer pela antiga realidade das iluminuras - ou nas formulações gráficas e convocação de planos ilustrativos, além dos modos que dão a ver (poesia concreta) um mundo imaginário, entre bocas falando e corpos na paisagem letrista.
O alfabeto e a decifração das magens
As obras plásticas desta vez expostas por Joana Rêgo alinham conceptualmente a ordem (e as aberturas) do alfabeto com imagens cuja identificação acciona a letra correspondente (O de ocultar; S de silêncio, entre todos os outros casos). Do meu ponto de vista, perante peças plasticamente estimulantes, o enigma, o jogo ou a mensagem devem reportar-se à constante abertura de cada relação letra/imagem. A proposição de Joana não é a única escolha, o que permite alcançar imensas alternativas, muitos cachimbos que não são cachimbos, mesmo quando a hipótese apresentada e legendada comece pela letra certa. No caso das peças de dominó, a letra G corresponde ao grupo de cinco elementos; mas, em pleno jogo visual, nada nos impede de optar pela letra C, de cadência, em conformidade com composição pictórica. E assim por diante, como acontece com a ampla variabilidade da língua portuguesa, rica em sinónimos, em palavras plurisignificantes, uma língua plástica por natureza, com a qual se pode pintar através de tonalidades adjectivas. Os que se revoltam contra esta riqueza meio barroca, preferindo condenar milhares de palavras que pesam e desfocam o pensamento, esses escrevem talvez seco e breve. Querem, aliás, soluções minimalistas onde o lastro da história e da cultura pintou labirintos de somas, memórias, referências visuais a uma oficina de patrimónios seculares.
Escrevo quatro palavras e os dados são lançados. À imagem de dados num tabuleiro, poderemos jogar a diferença e a semelhança: D de Deus ou D de Derrota.
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