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Homem do Leme: Sopa no Sopa

Por este camimho, qualuqer dia somos multados por assobiar o Chico Fininho na paragem de autocarro. Esta SOPA tem mais censura do que agriões

Da próxima vez que a Melinda se filmar a cantar no duche, o vídeo pode ser retirado do youtube, não pela sua nudez nem por que a Melinda cante mal, mas porqu não tem os direitos de autor daquela cancão. Isto, elevado a um limite, pode significar que o dia seremos multados por o Chico Fininho no autocarro. Tudo isto está em cima da mesa a propósito do Sopa e do Pipa, as leis antipirataria que serão votadas nos Estados Unidos, que podem provocar o fim da Internet tal como a conhecemos, sem que com isso se salve necessariamente a indústria (cinematográfica e discográfica). A palavra que mais se usa é censura, num mundo virtual que, até agora, tem sido relativamente livre (com todos os perigos afetos à liberdade).

O SOPA responsabiliza os sites por monitorizar todo o conteúdo albergado. Muitos já o fazem, por exemplo, em relação a matérias para adultos, mas a maioria funciona num estilo de autofiscalização (são os próprios utilizadores que fazem as denúncias) . Mas segundo esta nova lei sites como o Youtube ou o Facebook teriam que se assegurar que os conteúdos publicados são livres de direitos de autor. Como a maior parte destas redes não têm sede nos Estados Unidos, não seria possível encerrá-los, mas prevêem-se medidas tão drásticas como o bloqueio do site a utilizadores americanos ou o impedimento legal de publicidade de empresas americanas.

Tudo isto com o pretexto de proteger os direitos de autor. Mas os especialistas temem que se abra um precedente de censura e é por isso que sites como a Wikipédia, o Facebook e o Google se uniram num protesto contra esta sopa. Protesto que para já teve o resultado de adiar a votação da lei. A aprovação da lei significaria um retrocesso civilizacional.

O mais curioso é que, sob um pretexto diferente, os EUA podem estar prestes a aprovar o mesmo tipo de restrições que são feitas em sociedades ditatoriais, como a China, a Coreia do Norte ou o Irão. E, na prática, esta lei poderia ditar o fim de alguns dos maiores sites do mundo. Acabem com o Facebook, o Youtube, a Wikipédia e depois queixem-se. A quarta guerra mundial pode começar assim.

 

 

Manuel Halpern
17:13 Terça, 24 de Janeiro de 2012
Homem do Leme - Homem do Leme: Sopa no Sopa

Homem do Leme: De moral em mural

O Facebook tem um código moral cuja raiz está no puritanismo americano imposto pelos conservadores, que nada tem a ver com os bons hábitos liberais europeus. Já Patty Smith se queixava num dos seus discos: "You can't say shitt in Radio Free America". Na Europa, salvo casos extremos, quem se choca muda de canal

De moral em mural

A Ana foi expulsa do Facebook. Mudou a sua identidade, o nome que aparece no seu perfil, para 'Pessoa em estado de Anonimato'. Ficou assim durante umas semanas até que o Facebook eventualmente terá considerado que aquela era uma identidade falsa e retirou-lhe a conta. Não abunda o sentido de humor lá para os lados da Califórnia e as identidades falsas são um crime. Mas esta é apenas uma hipótese. Porque também pode ter sido uma denúncia, por exemplo, por ter usado uma fotografia da Irmã Lúcia como perfil ou por ter afirmado que vivia na Suécia e falava línguas esquisitas. A verdade é que nunca se saberá (a não ser que alguém se confesse), porque o Facebook simplesmente não dá explicações. Faz julgamentos sumários baseados em denúncias anónimas e não permite recursos. Somam-se os casos.
O João desistiu. Fartou-se e decidiu sair da rede social. É sistematicamente bloqueado por denúncias de pessoas que ficam chocadas com os textos que escreve ou as imagens que publica. Não são obrigadas a ver, podem inclusive desamigar-se, mas ainda assim insistem em... chocarem-se. Da última vez, coisa rara, até recebeu uma mensagem da pessoa chocada, identificando o conteúdo que o levou a fazer a denúncia (consultando o perfil, apercebi-me de que era uma senhora muito religiosa).
Tal como os sites pornográficos, a plataforma é vedada a menores de 18 anos - em ambos os casos, se os menores quiserem aceder têm que mentir na idade. Só que, por absurdo que possa parecer, ao mesmo tempo que proíbe a entrada a menores, o Facebook censura A Criação do Mundo, de Courbert, que está exposto, ao olhar de todos, no museu d'Orsay, em Paris. O Facebook tem um código moral cuja raiz está no puritanismo americano imposto pelos conservadores, que nada tem a ver com os bons hábitos liberais europeus. Já Patty Smith se queixava num dos seus discos: "You can't say shitt in Radio Free America". Na Europa, salvo casos extremos, quem se choca muda de canal.
O sistema de denúncias é moralista, pidesco e contrário ao espírito europeu da liberdade de expressão. Um retrocesso civilizacional para a Europa. Também com isto nos devíamos indignar. Mas a ironia é que se um dia alguém quiser fazer um movimento contra o Facebook e todas as suas regras o melhor meio que tem ao seu dispor é o próprio Facebook. E é assim que Mark Zuckerberg nos prende na quadratura do círculo.
Manuel Halpern
17:29 Terça, 10 de Janeiro de 2012
Homem do Leme - Homem do Leme: De moral em mural

Homem do Leme: Ena, eles amam-se!

O que levará alguém a escrever uma carta aberta à namorada. Estou certo de que quando o tipo envia publicamente o coraçãozinho nem se lembra que a tia lá do norte está a ver, assim como o colega de trabalho e o pai dela

Sim, sim, vocês amam-se, mas o que é que eu tenho a ver com isso? Os blogues e as redes sociais expõem o privado de forma descarada. Não estou a falar das fotos da malta em biquíni, que isso é com cada um, e apenas reporta o que sazonalmente de passa nas praias. Mas das puras e ternas declarações amor, que abundam no Facebook e nos posts de blogues abertos. Parece que há uma necessidade de assunção pública de algo que pertence tradicionalmente à esfera privada, como se essa 'publicação' de alguma forma a engrandecesse. É verdade que o casamento, instituição fora-de-moda, é precisamente isso: assumir uma relação perante a sociedade. E é por isso mesmo que ganha um tom mais próximo do definitivo, o que faz com que cada vez mais gente opte por uma aparentemente mais ligeira 'união de facto'. Ou seja, para não complicar ou fugir à tradição, escolhem não se assumir da mesma forma perante a sociedade. Eu sempre que me cruzo com uma 'carta', um post, uma mensagem, dedicada a outra pessoa, sinto-me um incomodado. Tenho esse princípio de nunca ler correspondência alheia (seja na forma de uma carta, e-mail ou sms). E não gosto de me sentir forçado a entrar na intimidade dos outros. Esquisitices minhas.
Mas o que levará alguém a escrever uma carta aberta à namorada? Julgo que esta é a questão que se impõe. Quando no Facebook vemos "casado com..." ou "num relacionamento com...", obviamente que tal equivale a usar uma aliança no dedo. Mas quando começamos a ver coraçõezinhos e cançonetas para cá e para lá, facilmente chegamos à conclusão: "Eles não só estão relacionados como também se amam". Poderiam amar-se, claro está, sem que eu soubesse, enviando a canção por e-mail, um coraçãozinho numa carta ou uma caixa de chocolates. Mas por algum estranho motivo querem que eu saiba.
Porquê? É verdade que a declaração pública de amor é sobrevalorizada, como noutros tempos acontecia quando se faziam serenatas. Mas a maioria destes rapazes/senhores/senhoras jamais teria coragem de fazer uma serenata à namorada. Mais uma vez, é o virtual que engana. Como não há uma proximidade efetiva, física, tudo se torna mais fácil. Esquecemo-nos dos outros. Estou certo que quando o tipo envia publicamente o coraçãozinho à namorada nem se lembra que a tia lá do norte está a ver, assim como o colega de trabalho e o pai dela.
 

 

 

Manuel Halpern
13:45 Quarta, 4 de Janeiro de 2012
Homem do Leme - Homem do Leme: Ena, eles amam-se!

Homem do Leme: Próspero é a tua tia

... a não ser que esse Próspero vá no sentido d'A tempestade de Shakespeare

Feliz Natal ainda vá que não vá, porque o Natal é uma festa de família, e estar com a família é sempre bom, mesmo com meio subsídio, meio peru, duas patas de leitão, bacalhau ultracongelado da Iglo e bolo-rei rico em favas. Agora desejarem-nos um próspero ano novo é que já entra no campo da ofensa. É que nem o Belmiro de Azevedo e o Fernando Ulrich esperam que o ano seja próspero, quanto mais os cidadãos comuns. Por isso, este ano, antes de entupirem as caixas dos correios e os telemóveis uns dos outros com mensagens de boas festas, pensem bem no que vão dizer. Talvez: "E um ano novo remediado", "Um bom cá se vai andando 2012", "Um ano pobrete, mas alegrete", "Um 2012 bem poupadinho" ou, como subscreveriam certamente alguns elementos do Governo, "que em 2012 descubra a felicidade na austeridade". Próspero é que não, porque isso vai contra a política do governo, que acredita que a solução para sair da crise está no empobrecimento. E a ironia pode ser bastante ofensiva e mal interpretada. Por isso, como dizia o anterior governante, próspero é a tua tia.
Eu por acaso não tenho nenhuma tia com esse nome. Chamam-se todas Maria. Mas Próspero, sabe-se bem, é a personagem d'A tempestade de Shakespeare. E, no sentido shakespeariano, já faz todo o sentido desejar algo de Próspero para o Ano Novo. É que Portugal, tal como o traído Duque de Milão, foi lançado à tempestade num barco frágil, que naufraga. Próspero e a sua filha Miranda, no entanto, salvaram-se. Foram ter a uma ilha e, graças aos seus poderes mágicos, conseguiu engendrar a vingança conta aqueles que lhe fizeram mal. Mas só que, no fim, Próspero abdica da sua magia, por achar que os governantes e os homens devem estar ao mesmo nível. Ah quanto nós, país, precisávamos de ser Próspero, encontrar uma ilha que nos salve do naufrágio e vingar-nos contra aqueles que nos ficaram com metade do peru: "Vai, incumbe os meus duendes de torce-lhes com secas convulsões todas as juntas, de com cãibras os nervos repuxar-lhes, com beliscões deixando-os mais manchados do que os gatos selvagens e as panteras".  Um Próspero Ano Novo, pois então, que o país já está farto de meter água.
 

Manuel Halpern
19:02 Sexta, 16 de Dezembro de 2011
Homem do Leme - Homem do Leme: Próspero é a tua tia

Homem do Leme: O fado, agora a cores

Eça de Queirós odiava o fado, Camilo desprezava-o, Ramalho Ortigão descrevia-o com desdém e até Pinto de Carvalho, responsável pela primeira História de Fado, não escondeu um olhar decrépito. O fado nasceu assim, música dos guetos, das vielas, estruturalmente pobre, menor e desprezível. O fadista era um rufia de naifa em punho, a fadista uma prostituta. Quem diria que um dia esta "canção de vencidos" se iria tornar património da humanidade?

O fado, agora a cores

"Atenas produziu a escultura, Roma fez o direito, Paris inventou a revolução, a Alemanha achou o misticismo. Lisboa que criou? O Fado. Fatum era um deus do Olimpo; nestes bairros é uma comédia. Tem uma orquestra de guitarras, e uma iluminação de cigarros. Está mobilada com uma enxerga. A cena final é no hospital e na enxovia. O fundo é uma mortalha" (Eça de Queirós).
"[O fadista] vive de expedientes da exploração do próximo. Faz-se sustentar de ordinário por uma mulher pública, que ele espanca sistematicamente. Não tem domicílio. Habita sucessivamente na taberna, na batota, no chinquilho, no bordel ou na esquadra da polícia. Está inteiramente atrofiado pela ociosidade, pelas noitadas, pelo abuso do tabaco e do álcool. É um anémico, um cobarde e um estúpido" (Ramalho Ortigão).
"Ordinariamente, o fadista sabe cantar - com entoação febril e húmida de soluços, olhos quebrados e a inamovível ponta de cigarro soldada ao lábio inferior - os fadinhos docemente articulados sobre um ritmo em que brincam fantasias de espasmos, as pornografias igualitárias das tascas onde o álcool flameja e a embriaguez estrebucha, as obscenidades levadas até à incongruência fétida, as indecências envoltas em palavras doces com suspiros abafados - todas as chulice do reportório escatológico". (Pinto de Carvalho)
Eça de Queirós odiava o fado, Camilo desprezava-o, Ramalho Ortigão descrevia-o com desdém e até Pinto de Carvalho, responsável pela primeira História de Fado, não escondeu um olhar decrépito. O fado nasceu assim, música dos guetos, das vielas, estruturalmente pobre, menor e desprezível. O fadista era um rufia de naifa em punho, a fadista uma prostituta. Quem diria que um dia esta "canção de vencidos" se iria tornar património da humanidade?
Que se desculpem os autores da geração de 70, na altura o fado ainda era a preto-e-branco, por vezes tingido com o vermelho do sangue das zaragatas, nada de que uma pessoa de bem se aproximasse. Com o tempo, o fado ganhou cor. Tomou as cores da república e dos anarco-sindicalistas, e também dos fascistas, dos marialvas e das senhoras lindamente, dos poetas populares e dos eruditos, dos ortodoxos e dos inovadores, dos ricos, dos pobres e dos assim-assim. O fado hoje tem tantas cores quanto aqueles que os cantam e que o ouvem. E agora é património da humanidade. Só é pena não podermos levar à Unesco a nossa dívida externa. Mas havemos de cantá-la.

Manuel Halpern
14:24 Quarta, 30 de Novembro de 2011
Homem do Leme - Homem do Leme: O fado, agora a cores

Homem do Leme: E se o País voasse?

Perante as adversidades o país encolhe-se. Estamos agarrados às paredes de um poço escorregadio e a única consolação, parece ser que alguns já têm a água pelo pescoço e nós ainda pela cintura. E vamos esvaziando os bolsos, para não nos afundarmos com o peso, sem querer inventar uma forma para trepar o poço e chegar de novo à superfície

Nós nunca fomos Europa, mas houve uma vez que tentámos, num gesto quase contranatura e alguns até acreditaram que era possível. Os outros, ainda hoje, vulgarmente, falam da Europa como uma realidade exterior. "Nós e a Europa" em vez de "Nós , Europa". A Espanha também não é Europa. É um enorme braço que nos rodeia e nos sufoca que não nos permite tocar em França que, como se sabe, é onde a Europa começa. É essa claustrofobia, uma periferia extrema que nos caracteriza como povo. Houve um tempo em que, perante esse cerco, entre Espanha e o abismo, escolhemos o abismo. O desespero de causa que nos terá levado a atirar-nos a um mar com ondas de 30 metros só para ver se chegávamos a algum sítio diferente e melhor. Uma loucura de indivíduos desesperados altamente patrocinada pelo Estado. Mas foi quando virámos as costas à Europa que descobrimos o mundo e a coroa tornou-se rica e influente. Esse desenvolvimento não foi assim tão casual, partiu de um investimento sério na ciência e na tecnologia. Portugal, nos séculos XV e XVI, tinha os melhores 'quadros técnicos de navegação' do mundo. E alguns até eram recrutados por outros países, como Fernão de Magalhães, que fez a primeira circum-navegação da Terra ao serviço de Espanha. Mas sem exageros, a coroa portuguesa não deixava os melhores quadros fugir para o estrangeiro, e continuava a investir em ciência, educação e cultura. Portugal durante breves séculos foi um país pobre com uma estratégia e uma ideia de futuro.
O que falta ao Portugal de hoje, agora que do mar voltou a parecer um mostrengo intransponível que nem para a pesca serve, é uma estratégia, um fio de esperança que seja diferente do discurso do primeiro-ministro que apresenta como solução sairmos da crise mais pobres ou do secretário de Estado da Juventude que aconselha os jovens a emigrar. Perante as adversidades o país encolhe-se. Estamos agarrados às paredes de um poço escorregadio e a única consolação, parece ser que alguns já têm a água pelo pescoço e nós ainda pela cintura. E vamos esvaziando os bolsos, para não nos afundarmos com o peso, sem querer inventar uma forma para trepar o poço e chegar de novo à superfície. Enquanto isso escorregamos cada vez mais. Perdemos influência no mundo, fechamos cursos de língua portuguesa, desinvestimos na ciência, cultura e educação, não aprendemos com a História. Destruímos o pouco que conseguimos criar e entregamo-nos à Alemanha como noutros tempos nos entregámos à Inglaterra do Marechal Beresford com o pretexto de nos defendermos dos franceses.
Que saída teríamos agora? As rotas marítimas já estão descobertas e o projeto espacial é dominado pelos grandes. Talvez devêssemos viajar até ao fundo da terra ou ao fundo do mar. Houve um português que inventou um novo aparelho voador, o Passing Clouds, muito apreciado internacionalmente sobretudo pelos movimentos ecológicos. Voa sem recorrer a qualquer combustível, apenas ao sabor do vento. O único problema é que não se pode definir o destino da viagem. Talvez pudéssemos elevar o país num Passing Clouds. Porque Tiago Barros tem razão: O que conta é sair daqui, pouco importa para onde.
Manuel Halpern
15:48 Quarta, 16 de Novembro de 2011
Homem do Leme - Homem do Leme: E se o País voasse?

Homem do Leme: O triunfo dos homens-máquina

O governo parece ser feito de homens-máquinas que têm uma tal obsessão por números que nem conseguem ver o mal que os números fazem ao seu povo. Mas se é uma máquina que nos governa, ao menos que atualizem o software e comprem um melhor antivírus

Segundo uma fonte próxima, a garoupa foi negociada em alta, esta manhã, no Mercado de Arroios, indiferente à procura especulativa de carapau e pescadinhas de rabo na boca. Houve um desaguisado entre duas peixeiras por causa de uma dourada de aquicultura que, indevidamente, estava identificada como oriunda do Atlântico Norte, mas o conflito foi rapidamente sanado sem prejuízos maiores, porque o mercado é feito de gente honesta e civilizada, que veste aventais e cheira a peixe e hortaliça. Falo deste mercado, por oposição aqueloutro de que mais se fala, feito de homens engravatados, que sujam facilmente as mãos, mas jamais o fato. Obviamente, prefiro uma dose bem aviada de petinga a um conjunto de ações do  BCP, até porque as ações não se comem e mesmo assim fazem-me azia. Durante as campanhas eleitorais, Paulo Portas, hoje ministro dos Negócios Estrangeiros, faz a sua romaria pelos mercados de peixe e legumes, mas, uma vez no poder, o discurso de todo o governo é feito a pensar nos outros mercados, onde não se vende qualquer iguaria. Duvido mesmo que os homens engravatados dos mercados tenham paciência para ouvir as declarações de amor que os vários ministros lhes fazem: é nitidamente uma relação não correspondida. Quem ouve e tenta compreender são as pessoas, que escutam como uma conversa entre terceiros, ouvida por trás da porta, mas que lhes diz todo o respeito. Os discursos não falam de pessoas e são assinaladas vitórias estrondosas que nada têm a ver com as gentes, apenas com números. Números e mais números.
O ministro da Economia, também conhecido pelo Álvaro (Álvaro para os jornalistas, Santos Pereira para os amigos), afirmou que tínhamos que reformular a nossa rede de transportes a pensar nas mercadorias. E eu, pela primeira vez na vida, invejei as hortaliças. Pensei: se acabarem com a linha da Beira Interior, eu talvez possa saltar para dentro de um vagão, como se vê nos velhos filmes americanos, e viajar até à Covilhã encostado a um fardo de feno ou coisa assim. É preciso saber saltar na altura certa para não torcer os tornozelos.
Já o outro ministro, Miguel Relvas, o da Presidência, que é demasiado cinzento para ter um nick name, anunciou pomposamente que vai avançar com a alienação de um dos canais da televisão pública, e com isso vai despedir 300 pessoas e com isso poupar aos cofres do Estado uns largos milhares de euros. Quem o ouviu sabe que o tom dado à coisa não foi de uma tragédia social por 300 pessoas ficarem sem emprego, mas sim de uma grande vitória política tendo em vista a salvação do país, que é como quem diz dos mercados.
Os políticos são eleitos para governar para as pessoas, só que às vezes esquecem-se. Anteriormente talvez também se esquecessem, mas disfarçavam bastante melhor. Agora já não querem saber. O discurso é tão desumanizado quanto as políticas que tomam. Chamam-lhe, por isso, política da verdade, porque as mentiras são foram ditas durante a Campanha Eleitoral. O governo parece ser feito de homens-máquinas que têm uma tal obsessão por números que nem conseguem ver o mal que os números fazem ao seu povo. Mas se é uma máquina que nos governa, ao menos que atualizem o software e comprem um melhor antivírus.
Manuel Halpern
19:12 Quinta, 3 de Novembro de 2011
Homem do Leme - Homem do Leme: O triunfo dos homens-máquina

Homem do Leme: Telecomanda-te

Eu fui o primeiro telecomando da minha casa. Um comando com pernas, braços e agilidade nos dedos, que nem precisava de pilhas.

Eu fui o primeiro telecomando da minha casa. Um comando com pernas, braços e agilidade nos dedos, que nem precisava de pilhas. Como era o mais novo, os meus irmãos ordenavam: "Muda para o 2". E eu levantava-me e carregava no botão. Os televisores chegavam a ter 12 botões, mas só dois serviam para alguma coisa. Um dia, em casa do meu avô, usei a minha condição de telecomando para fazer zapping (embora na altura a palavra ainda não existisse, aliás usavam-se menos palavras inglesa, apesar de se dizer offside em vez de fora-de-jogo). O que eu fiz foi, com alguma genica na ponta dos dedos, alternar rapidamente entre o primeiro e o segundo canal. O meu avô zangou-se comigo, com razão, dizendo que aquilo estragava o televisor. Mas ainda assim eu não resisti e carreguei nos dois botões ao mesmo tempo só para ver o que acontecia. O ecrã não ficou dividido como no Dallas, fixou apenas a RTP1.
Quando as televisões passaram a ter telecomando com pilhas e tudo, o número de canais já tinha aumentado. A posse do comando tornou-se uma demonstração de poder, ostentada, normalmente, pelo chefe-de-família. O zapping, um frenesim, como se as pessoas ficassem permanentemente em stress por, ao optarem por ver um programa, perderem todos os outros. A filosofia do zapping compulsivo era: "Não é possível ver todos os canais ao mesmo tempo, mas há que tentar". E com o treino, alguns zappers mais empenhados, conseguiam fixar o essencial de vários, aproveitando a previsibilidade da própria televisão: pouco ou nada se perde em ver a telenovela e o concurso aos soluços.
O zapping tornou ver televisão um ato mais individualista, porque é impossível ver o que quer que seja ao lado de alguém que tenha esse tique nervoso no dedo. E talvez seja essa questão do poder, a disputa pelo telecomando que tenha levado, ou pelo menos ajudado, à proliferação de televisores pela casa na média e alta burguesia: uma televisão na sala, outra na cozinha, outra no quarto do miúdo. Deu-se um progressivo isolamento de uma atividade que, na sua origem, era tendencialmente coletiva.
Com aparecimento de 99 novos canais, o zapping perdeu fulgor. E a maioria das pessoas anda sempre à volta dos mesmos cinco. Os miúdos é que já não estão ali na sala. A televisão interessa-lhes pouco. Estão a navegar na internet, a palrar no facebook, a ver vídeos do youtube e a fazer downloads ilegais.
Manuel Halpern
12:58 Sexta, 21 de Outubro de 2011
Homem do Leme - Homem do Leme: Telecomanda-te

Homem do Leme: Esta cena do Vício

Estar viciado no Facebook significa estar viciado nos outros, um vício a que só se escapam os eremitas

Eu sei que preciso de café, porque, todas as manhãs, enquanto não tomo o primeiro, sinto um peso na cabeça que me empurra até ao chão. E faz com que o mundo rode descontrolado, ora mais lento ora mais rápido, mas nunca na minha velocidade. Enquanto eu não bebo café, os outros ficam desnorteados, que nem baratas tontas, atropelam-se à minha frente, fazem perguntas estúpidas ou calam-se de propósito, só para me irritar. Por isso eu bebo café. Talvez seja um vício.
Eu sei que não preciso do Facebook, porque enquanto não abro o computador e digito a morada nada de especial me acontece. Não tenho calafrios nem tiques nervosos, a cabeça não pesa e o mundo, bem ou mal, continua a rodar na mesma direção. Mas até já aconteceu passar alguns dias sem ir ao Facebook sem qualquer alteração taquicárdica relevante. Contudo vou quase todos os dias ao Facebook. Descobri uma imagem, com alguma graça, em que o símbolo da rede social era desenhado em cocaína. É legitimo colocar-me a questão: estarei viciado?
Quis explorar mais um pouco esta questão. Sobretudo porque há uma coisa que me faz confusão: a minha tia sempre falou horas ao telefone e eu nunca ouvi ninguém dizer que ela era viciada em telefonemas. A minha avó escrevia inúmeras cartas, mas nunca ninguém sugeriu que se desintoxicasse do papel e da caneta. E o meu avô, tal como eu e centenas de milhares de pessoas, era 'viciado' em jornais, sendo que, ao longo da vida, gastou largas dezenas de contos a consumir aqueles papéis dobrados aparentemente inúteis, sem que ninguém o acusasse de vicioso.  
Procurei definições no dicionário, e apercebi-me que a palavra vício em aceções suficientes para abranger quase tudo. Mas, em geral, é usada como algo de nocivo, recorrente, irresistível e supérfluo.  Fumar é um vício, mas comer é uma necessidade, claro está. Porque comer é algo corrente e irresistível, mas não será nocivo nem supérfluo.
Parece-me que vários meios tecnológicos se podem tornar viciantes, o mais frequentemente apontado é o dos videojogos, porque consomem demasiado tempo a demasiados adolescentes. Mas nunca ouvi ninguém preocupar-se com o vício da leitura, apesar de poder provocar dificuldades de sociabilização semelhantes ou maiores. As redes sociais talvez possam ter alguns desses traços, tudo depende do uso que se lhes dá,. Mas tratando-se, acima de tudo, num meio de comunicação, estar viciado no Facebook significa estar viciado nos outros. Um vício a que só se escapam os eremitas. Esses estão viciados em si próprios, o que talvez seja uma doença muito mais grave.
Manuel Halpern
16:26 Quinta, 6 de Outubro de 2011
Homem do Leme - Homem do Leme: Esta cena do Vício

Homem do Leme: Este filme cheira a peixe

Não há uma arte verdadeiramente dedicada ao olfato e só com boa vontade se pode considerar que a Escultura junta a visão e o tato, e que a gastronomia é a arte do paladar

"Na essência de qualquer bom perfume há sempre qualquer coisa que fede", a ideia é de Brian Eno, um dos maiores músicos do século XX, após meses com o nariz enfiado em frascos. As subtilezas do olfato só estão acessíveis aos mais dotados. Os outros só se apercebem quando o vizinho faz uma sardinhada, quando o carburador do carro avaria, quando o vinho se avinagra. Não há um subtexto no olfato, a não ser para narizes e escanções, que se debruçam sobre produtos muito específicos e descrevem-nos com atributos misteriosos que normalmente aplicamos ao paladar. Cheira-nos a queijo, mas não nos apercebemos através do faro que o queijo está numa tábua de madeira. E é por isso que não há arte que se cheire. Ao longo dos tempos, as artes destinam-se apenas a dois sentidos - visão e audição - sendo que este último, em estado puro, menos frequente. Cada vez mais a música é algo que também se vê - começou com os telediscos da MTV e intensificou-se com os vídeos do youtube.
Não há uma arte verdadeiramente dedicada ao olfato e só com boa vontade se pode considerar que a Escultura junta a visão e o tato, e que a gastronomia é a arte do paladar. Ouvimos e vemos e, mais do que nunca, 'ouvemos'. O cinema, que é por excelência uma arte aglutinadora e sintética, dá os primeiros passos na busca de novos elementos. Tal já tinha sido feito em salas Imax, com condições especiais para novas sensações, mas agora chega, pela primeira, a salas comerciais portuguesas o 4D. Esta quarta dimensão é mesmo o olfato. O filme escolhido, Spy Kids, estou em crer que não deve cheirar lá muito bem. Mas satisfaz a curiosidade de testar o chamado aromoscope, que vai libertando odores condizentes com as imagens. É claro que Spy Kids não será arte. E a ferramenta só terá utilidade para além da experiência sensorial, quando ganhar uma dimensão que ultrapasse o ilustrativo. Se uma flor a cheirar a presunto provocar o riso na audiência. Rir-nos-emos então pelo que cheiramos, o que será uma experiência inédita para todos aqueles que não consomem cocaína.
Esta ferramenta traz alguns perigos. Há filmes que não desejamos cheirar nem por nada. Imagine-se o odor pesado de Leaving Las Vegas. Nesse caso, para ter uma experiência multissensorial aconselha-se antes a ter uma garrafa de uísque ao lado da cadeira e emborcar sempre que Nicholas Cage o fizer. Lá para o final, certamente que o filme não terá apenas quatro dimensões, mas para aí umas sete ou oito. E nem precisa de óculos
Manuel Halpern
9:31 Quarta, 28 de Setembro de 2011
Homem do Leme - Homem do Leme: Este filme cheira a peixe
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