"Nada dói, nada ofende, nada magoa. Beijar o sol na boca, abraçar os limos, tocar no ar que nos atravessa a garganta. Casas lá para trás, tão longe."
10:56 Quinta, 22 de Outubro de 2009
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As gaivotas pequeninas regressaram à foz do Douro, há sol outra vez, estamos na muralha a olhá-las. Desta feita nunca mais desaparecerão dos penedos de que mal se distinguem e mesmo que o mar as leve permanecerão ali. Tentei matá-las e resistiram, tentei esquecê-las e não as perdi nunca. Passaram todo este tempo dentro de mim, à espera que as devolvessem ao lugar que é o seu, lá em baixo na salsugem. Tonto de sol vejo-as caminhar, perco-as, recupero-as, não se vão embora: existem para sempre, como um testemunho escrito a sangue na carne, um nome que não se apaga, uma presença infinita. Não crescerão: quero-as assim, depois de tanta tempestade interior, tanta cobardia, tanto medo. Nenhuma névoa, nenhum medo já: as palmeiras e as gaivotas pequeninas chegam-me como penhor. As pessoas na esplanada do restaurante nem as vêem: ocupam-se a comer, a conversar, não as conhecem, não dão por elas sequer. E que paz de silêncio no interior das ondas, que fervor de alegria. Cheguei. Finalmente cheguei. Quase sem palavras e sem gestos porque as palavras e os gestos inúteis: basta este simples milagre, esta pureza silenciosa, este fervor de alegria. Tudo tão fácil, afinal, quando se olha o mundo de frente, que evidência tão clara. As mãos no rebordo nem precisam tocar-se para que a viagem comece. Basta esta proximidade, este rumoroso silêncio, o vento: as gaivotas pequeninas na foz do Douro sabem-no, não brancas, cinzentas e o cinzento mais branco que qualquer outro branco, uma exaltação mais funda que a do corpo, tatuado de unhas ao comprido da tarde, braços em cruz de dedos cravados nas almofadas, olhos de pura água que se abrem devagar, um sangue vivo que canta. Não há dia mais dia que este dia, não há noite mais noite que esta noite, e as gaivotas pequeninas na dobra do lençol. Nada dói, nada ofende, nada magoa. Beijar o sol na boca, abraçar os limos, tocar no ar que nos atravessa a garganta. Casas lá para trás, tão longe. As pessoas na esplanada longíssimo também: só as gaivotas pequeninas perto, só este sol, este vento, o escapulário já sem imagens que trago no pescoço. Caminha-se, sem peso, na luz, nem sequer é necessário reinventar o mundo: permaneceu ali desde sempre, à espera. Agora tenho-o fechado na mão, a minha vida pertence-me, não tornam a roubar-ma. Um automóvel debaixo de uma ponte, à espera, a doce violência de um sorriso, tudo, ao mesmo tempo, lento e rápido, o milagre das línguas, o umbigo prateado.
- O meu irmão diz que tenho unhas de puta
e, meu Deus, o que as unhas de puta conseguem. A ferida da ausência até ao osso:
- Como é que estás vestida?
- Ténis pretos, calças pretas, camisola preta
- Como é que estás vestida?
- De toga no alto das escadas
E, por baixo da toga, gaivotas pequeninas, o mar da foz do Douro, os penedos, a mulher, com duas canas de pesca enterradas na areia, a limpar a praia.
- Adoro as tuas unhas de puta
como adoro a cabeça de perfil e os olhos fechados, o modo de dizer
- Minha riqueza
os dentes no meu ombro. Tudo treme no vento e se refaz, tudo se desarticula na água e permanece inteiro, os teus pés descalços nos pedais do carro, os calcanhares, um após outro, no apoio do lavatório para o creme das pernas, os pontinhos brancos que distribuis pela cara antes de os espalhar, o secador levantando o cabelo molhado, o modo de apertar o soutien nas costas numa habilidade de contorcionista, o nariz franzido vasculhando o frigorifico, uma joaninha num ramo de rosas, o modo rápido de lidar com os objectos e nisto, de repente, a surpresa de uma ternura vagarosa, ávida, os bicos do peito a crescerem, a mansa ferocidade dos dentes.
As gaivotas pequeninas regressaram à foz do Douro, há sol outra vez, estamos na muralha a olhá-las. Desta feita nunca mais desaparecerão dos penedos.
Tão fácil quando se olha o mundo de frente. Tão fácil quando temos um olhar de paz.
Entre a areia fina...a falésia...entre voos poisarei para descansar e meditar de novo neste texto maravilhoso que repartiu connosco leitores. Depois voltarei a voar... na procura do meu caminho, não sem antes olhar o azul do mar.
Parabéns Dr. Lobo Antunes pela reflexão que me proporcionou com o seu texto.
e o seu texto pequenino como as suas gaivotas pequeninas e mesmo assim maiores que o mundo metido na mão e... a voar também nesse olhar para a frente que nos trás o tempo...
gosto muito "tatuado de unhas ao comprido da tarde"
do que gosto é da subversão da retórica enfadonha da gaivota de Lisboa, sempre a voar, a voar, na corda esticada da guitarra pendurada numa nostalgia de poesia barata e sentimentalona
gosto portanto da gaivota pequenina
e gosto que não voe, pousada na rocha preta
e que o que voa é
a nossa cabeça porque ela continua lá mesmo depois de partir
e gosto mais ainda
de partir daí dessa rocha
para os lençóis
e do modo como nos lençóis e no quarto a gaivota é outra
e é outra que só um homem pode compreender
um homem de mulheres
isto é
um homem que gosta de mulheres
o que quer dizer que não é nem um marido, nem um touro, nem um campeão do bíceps
e portanto
obrigado irmão
estamos juntos
como se diz em Bissau
Como vai o corpo?
Simplesmente olhando o voo das gaivotas pequeninas... "quero-as assim depois de tanta tempestade interior".
Bem-haja pela paz que o seu texto transmite.
Sara
Ao contrario do Dt, não as vejo há muito tempo !
Nem a ela ! É claro falo das gaivotas e, da Foz, no entanto trago-as no coração e, no pensamento, maguádo pela saudade, pela ausência, daquele lugar tão belo.
Mas em compensação viajo até lá em cada linha do texto
Sorte a sua Dt em vê-las, eu penso que não mais as vou ver lá e, agora peço-lhe que quando lá voltar as veja com os meus olhos ausentes e, diga-lhes que as nâo esqueci.
Obrigada, muito obrigada por tudo quanto escreve.
Há muito que não vinha aqui, pelo simples facto de não ter computador pois oo meu já cansado desistiu, penso voltar enquanto há-ja boa vontade do propeatário deste que por sinal como o outro e, eu cansados estamos.
Obrigada Dtr.
Engraçado!.. feho os olhos e consigo vêr as suas gaivotas pequeninas nas rochas da Foz do Douro que eu tão bém conheço .Bém haja, pela sua capacidade de me despertar este sentimento de paz.
Onda da noite___ duas conchas juntas isoladas
acorrem nas altas correntes aos rochedos.
e depois, coroa e púrpura juntas perdidas,
a branca pérola de novo rebola para o mar .