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Gestão de Fraude

Fraude - Da necessidade de "passar das palavras às acções"

Mais uma crónica da secção Gestão de Fraude, desta vez da autoria de Pedro Santos Moura

10:08 Quinta, 25 de Fevereiro de 2010
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Fraude - Da necessidade de "passar das palavras às acções"
  • "Embora o número seja significativo em si mesmo [um custo de 30 biliões de libras com a fraude no Reino Unido, 2008], revelando inequivocamente que a fraude é um problema grave no Reino Unido, ele tem um significado mais amplo. Permite à comunidade que luta contra a fraude, orientados pela National Fraud Strategy, estabelecer adequadamente os seus objectivos no combate à fraude. Sinaliza tendências da fraude e seus pontos nevrálgicos, ao mesmo tempo que é uma referência para se medir o sucesso. Aquele número também alerta a indústria e o governo para a necessidade de investir os recursos adequados para combater um crime que afecta profundamente os sectores público e privado e os indivíduos" (Dr. Bernard Herdan, NFA Chief Executive, in NFA Annual Fraud Indicator 2010)

Na abordagem a problemas ou questões sérias, há diferenças fundamentais na atitude que seres humanos (ou entidades colectivas, como empresas ou estados) assumem. Fundamentais porque definem, a longo prazo, a capacidade obtenção de sucesso na resolução destes problemas e questões.

Destas diferenças, uma das mais influentes e marcantes é a capacidade de passagem efectiva da fase "política" para a fase "prática". Ou seja, da identificação e reconhecimento do problema e da sua gravidade, para a definição, execução e acompanhamento de planos concretos de acção. Em linguagem comum, o "passar das palavras aos actos".

Outra das principais diferenças de abordagem a matérias de importância é a capacidade de quantificar a dimensão quer do problema, quer dos resultados progressivamente atingidos. Mais uma vez trata-se de sair do campo das "ideias" ou "discurso político", para a arena concreta da "realidade".

Estes são, para mim, pensamentos de longa data, que vou recorrentemente observando e comprovando nas atitudes que nos rodeiam (e mesmo nas nossas).

Instanciando esta linha de raciocínio (portanto, saindo do plano das "ideias"), estes pensamentos voltaram ao meu teatro mental com a leitura de um relatório recente (Janeiro 2010) emitido pela National Fraud Authority (NFA) do Reino Unido [http://www.attorneygeneral.gov.uk/nfa/] , de seu título Annual Fraud Indicator [NFA Annual Fraud Indicator 2010]. Este relatório multi-sectorial é o resultado de um esforço concreto de combate e quantificação dos fenómenos de fraude.

Entre outros factos apresentados neste relatório, inclui-se uma estimativa do impacto financeiro total de fraude no Reino Unido: 30 Mil Milhões de Libras (cerca de 35 Mil Milhões de Euros), o que representa um custo, por cada habitante (homem, mulher, criança, pensionista, empregado, desempregado, etc.) de 621 Libras (cerca de 715€) por ano! Mais não seja, esta estimativa (porque é de uma estimativa que se trata) tem o condão de despertar governantes e governados para na necessidade da existência de uma abordagem séria, pragmática e actuante sobre este problema.

Breakdown of Fraud Losses (UK, 2008), in NFA Annual Fraud Indicator
Breakdown of Fraud Losses (UK, 2008), in NFA Annual Fraud Indicator

Por importante que possa ser (e é!) esta quantificação dos valores de fraude, a abordagem do Reino Unido à fraude é tudo menos uma declaração de intenções. Uma incursão breve pelo site do NFS, ou uma leitura do Annual Fraud Indicator permitem obter uma percepção da seriedade, profissionalismo e resultados alcançados neste país neste campo.

Reatando as ideias expostas no princípio deste texto, e comparando, por mero exemplo, a abordagem seguida no Reino Unido com a de Portugal, eu diria que há ainda por cá muito a fazer no que toca a "passar das palavras às acções" no que à fraude diz respeito. À unanimidade popular e dos responsáveis pelo estado e por empresas acerca do problema da fraude (mas quão grande o problema?), seguem-se geralmente declarações de intenção, promessas legislativas, implementação de programas de combate à fraude cujo principal fito é aparecerem citados em relatórios de contas, etc., etc. Todos estão de acordo com o problema, mas, muito "portuguesmente", na hora de arregaçar mangas e mudar de atitude, poucos têm a real vontade e capacidade de sair da sua esfera de conforto e participar efectivamente.

Embora pareça este último parágrafo um pouco negativo (há nele algo de desabafo, confesso), e pesando a enorme distância que ainda temos de atravessar para podermos chegar ao estado de maturidade no tratamento do problema da fraude em que, penso, todos gostaríamos de estar, tal não é nem impossível, nem impraticável. Quem quer realmente mudar acha nessa vontade a motivação para ultrapassar as barreiras pessoais e contextuais que os possam impedir.

E, no final de contas, quem sabe o significado do conceito Custo de Oportunidade (o que se perde por se ter feito uma opção), sente fortemente que ficar sentado à espera dos amanhãs que cantam não é propriamente a melhor decisão racional a tomar.

Concluindo, e mais concretamente, julgo que já seria altura de existir um esforço que parta do topo do estado e do tecido empresarial, no sentido de pensar, planear e actuar para combater o fenómeno de fraude. Não faria sentido a existência de uma NFA português? Felizmente o Observatório de Gestão e Economia de Fraude (OBEGEF) já existe, mas sem real poder actuante. Nem é esse o seu intuito e missão. Porque não passar concretamente da discussão legislativa em torno da corrupção (que penso ninguém realmente percebe muito bem de onde vem ou para onde vai.) para medidas mais concretas e eficazes? Mais uma vez sugiro uma leitura dos documentos que refiro neste texto, bem como uma vistoria sobre o que no Reino Unido se faz para combater a fraude. É matéria de interesse, e que deveria inspirar as entidades responsáveis no sentido da acção.

 

Palavras-chave  gestão de fraude, crónica
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National Fraud Authority
Santos (seguir utilizador), 1 ponto , 10:18 | Segunda, 1 de Março de 2010
A existência em Portugal de uma instituição como a National Fraud Authority no Reino Unido seria importante desde que cumprisse algumas regras: (a) Como se diz na crónica, fosse mais para trabalhar do que para dar espectáculo; (b) Funcionasse em rede, aberto a todas as cooperações, com recursos humanos e financeiros adequados; (c) Logo não fosse burocratizado e também não fosse local de emprego de amigos; (d) Fosse interdisciplinar.
Um tal organismo poderia influenciar a "sociedade civil", fundamentalmente pelo exemplo, promovendo a sensibilização e trazendo para a opinião pública a problemática da fraude (em sentido lato).
O Oservatório de Economia e Gestão de Fraude não pode ser esse organismo. Pode, e está disponível e preparado, colaborar. E também poderia ter outros apoios (de informação, de colaboração, de recursos financeiros)
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