Obrigaram-me a cheirá-lo. O perfume verde-claro, que poderia ser de água, se fosse límpido e gracioso, tresanda a doença, a velhice e a acidez. O seu odor é tão intenso que o respirei com dificuldade, fazendo aproximações curtas, repetidas três vezes, salvo erro.
Não sei bem como explicar, mas se fosse menos presente, talvez pudesse ser mais agradável, como o cheiro a rapé, que o meu avô do Tanque (o pai do meu pai) usava, e que eu observava curiosa, em criança.
Eu gostava desse cheiro. Tenho saudades de senti-lo. Lembra-me coisas ternas e uma infância querida. É o cheiro do meu avô, que recordo de fato escuro, de semblante absorto e que, por vezes, se iluminava para mim, chamando-me "bichana", puxando-me (mais do que acariciando) os cabelos compridos.
Tenho saudades do meu avô, gostava de tê-lo conhecido melhor. Tenho saudades do meu avô (o pai da minha mãe), gostava de tê-lo conhecido melhor. Tenho saudades da minha avó, a Candinha do Tanque (a mãe do meu pai), frágil, pequena, mas sempre cheia de amor pelos netos. Tenho saudades da minha avó (a mãe da minha mãe), que não cheguei a conhecer e de quem também gostaria de ter sensações odoríficas.
Tenho saudades do meu pai, de quem me sinto órfã, ainda e sempre.
Tenho saudades da minha tia querida (irmã benjamina da minha mãe), que eu tanto adorava, e que Deus retirou do mundo a meio da sua vida...