Sócrates faz-se à campanha como se disso dependesse a sua reeleição. O teleponto ficou em Lisboa
Paulo Pena, no Alto Alentejo
16:24 Segunda, 21 de Setembro de 2009
Partilhe este artigo:
Gonçalo Rosa da Silva
O que se vê no palco, bem no meio da plateia, é um homem que sua a camisa. São 22 horas e, no pavilhão da escola Severim Faria, em Évora, estão reunidas as condições para um contágio de Gripe A.
Centenas de pessoas disputam centímetros quadrados. A sala não tem janelas e vai retendo a respiração colectiva, até que o ar se torna quente e húmido, como um banho turco.
Passam poucos minutos e a camisa azul clara do primeiro-ministro já escureceu, no peito e nas axilas. As televisões fazem directos, enquanto Sócrates limpa a testa. Ele enumera os feitos. E o esforço sai-lhe em gotas pesadas. Elogia o facto de Portugal ser, para a OCDE, "o terceiro país que mais cresceu no investimento em Ciência"... E nem um aparelho de ar condicionado há para amostra, nesta sala. Orgulha-se de ter cumprido, pela primeira vez, no País, a meta de haver "35% dos jovens com menos de 20 anos a frequentar o ensino superior". E os jovens socialistas dão uso aos abanicos verdes e vermelhos que se revelam, pela primeira vez nesta ocasião, um contributo indispensável do marketing eleitoral para a vida de seres humanos. "Avançar Portugal", está lá escrito. E José Sócrates sublinha que, erros à parte, o Governo não teve "a cobardia de nada fazer".
Imaginava-se que a vitória não a traria um vendaval.
Mas não se contava que o candidato socialista tivesse de suar as estopinhas para discutir o resultado.
GRÃO A GRÃO
No primeiro dia oficial de campanha, Sócrates rumou ao círculo que lhe deu a maior percentagem de votos, 73%, há quatro anos: Mosteiros, uma das três freguesias do concelho raiano de Arronches.
Em Mosteiros, terra de 700 almas, valha o desemprego-zero para compensar a distância a que fica tudo (menos Espanha...) e a ausência de sinais do "choque tecnológico" que, em Évora, José Sócrates tentará mostrar que cumpriu.
Substitua-se o simbólico pelo pragmático, e chega-se à conclusão de que, nos dois distritos que escolheu para iniciar a corrida à reeleição estão em disputa 250 mil votos, e cinco deputados. Desses, na melhor das hipóteses (quase irrealista, segundo as sondagens), três serão do PS.
"O nosso primeiro-ministro tem muito que admirar/ Tem feito muito pelo País/ Por isso vamos ganhar." Uma voz de mulher irrompe, algumas oitavas acima do cânone, na Praça da República de Portalegre.
Sócrates sai entre abraços, beijos de crianças e palmas de mulheres em correria.
Está a mostrar, aqui, que luta corpo a corpo. Grão a grão.
Em Évora, à noite, Sócrates sai de um Audi cinzento e passa, apressado, pelos cerca de 15 enfermeiros que montam guarda à porta do comício, sem lhes dar tempo para desenrolar as faixas que dizem "Os enfermeiros não votam PS". Apenas um lhe estende a mão e, com pronúncia alentejana, lança um "Senhor primeiro-ministro, porque não valoriza os enfermeiros?" Sócrates já não ouve o lamento. Mas, no final do comício, as faixas dos enfermeiros estarão desfraldadas. Depois da saída do primeiro-ministro, ficarão, cada um do seu lado da estrada, dois grupos. Os apoiantes do PS e os enfermeiros. Os pró e contra.
Exibindo uma estranha coreografia de bandeiras e faixas.
>> 20 minutos
É a duração, média, de uma intervenção de Sócrates, em comício. Os temas vão da ciência e da educação à defesa do investimento público e do Estado social.