Texto Publicado no JL-Papel no Dossiê Espionagem, a convite (que muito se agradece) da Maria João Martins. Uma daqueles textos para sair da habitual zona confortável Uma Obra-Um Texto e que, sobretudo, dá um pretexto para ler muita coisa que sempre se quis ler, mas nunca se teve oportunidade. Uma constatação óbvia: o "mainstream" fraco-belga mantem uma vitalidade impressionante, desde o mais óbvio-comercial a obras muito inventivas, passando por cópias e pastiches televisivos mais ou menos descarados.
13:11 Quinta, 2 de Setembro de 2010
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SEGREDOS AO QUADRADO
Usar um género para falar de uma linguagem é sempre arriscado, no sentido em que as fórmulas, espectativas e clichés do primeiro podem contaminar as potencialidades da segunda. Mas só cai em clichés quem quer. Ou seja, assim como há "westerns" ou policiais, reconhecíveis enquanto tal mas que depois partem em tangentes diversas, o mesmo se passa com histórias de espionagem. Com a vantagem de nestas últimas existirem elementos que podem ser combinados. Desde logo de que tipo de espionagem estamos a falar (política, militar, industrial), e qual a época. Depois que, como é raro (porque contraprodutivo) dar importância idêntica a tudo, quais são os segredos que os autores consideraram mais importantes? Finalmente, registe-se a possibilidade de mistura, visível desde logo num dos primeiros exemplos famosos em banda desenhada, a tira para jornais norte-americana Secret Agent X-9 (mais tarde Secret Agent Corrigan). Iniciada em 1934 com desenho de Alex Raymond as histórias misturavam espionagem com narrativas policiais, a que não será estranho ter sido Dashiell Hammet o primeiro argumentista (embora a sua participação efectiva seja dúbia). Mais tarde a tira inglesa Modesty Blaise (criada em 1963 por Peter O'Donnell, com desenho de Jim Holdaway) seguiria a estratégia de James Bond-007 (criada dez anos antes, e que teria também adaptações a BD) acrescentando a novidade de uma protagonista feminina a elementos de ação e aventura em locais exóticos que se tornam muitas vezes mais importantes do que a missão em si.
Essa mescla de elementos é pois comum, com destaque para a BD francófona, onde é muito fácil encontrar (muitos) exemplos. Blake & Mortimer (criada em 1946 e, tal como 007, transformada em "franchising" após a morte do criador) tem uma base de espionagem, mas nenhum entusiasta a reduziria a isso, referindo a História e a Ficção Científica como elementos incontornáveis. Citando Edgar P. Jacobs, e com argumentos mais credíveis (sim, eram outros tempos...), Sir Arthur Benton (argumento de Tarek, desenhos de Perger e Pompetti, iniciada em 2005), ou Les Aventures deKaplan et Masson (Convard e Thibert, 2009) capturam bem alguma dessa mística, mormente do ponto de vista histórico, da ascenção do nazismo à Guerra Fria. Num tom assumidamente "retro" Victor Sackville (Rivière e Borille, desenho de Francis Carin, 1985-2008), passado no dealbar da 1ª Guerra Mundial, ou Raj (Wilbur e Conrad, 2007), na Índia britânica do Século XIX, são outras séries a referir neste contexto. Com um tom mais humor (negro), Conrad já antes tinha realizado (com argumento de Yann, 1980) Les Innommables, uma série passada no Oriente e misturando espionagem, política e exotismo com histórias mais pessoais, seguindo-se em 2005 a prequela Tigresse blanche protagonizada pela agente maoista de Les Innommables, e onde surge um tal Francis "Flake".
Um ponto crucial na narrativas de espionagem é ninguém ser o que parece. Parte do fascínio recente relaciona-se com a descoberta de agentes russos infiltrados nos EUA (e rumores constantes sobre chineses, norte-coreanos, israelitas... e extremistas locais) vivendo vidas inventadas. O facto do próprio protagonista também não saber quem é estimula a saga XIII (Jean Van Hamme e William Vance, 1984-2007) onde preponderam os elementos conspirativos e de "thriller". Situada nos EUA e "inspirada" em Robert Ludlum (nomeadamente The Bourne Identity), XIII gere com maestria uma intriga complexa com múltiplas personagens, supresas, volte faces e volte-volte-faces, tocando distintos pontos da mitologia obscura americana, do assassínio de Kennedy às guerras "sujas". XIII alongou-se, vítima do seu próprio sucesso, mas o argumentista Van Hamme propaga a fórmula nas séries Largo Winch (adaptando os seus próprios romances e com desenho de Francq, 1990) onde se foca a alta finança, e Lady S. (com Aymond, 2004), a sua série de espionagem mais "pura" (com um episódio passado em Portugal: Salade Portugaise, 2009). Se Van Hamme é um dos mais eficazes "hacks" da BD franco-belga em termos de gerir narrativas e manter o interesse do leitor, Stephen Desberg ou Jean Dufaux são outros nomes a ter em conta. Do segundo destaque para Niklos Koda (desenho de Grenson, 1999), que junta tons de feitiçaria e misticismo oriental. De Desberg Black OP (desenho de Labiano, 2005) mistura com interesse a máfia com a Guerra Fria, e IR$ (desenho de Vrancken, 1999) segue o dinheiro, do ouro roubado pelos nazis às contas do Vaticano. E há muitas outras séries a descobrir como Alpha, Oukase, Les Ailes de Plomb, Le Village, Tatiana K., La Guerre secrète de l'espace,L'Agence, Liste 66,Mandrill, Égide (situada em África)... Ou Ghost Money (Smolderen e Bertail, 2008), com a particularidade desta se passar em 2020 tendo como referência o pós 11 de Setembro. E por vezes há a oportunidade de conhecer histórias de grandes espiões menos conhecidos, como o russo Richard Sorge (L'Espion de Stalin, de Isabel Kreitz, 2010).
Mas não se pode sair da Guerra Fria sem citar o prodigioso Partie de Chasse/A Caçada de Enki Bilal e Pierre Christin (1983) onde um evento anódino serve de pretexto para retratar toda a história política, espionagem e luta de influências dentro do Pacto de Varsóvia, preconizando a sua queda. Mais recentemente Christin cria com André Juillard (num tom menos frio do que é regra em Bilal) Le long voyage de Léna (2006) e Léna et les Trois Femmes (2009), onde prossegue o seu retrato geopolítico baseado na corporização de uma era em persongens/testemunhas fortes, mas com muitas dúvidas.
Se muitas das histórias referidas se passam ou envolvem os EUA, não há assim tantos exemplos de BDs de espionagem norte-americanas. Depois de X-9 um caso muito curioso são as histórias de Jerry Siegel e Joe Schuster (entre outros) para Spy, publicadas na revista Detective Comics no final dos anos 1930, e onde, apesar de algum primarismo, Siegel tenta subverter as espectativas do género. Contemporaneamente obras como Queen & Country (escrita por Greg Rucka, e curiosamente baseado numa série de TV inglesa) valem a pena, mas o problema na BD norte-americana reside na personagem principal criada por Siegel e Schuster: Superman; ou seja na ascenção da BD de superheróis. Mas, tal como muitas histórias de superheróis são, na verdade, (bons) policiais (veja-se o trabalho de Ed Brubaker), algumas narrativas de espionagem fazem o mesmo, um género dentro de outro, sobretudo com a Guerra Fria. É por aí que se re-inventa o não-bem superherói Nick Fury ou, numa era de Acrónimos Grandiosos, surge a agência S.H.I.E.L.D. (Criada por Lee e Kirby em 1963) ou The Suicide Squad, interessante sobretudo na segunda "encarnação" (por John Ostrander, mais tarde Keith Giffen), onde supervilões são contratados para fazerem de "bons".
A terminar, o facto de se falar aqui sobretudo de BD ocidental significa a inevitabilidade de um ponto de vista enviesado em termos de posicionamento. Mesmo quando se tenta ir um pouco mais além há limites para uma ligação aos "Outros", quem quer que sejam. De qualquer modo, embora as narrativas de espionagem possam ser bizantinas, a essência do género (e da Guerra Fria) é capturada na perfeição pelo cubano (exilado nos EUA) Antonio Prohías na tira Spy vs. Spy (publicada na revista MAD desde 1961). Nas curtas histórias mudas os carticaturalmente sinistros adversários Branco e Negro (iguais, fora a cor das respectivas indumentárias) provam repetidas vezes a sua equivalência em termos de truques, traições, engenho e fragilidades. Quer se tome o partido de um sobre o outro, ou se considerem ambos equivalentes, a complexidade das narrativas de espionagem é construída sobre esta base comum.