Segunda crónica da enviada especial da VISÃO ao Haiti
Patrícia Fonseca, Enviada Especial ao Haiti
10:04 Terça, 19 de Janeiro de 2010
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Numa cidade arrasada, sem abastecimento de água, telecomunicações e electricidade, o ciclo de vida da população de Port-au-Prince faz-se ao ritmo da luz do sol. Às cinco da manhã já há um corrupio de gente nas ruas, em busca de comida e de água. Às seis da tarde todos se acantonam nos campos de refugiados, tentando fechar os olhos e esquecer o inferno em que se tornou a sua vida.
"Já não posso dizer algo tão simples como 'vou para casa'", constata, enquanto se despede de mim, um professor de inglês que agora dorme na rua. O sol está quase a pôr-se e Pierre Louis ainda terá de cruzar meia cidade até ao campo de refugiados onde se abrigou com a sua família. Ali pernoitam agora mais de 1 400 pessoas, amontoadas no antigo complexo industrial Kay Nou - nome que, no crioulo falado pela maioria da população significa, ironicamente, "a nossa casa".
Tal como Pierre, os habitantes da capital caminham quilómetros infindos durante o dia, procurando locais onde possa haver comida ou água. Não há informação sobre os locais de distribuição da ajuda humanitária que continua a chegar de todo o mundo ao aeroporto internacional mas que, por razões que a todos escapam, ainda rareia nos bairros devastados da cidade.
Nos mercados locais, os poucos bens que se encontram à venda atingiram preços incomportáveis. É quase impossível encontrar uma garrafa de água e as que existem podem custar até 5 euros - uma fortuna para uma população que, antes do terramoto, já figurava entre as mais pobres do mundo, sobrevivendo com menos de 75 cêntimos por dia.
Por isso, multiplicam-se os roubos, as pilhagens, a violência. As Nações Unidas pediram ontem um reforço de 3 500 polícias para o Haiti, enquanto os EUA começaram a desembarcar os primeiros contingentes de 10 mil marines, que chegam com a missão de manter a ordem nas ruas de Port-au-Prince.
É preciso acalmar os ânimos, é certo. Mas, como diz Pierre, antes de regressar à manta estendida no chão que o espera em Kay Nou, levando nas mãos uma miséria de comida para dividir por muitos, tudo seria mais simples se os haitianos pudessem, pelo menos, acalmar os estômagos.
Patrícia,
Parabéns pelas suas crónicas e pela coragem de quem não teme ir para a linha da frente e informar os leitores.
Roubos, pilhagem, violência. Parece que tudo é coordenados pelos EUA. Claro que deve ser uma das missões mais difíceis, uma das maiores crises humanitárias.
Tanta gente no terreno, tantas organizações... e Patricía qual a presença europeia? Sabe que todos os anos nos levam milhões de euros através da ECHO!!!! Não se ouve falar desta gente. Porquê? A Europa está bem obrigado.
Coragem ,... nesse país que à força de sofrer tanta catástrofe, de nada ter, parece que se acostumou à infelicidade.
Sara