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Primeiro Livro

Em busca do Eldorado

J. Pedro Baltasar, 47 anos, estreia-se na literatura com Jaguar, um épico cheio de ação, aventura, suspense e romance.

Francisca Cunha Rêgo
10:00 Quinta feira, 17 de Jun de 2010
J. Pedro Baltasar
J. Pedro Baltasar
DR

Estava uma noite, sossegadamente, a ler A Cidade dos Deuses Selvagens, de Isabel Allende quando de repente se lembrou de um filme da sua adolescência: Cat People, de Paul Schrader, com Nastassja Kinski. Logo ali juntou dois universos, a América pré-colombiana, com o seu Eldorado escondido, e personagens com poderes felinos.
Pensou que as imagens que então lhe ocorreram podiam ser o início de uma grande história fantástica com um "toque" diferente. J. Pedro Baltasar, que nunca tivera intenção de escrever um livro, embora sempre tivesse sido um criativo, resolveu pôr mãos à obra. E, durante três anos, foi inundado por Jaguar (Porto Editora, 560 pp, 18,50 euros), um épico cheio de ação, aventura, suspense e romance que se transformou na sua estreia literária.
Tinha o México pré-colombiano como cenário mas queria ligá-lo também ao século XXI. Lembrou-se então de criar uma raça com poderes superiores, desenvolvida por manipulação genética, que tivesse sobrevivido no tempo: os homens-jaguar. "Fascina-me a ideia da transformação de um ser humano num felino. Esse processo, numa mulher, parece-me uma imagem especialmente forte e atraente", explica ao JL.
Um peculiar quadro do século XVI e o diário de um dos lugar-tenentes do conquistador Hernán Cortés foram outros pontos de partida para uma história carregada de riquezas do passado e descobertas presentes. "O Eldorado era outro aliciante", confessa o autor. "O nosso planeta hoje está completamente explorado. Há poucas coisas que permanecem misteriosas e esta cidade sobre a qual escreveram inúmeros exploradores e morreram outros tantos à sua procura, é um deles".
J. Pedro Baltasar fez então uma "enorme pesquisa caseira". Comprou livros, navegou horas na net, consultou documentos, leu manuais de cidades, estudou todas as teorias sobre as civilizações Maia e Azteca e, aos poucos, foi construindo a sua história. "Recolhi muito mais informação do que a que está no livro. Não quis 'cansar' o leitor. Em certos momentos, tive a tentação de escrever mais, mas acabei por me fixar apenas nalguns aspectos de modo a passar uma visão razoável, apesar de não exaustiva", explica.
"Visualizo o que estou a escrever", revela. E há páginas em que as imagens são tão fortes, que é impossível não fazer uma imediata associação ao cinema. O autarca, guionista e também escritor Francisco Moita Flores, que recentemente apadrinhou o lançamento de Jaguar, referiu precisamente o lado cinematográfico do autor. "É intencional", explica J. Pedro Baltasar.
Quando terminou o manuscrito de mais de 500 páginas começou "a lenta agonia". Enviou a obra para 12 editoras e de janeiro a junho, por uma razão ou por outra, foi levando "tampas sucessivas". Até que a Porto Editora o contactou. "Caí de joelhos", recorda.
Neste momento já está a trabalhar noutro livro: "Sinto que a minha pulsão criativa encontrou finalmente um canal de expressão". Trata-se de um thriller sobre a fronteira ténue entre o bem e o mal. Depois da primeira obra publicada J. Pedro Baltasar ainda não se sente um escritor: "Por causa da minha 'outra' vida profissional, não consigo dedicar-me a 100% à escrita". Mas, apesar de saber que ainda lhe falta um longo caminho, confessa a sorrir: "Gostava de lá chegar".

Da banca à escrita
As pressões do dia-a-dia no banco em que trabalha levaram-no, quase como escape, a escrever um diário sobre as vicissitudes do seu departamento. Os colegas gostavam tanto dos seus textos que o incentivaram a escrever mais. Estava lançada a semente de uma ideia que ficou a "martelar" no espírito de J. Pedro Baltasar, 47 anos.
A expressão artística sempre esteve presente na sua vida. Na infância e adolescência foi escuteiro - em Almada, a sua cidade natal - e ali organizava festivais da canção para os quais compunha as letras, ou peças de teatro assinadas por si. Mais tarde, teve uma rádio pirata, tocou numa banda de garagem e fez teatro amador. Cumpriu o serviço militar na EPAM, Escola Prática de Administração Militar, à qual ironicamente chamava Escola de Pintura e Arte Moderna.
O seu pai morreu cedo o que fez com que J. Pedro tivesse que ir trabalhar bastante mais depressa do que o previsto. Esteve ligado à indústria farmacêutica e mais tarde, por concurso, entrou nos quadros de uma instituição bancária. Casou, teve dois filhos, a Inês, hoje com 11 anos, e o Pedro, de 6. Ao longo da vida plantou várias árvores. Faltava-lhe o livro.   
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