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Eh vizinho, que grande "ignoro"!

Mais uma crónica da secção Gestão de Fraude, desta vez da autoria de Nuno Moreira

8:42 Quinta feira, 20 de Mai de 2010
Eh vizinho, que grande "ignoro"!

Permitam-me iniciar esta crónica com uma pequena história, uma breve anedota que me contaram há já alguns anos e que, por vezes, sou levado a recordar.

Numa pequena aldeia do interior, ao sair de suas casas, confrontados pela primeira vez com um avião no céu que fazia por ali a sua rota comercial, pergunta um habitante desta aldeia ao seu vizinho: Eh vizinho, que é aquilo que atravessa o céu? Reponde o outro: Ignoro, caro vizinho. Retorquiu então o primeiro: Eh vizinho, que grande "ignoro"!

A propósito da proposta e subjacente recomendação do Estado à EDP e PT, no que respeita à redução dos salários dos respectivos gestores executivos de topo, o que assistimos foi efectivamente um grande "ignoro" por parte das assembleias-gerais.

Pondo de parte a discussão sobre se o Estado, dada a natureza da sua qualidade de accionista, deve ou não fazer estas recomendações (por hipótese, pressões), no meu entender, será sempre justificável um apelo a uma tomada de consciência (venha ele de onde vier) sobre um tema que exige reflexão e que não pode ser encarado de forma aligeirada.

Atendendo a que as próprias empresas, por sua própria iniciativa e depois de uma aprofundada reflexão (certamente que não), entenderam não fazer sentido qualquer "mexida" nos salários dos seus CEO´s, será que não deveriam ter reavaliado a sua opção após o Estado ter intervindo, fazendo a referida proposta?

Como é sabido, estas empresas, além da divulgação periódica dos seus "Relatórios e Contas", divulgam também outra informação no sentido de alicerçar uma imagem de "ética e socialmente responsáveis". Será esta uma postura de responsabilidade social? De todo!

É certo que os gestores destas grandes empresas portuguesas têm cumprido bem o seu papel, têm currículo a alicerçar o seu mérito, tendo mesmo sido, ainda há pouco tempo, premiados e reconhecidos pela "Institucional Investor". E vendo bem, o peso das suas remunerações no resultado apresentado por aquelas empresas nem é dos mais significativos. Até porque os resultados apresentados também têm sido confortáveis e expressivos...

E, desde que seja por mérito, por bom desempenho e cumprimento de objectivos adequadamente definidos, de contributo efectivo para a saúde económico-financeira das nossas empresas (e riqueza do país) não me repugna nada ter pessoas bem pagas e mesmo muito bem pagas.

Então, onde estará o desconforto, o incómodo, quando se é confrontado com a divulgação dos salários destes gestores?

Constatarmos que nestas empresas um colaborador, em média, aufere 18 vezes menos do que um Administrador Executivo e 26 vezes menos que o respectivo Presidente Executivo! E se compararmos com os dirigentes máximos da nossa Nação, teremos também que multiplicar por dois dígitos; e então, se compararmos com um salário médio em Portugal, da grande maioria das nossas PME´s... não calculem, por favor!

Por outro lado, como sabemos ou, pelo menos, temos uma breve ideia, ter lucro não é a mesma coisa que ter um aumento de meios financeiros líquidos; mas, desejavelmente, estas variáveis deverão caminhar no mesmo sentido e, sobretudo, se uma empresa tem bons resultados, deverá aproveitá-los para fazer uma boa gestão do seu endividamento. Ora, se nestas empresas, o desempenho económico tem sido interessante porque será que estão mais endividadas e são mesmo as mais endividadas da Europa? Por onde é que anda o dinheiro? Será tudo devido a investimento? Concluir a respeito não é muito cristalino...

Na actual conjuntura, estas grandes empresas também deveriam ter a responsabilidade social de nos sinalizarem que estão no mesmo barco e que, por exemplo, o famoso PEC não é só para alguns. É difícil, de facto, apelar-se desta forma a um espírito de unidade e a mais sacrifícios, para remarmos todos no mesmo sentido, quando alguns viajam sempre de iate e outros quase sempre de caíque, faça sol ou faça chuva.

Só ficaria bem a este nicho empresarial integrado no PSI 20, cujos gestores executivos passam ao lado da crise, adoptar critérios de prudência e de bom senso quando é preciso. São atitudes como estas, de indiferença e de grande "ignoro", que prostram e deprimem ainda mais um país já deprimido.

Alguém tem que dar o exemplo e este não está definitivamente a ser dado por quem tem margem de manobra para prescindir de alguma coisa. A grande, grande maioria não tem esta margem de manobra, antes pelo contrário!

Esta postura, que, por contágio, vai alastrando a toda a sociedade, não deixa de ser mais um contributo para um clima de alguma agitação social que, naturalmente, dispensamos!

Palavras-chave   gestão fraude
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opinando a propósito
Zé Cravinho (seguir utilizador), 2 pontos , 15:33 | Quarta feira, 26 de Mai
Que género de patriotismo é o dêstes Senhoritos Fidalgos ?!
Consideram-se gente de uma classe àparte tal como a Nobreza do
tempo da Monarquia em que havia as classes sociais Clero,Nobreza e
Povo??!! Está bem que sejam bem pagos pela sua função,mas o que
significa ser bem pago?E ainda há gente da média e até da pequena Burguesia que diz:-Êles fazem falta e se não fôrem bem pagos,vão
para outros Países onde lhes pagam mais.Pois então que vão para
o raio que os parta,para a terra do Tio Sam mafioso e flibusteiro.

Salários daqueles nunca
Fernando (seguir utilizador), 1 ponto , 19:39 | Sexta feira, 21 de Mai
Prémios de gestão milionários não é só uma afronta a todos os portugueses. É a continuação de uma lógica de curto prazo, de empresarização da economia, de subestimação da coesão social, de falta de ética.
Infelizmente, passados tantos anos da morte de Zeca Afonso ainda continuamos a recordar "Os vampiros". Uma canção que ele considerava esteticamente mediocre mas que tocava no fundo das pessoas subjugadas.
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