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Dizer que é irritante dizer

A acumulação de casos políticos trouxe consigo uma previsível acumulação de comentadores políticos. Qual delas é mais perniciosa para o País? É difícil dizer

3:54 Quinta feira, 25 de Fev de 2010

Em primeiro lugar, dizer que estamos perante uma nova moda linguística. Qual? Antes de mais, manifestar perplexidade pela falta de perspicácia do leitor. Há um novo modelo de expressão, divulgado sobretudo por comentadores televisivos, mas que, como tudo o que é bom, tem vindo a extravasar as fronteiras da televisão e a enraizar-se nos hábitos do cidadão comum. Se há coisa que o cidadão comum aprecia é a apropriação de chavões do discurso de profissionais da televisão, com destaque óbvio para os jornalistas desportivos. O cidadão comum está frequentemente em casa, munido de um bloco de apontamentos e uma caneta, a recolher uma vasta quantidade de "tudo fizemos", de "quando assim é", e de "apenas e só".

Começar frases com o verbo no infinitivo é uma moda recente mas pujante. Em pouco tempo, superiorizou-se a outras modas, também populares, como a que impõe que nenhum relato possa principiar sem a expressão "então é assim". E o sucesso da nova moda é tanto mais surpreendente quanto a sua origem: o mundo, frequentemente aborrecido, da análise política. A acumulação de casos políticos trouxe consigo uma previsível acumulação de comentadores políticos. Qual delas é mais perniciosa para o País? É difícil dizer. Mas é extraordinariamente simbólico que, por causa da crise, várias pessoas tenham sofrido: as pessoas que constituem aquilo a que antigamente se chamava o povo vivem pior, mas as pessoas do singular e as pessoas do plural também passam por dificuldades. Nunca mais se ouviu falar delas. A primeira pessoa do singular nunca mais falou. O comentador político do passado, que falava na primeira pessoa, deu lugar ao comentador moderno, que inicia raciocínios a dizer "dizer". Em primeiro lugar, dizer que a situação é complexa. Depois, dizer que o segredo de justiça tem sido vilipendiado. Para terminar, dizer que o procurador-geral tem estado tíbio. É, no fundo, o comentador-Tarzan. Mim dizer, tu ouvir. Trata-se de uma estratégia linguística que reduz ao mínimo as conjugações verbais. Para fazer comentário político, ninguém precisa de saber conjugar um verbo, o que acaba por ser democrático. Pela minha parte, aprecio qualquer observação política que faça ainda mais sentido se lhe acrescentarmos, no início, a expressão "grande chefe índio". Grande chefe índio dizer que a situação é complexa. Grande chefe índio dizer que o procurador-geral tem estado tíbio. Parece mesmo que vivemos no faroeste. Ora aqui está como a forma de expressão pode produzir conteúdo.

 

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39 comentários
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Viva o comentário!
CAfonso (seguir utilizador), 3 pontos (Interessante), 16:19 | Quinta feira, 25 de Fev
Enfim, é o mundo onde vivemos, cheio de pessoas que "vivem" de dizer aquilo que os outros dizem e não deveriam dizer, e dizer aquilo que querem que outros digam, etc, etc. o que me preocupa é as pessoas fazerem suas as opiniões dos comentadores, ou seja, aquilo que querem que tenhamos como verdade unica e universal, por mim, quando falo das opiniões dos outros, tenho por hábito citá-los, e não lhes roubar o seu rico pensamento...
erros ou hábitos?
Apolo (seguir utilizador), 3 pontos (Interessante), 20:19 | Domingo, 28 de Fev
Eu nunca me preocupo com os erros dos outros, seja por escrito ou simplesmente falando, preocupo-me sempre em falar correctamente por palavras simples, para que todos percebam.
Nem: tá, cadinho, k (em vez de quê), tás a ver, xim (em vez de sim) e outras que neste momento não me recordo; isto aprendi na net, mas há outras: o defícil e redículo, as piquenas e médias empresas...
resumindo e concluindo, cada qual fala como lhe dá jeito, porque estes últimos que eu referi, não é por ignorância é mesmo por hábito, são pessoas que têm familiares que falam com simplicidade e vão embalados nas palavras que usam com eles, por exemplo reparem no Paulo Portas, nunca disse uma palavra que desse motivo de risota, porquê? porque a mãe é professora depois tem um irmão mais velho e já cresceu a ouvir falar devidamente; na minha família também há pessoas de várias classes sociais, não falam todos da mesma forma e também há influência dos sítios onde moram, porque nas escolas habituam-se todos à mesma forma de falar e até ao mesmo tom de voz, há sítios onde as pessoas não falam, gritam! daí, os alunos dessas escolas são pessoas que aprendem a falar alto; eu costumo dizer que as pessoas até podem ser educadas, mas no forro do casaco têm a etiqueta do sítio onde foram criadas!
Por isso eu não raparo nos erros dos outros, mas alguns até acho graça, como há pouco tempo num comentário, havia alguém que escreveu cágado sem o acento, posso vos dizer que levei uma tarde inteira a rir.
    Repare...   
Olá (seguir utilizador), 1 ponto , 22:49 | Domingo, 28 de Fev
    Re: Repare...   
Apolo (seguir utilizador), 1 ponto , 2:25 | Segunda feira, 1 de Mar
    Re: Repare...   
Apolo (seguir utilizador), 1 ponto , 3:16 | Segunda feira, 1 de Mar
Pretuguês
NDD (seguir utilizador), 2 pontos (Divertido), 11:38 | Quinta feira, 25 de Fev
E o PM mais o seu entrevistador, por sinal escritor de sucesso, jornalista e comentador político, a discutirem sobre os gastos do governo em "consultadoria"? Onde terão ido buscar o "d"? Prontes, digo eu...
    Se calhar, foram dicionário   
ckage (seguir utilizador), 1 ponto , 14:27 | Sábado, 27 de Fev
    Re: Se calhar, foram dicionário   
kizzaka (seguir utilizador), 2 pontos , 16:01 | Sábado, 27 de Fev
    Por outro lado?   
ckage (seguir utilizador), 1 ponto , 22:49 | Sábado, 27 de Fev
    Re: Por outro lado?   
kizzaka (seguir utilizador), 2 pontos , 0:52 | Domingo, 28 de Fev
    Re: Por outro lado?   
ckage (seguir utilizador), 1 ponto , 13:56 | Segunda feira, 1 de Mar
    Re: Por outro lado   
kizzaka (seguir utilizador), 2 pontos , 15:51 | Segunda feira, 1 de Mar
    Errata: foram AO dicionário   
ckage (seguir utilizador), 1 ponto , 14:30 | Sábado, 27 de Fev
Só fala quem tem que se lhe diga
Epicuro (seguir utilizador), 2 pontos (Interessante), 12:10 | Quinta feira, 25 de Fev
Começar uma crónica com a frase "Em primeiro lugar, dizer que estamos perante uma nova moda linguística." é um feito tão perspicaz e humorístico que até parece uma aselhice linguística. Quem é que terá sido a tua professora primária para escreveres frases assim? Ainda bem que escutas com atenção os comentadores de futebol porque com frases dessas o teu português está uns pontos abaixo deles. Está ao nível daquela adivinha que é: qual é a diferença entre uma laranja? É capaz, digo eu, de não ser pior estudares um pouco de português, ó douto da mouraria.
    Re: Só fala quem tem que se lhe diga   
slb_addicted (seguir utilizador), 1 ponto , 17:04 | Sexta feira, 26 de Fev
    Re: Só fala quem tem que se lhe diga   
Epicuro (seguir utilizador), 1 ponto , 10:46 | Sábado, 27 de Fev
    Re: Só fala quem tem que se lhe diga   
kizzaka (seguir utilizador), 2 pontos , 16:09 | Sábado, 27 de Fev
    Re: Só fala quem tem que se lhe diga   
ckage (seguir utilizador), 1 ponto , 22:56 | Sábado, 27 de Fev
    Re: Só fala quem tem que se lhe diga   
kizzaka (seguir utilizador), 2 pontos , 1:08 | Domingo, 28 de Fev
    Re: Só fala quem tem que se lhe diga   
ckage (seguir utilizador), 1 ponto , 14:20 | Sábado, 27 de Fev
    Re: Só fala quem tem que se lhe diga   
slb_addicted (seguir utilizador), 1 ponto , 19:14 | Sábado, 27 de Fev
    Re: Só fala quem tem que se lhe diga   
Epicuro (seguir utilizador), 1 ponto , 22:40 | Sábado, 27 de Fev
    Haters ftw?   
slb_addicted (seguir utilizador), 2 pontos , 0:36 | Domingo, 28 de Fev
A verdade absoluta
spitzer (seguir utilizador), 2 pontos (Interessante), 11:26 | Sexta feira, 26 de Fev
É uma forma de (tra)vestir uma simples opinião de verdade absoluta. Afinal, para que existe a imprensa? Não para produzir «verdade»?
Mim desistir, utilizador ler melhor
slb_addicted (seguir utilizador), 2 pontos (Bem Escrito), 17:25 | Sexta feira, 26 de Fev
Desisto de responder individualmente aos utilizadores que comentaram a crónica antes de mim e não perceberam a piada da mesma... Das duas, uma: ou não leram a crónica do princípio ao fim, ou estavam muito distraídos quando o fizeram, ou não aprenderam o modo verbal Infinitivo na escola e agora pensam que o RAP é que teve uma aprendizagem deficiente.

Esta crónica pode não ser das que mais me fez rir, mas não será pelos "motivos" apresentados por utilizadores como Epicuro e joadearievilo, que, nitidamente, não sabem conjugar o Infinitivo ou compreender sátiras. O texto não precisa de ser mais aprofundado, é uma crónica, destinada a um espaço limitado, e não um livro... E está bem escrito (bem melhor do que os seus comentários), os erros gramaticais são propositados e servem de exemplo satírico da moda que tem sido seguida pelos comentadores políticos a que RAP se refere. (DAH!)
E sim, é verdade que cada um é livre de comentar e opinar o que quiser, mas o que li não foram opiniões, foram distracções. Acontece a todos. A mim, então, acontece aos pontapés, e aprecio quando alguém me chama a atenção para isso, em vez de desistir por achar que não sou suficientemente inteligente para vir a perceber.

Em relação à crónica propriamente dita, e deixando agora de lado os comentários à mesma: Grande Chefe Índio dizer que gostou da crónica. E Grande Chefe Índio admitir ainda que nunca tinha dado conta do fenómeno descrito, mas procurar reparar futuramente (se se proporcionar).
    EXERCÍCIO DE PENSAR   
joadearievilo (seguir utilizador), 1 ponto , 0:32 | Sábado, 27 de Fev
    Re: EXERCÍCIO DE PENSAR   
slb_addicted (seguir utilizador), 1 ponto , 19:32 | Sábado, 27 de Fev
    INFINITIVOS   
joadearievilo (seguir utilizador), 1 ponto , 21:21 | Sábado, 27 de Fev
    Re: INFINITIVOS   
slb_addicted (seguir utilizador), 1 ponto , 0:10 | Domingo, 28 de Fev
    subtil sensibilidade   
joadearievilo (seguir utilizador), 1 ponto , 17:11 | Domingo, 28 de Fev
    Re: subtil sensibilidade   
slb_addicted (seguir utilizador), 1 ponto , 18:47 | Domingo, 28 de Fev
Líder
Líder (seguir utilizador), 2 pontos (Divertido), 13:06 | Domingo, 28 de Fev
Mas há mais modas, lugares comuns horríveis, RAP. Ora veja aquela do "eu ou ele nem queria acreditar". Outra: "é de cortar a respiração". E no futebolês, são mato. Cito apenas aquela do derrotado "temos de levantar a cabeça e seguir em frente". AH, e aqueles rapazes e raparigas que vão para a rua, por conta das TVs entrevistar vítimas de catástrofes e outras: "o que sente ? , teve medo ?" E quando o entrevistado não dá meia para a caixa, sugerem logo a resposta ou adiantam-na: "o sr. estava com medo que a casa lhe caísse em cima..."; "agora vai limpar isto tudo..."
Bem, no que respeita a reportagens em cenários de catástrofes, há tanto para comentare criticar...
    Re: Líder   
kizzaka (seguir utilizador), 2 pontos , 15:38 | Domingo, 28 de Fev
Estilística e Semântica
miguel silva pxo (seguir utilizador), 1 ponto , 12:37 | Quinta feira, 25 de Fev
De facto, estamos perante uma sociedade que vive cada vez mais próxima dos "media", em que os "opinion makers" têm um papel cada vez mais relevante, basta ver o número de comentadores políticos e de paineleiros desportivos (não resisti a usar este neologismo hehehe-pessoas que pertencem a um painel, entenda-se) que proliferam nos canais generalistas, mas sobretudo nos do cabo. Por exemplo, há uns tempos era comum ver os jogadores de futebol, sobretudo os brasileiros, falar de si próprios usando a 3 pessoa do singular, na altura foram ridicularizados, o que muitos não sabem é que Julio César (imperador romano, não o guarda-redes do Benfica hehehe) também escrevia sobre si próprio usando a 3ª pessoa do singular. Conclusão esses jogadores leram de certeza De Bello Gallico (hehehe) onde relata as suas conquistas na Gália.
Pessoas, povo, ou zé povinho?
Olá (seguir utilizador), 1 ponto , 23:49 | Quinta feira, 25 de Fev
Estou longe do torrão natal; em matéria de comentadores e respectivos tiques locutórios, o meu universo reduz-se a António Vitorino e Marcelo Rebelo de Sousa. De um modo geral aprecio a sua superior capacidade de análise sintética da situação política lusa (e não só). O único senão sério na história é a mania recorrente de Marcelo Rebelo de Sousa de se referir aos que estão fora do assunto a que se refere, aos leigos na matéria, apelidando-os de "zé povinho". Fá-lo volta e meia com uma altivez tão "natural" que quase lhe assentaria como uma luva, não se tratasse ali de uma pronunciada marca de desprezo pelos que não são da sua casta. Que não se refira ao povo, compreende-se, o termo está demasiado conotado com um certo paternalismo datado e entretanto caído em desuso. Mas "zé povinho" é pior, vem mesmo do tempo da outra senhora, como soe dizer-se. Não quero acreditar que ninguém tenha ainda chamado a atenção do mestre para tamanha deselegância comunicacional. Então porquê insistir no erro? Mistério, mistério...
Nem graça, nem grassa!
joadearievilo (seguir utilizador), 1 ponto , 1:15 | Sexta feira, 26 de Fev
A ideia da análise é boa! Mas teria de ser bem desenvolvida! E isso ainda não é para si Ricardo! Talvez mais tarde, quem sabe. Antes de fazer uma gracinha há que dominar um cadinho o assunto! Mas também não é preciso, deixe lá! Afinal é-se famoso para alguma coisa. (Imagine que não era famoso, algum jornal lhe aceitaria este texto mal escrito e pior aprofundado?) É por aqui que começam as desgraças deste país, já ninguém quer saber de qualidade para nada, cada um safa-se e pronto!
Há 5 anos, RAP...
alpereira (seguir utilizador), 1 ponto , 20:00 | Sexta feira, 26 de Fev
Não há nada como ser o RAP.

Ele tem razão, mas sobre esta "nova moda linguística" já eu tinha escrito em 3 de Novembro de 2005 - http://boblog.adrianocast...

Talvez não com tanta agilidade, mas com semelhante vontade de ter graça.
RAP
caprylm56 (seguir utilizador), 1 ponto , 22:37 | Sexta feira, 26 de Fev
Não ligues boia, o cacique manda.
Novas noites
Anjo Perpétuo (seguir utilizador), 1 ponto , 23:20 | Sábado, 27 de Fev
É interessante ver que alguém consegue perceber que no meio dos media existe alguma fonte selvagem e por explorar. Os pioneiros nas descobertas fomos nós, evidente, não podiamos continuar a fechar os olhos e ficar só para ver, como diriam os Ritual Tejo. Não, eis que surge das cinzas deste Portugal pioneiros na descoberta de um humor que se tinge e vinca pela pertinência de mostrar que nem tudo o que reluz é ouro. Mim Anjo Sentado estar pasmo! Bravo RAP, continue assim!
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