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DIA 7

Comentando um comentário

Sendo dia de descanso no Bella Center, vou aproveitar para desfazer um mito: os negacionistas do aquecimento não são heróis incompreendidos. São pessoas que não conseguem demonstrar uma palavra do que apregoam

Caro leitor "Setembro":

Quando digo "os cientistas concluem, através de estudos, factos, observações e outras perdas de tempo do género, que o clima está a aquecer por acção do Homem", não quero dizer "alguns cientistas", como sugere. Se eu quisesse dizer "alguns cientistas", tê-lo-ia dito, mas, sendo o assunto consensual entre a comunidade científica (para cima de 90% dos especialistas desta área concordam neste ponto, o que constitui um nível de consenso raro), preferi poupar os seis caracteres da palavra "alguns". Vamos lá a ver se nos entendemos de uma vez por todas, porque parece haver aqui um mal-entendido de fundo. Não basta soltar uma série de expressões que soam bem, como aumento de actividade sísmica ou actividade vulcânica, transformações do campo magnético da Terra, alterações climáticas noutros planetas ou variações das manchas solares, como o leitor faz no seu comentário, e esperar que tudo fique explicado. Não. Limitar-se a jurar a pés juntos que aqui está a nascente de todos os males é que é simplista. O mínimo que se pede é que sejam apresentadas as mesmas provas que os investigadores do IPCC e físicos de todo o mundo são obrigados a apresentar para sustentar as suas argumentações que apontam para um aquecimento provocado pelo Homem. Provas essas que, aliás, são sempre alvo de rigorosos escrutínios científicos antes de serem publicadas. Infelizmente para o seu ponto de vista, não há um único estudo científico que tente desmascarar a influência antropogénica no clima e tenha sobrevivido ao crivo do peer review. Concluindo: não conheço nenhum estudo com um mínimo de credibilidade que mostre qualquer tipo de influência entre todos esses fenómenos que diz estarem a acontecer e o aquecimento global; aliás, muitos números e gráficos que os negacionistas das alterações climáticas costumam brandir são pura e simplesmente inventados. Tem razão, caro leitor, ao dizer que é um passo muito grande apontar o Homem como culpado das mudanças no clima. É por isso que dá tanto trabalho prová-lo. É bem mais fácil para os negacionistas gritar que é tudo mentira. Sobretudo porque ainda não encontraram outra maneira de passar a sua mensagem. Se gritassem menos e demonstrassem mais...

0:15 Segunda, 14 de Dezembro de 2009

DIA6

Imagens da manifestação

O sábado orbitou à volta das dezenas de milhares de pessoas que marcharam os seis quilómetros entre o centro de Copenhaga e o local da Cimeira a pedir justiça climática

7:58 Domingo, 13 de Dezembro de 2009

DIA 5

Esmolas e tontas tolas

O dinheiro não é tudo. Mas a fé arrasa montanhas de conhecimento

Os líderes da UE reuniram-se em Bruxelas, antes de seguirem para Copenhaga, para decidir quanto dar aos países pobres para os ajudar a combater os efeitos das alterações climáticas, mais esmagadoras precisamente no Terceiro Mundo. Talvez, pensaram, nos dêem uma folga e parem de nos recordar que a culpa é nossa, que nos desenvolvemos enquanto dávamos cabo do Mundo, e nos deixem poluir um bocadinho mais. Sete mil milhões de euros nos próximos três anos, o valor do suborno (ou o preço de aliviar a consciência, para quem preferir eufemismos). Os países pobres não se deixaram comprar e avisaram logo que os ricos não se iam safar assim tão facilmente. Sobretudo porque uma boa parte daquele dinheiro fazia parte de promessas anteriores e de verbas que até já foram atribuídas há tempos. Entretanto, investidor e milionário George Soros (por estes dias em Copenhaga) garante ter descoberto o dinheiro que o planeta precisa para combater as alterações climáticas: está todo no FMI. Basta ir lá buscá-lo e usá-lo em investimentos verdes. O problema é que esses 100 mil milhões de euros de que ele fala estão a ser usados para fornecer liquidez a sistemas financeiros com dificuldades. E o próprio Soros, filantropo com vários projectos de apoio às regiões menos desenvolvidas, admite que dificilmente o Congresso americano desbloquearia o dinheiro para ajudar os pobres. Mas (para responder à leitora Sara) é mais uma voz importante a dar ideias e a pressionar consciências. Não se perde tudo.

Aligeire-se a conversa. No futebol, já se sabe, toda a gente é treinadora de bancada. É coisa simples: onze para cada lado, uma bola, duas balizas e meia dúzia de regras. Novidade é que hoje toda a gente também é cientista. Por exemplo, as regras da climatologia são um nadinha mais complexas do que "Se há falta na área é penalty". Mas esse detalhe não impediu a Nobel da Física de Bancada Helena Matos de escrever uma crónica no Público a arrasar o trabalho de anos e anos de centenas dos mais respeitados cientistas das mais respeitadas instituições do mundo, usando argumentos tão sólidos como "Depois do terramoto de 1755, um padre de nome Malagrida também dizia que a culpa de a Terra tremer era dos pecados dos homens e isso é a mesma coisa que os cientistas e esta gente em Copenhaga está a dizer e é tudo mentira e alterações climáticas não existem porque tempestades sempre houve". Traduzindo e reduzindo, Helena Matos transforma a ciência numa questão de fé. Mas, na verdade, é a própria articulista a mostrar que é uma pessoa que se move apenas por uma enorme e inabalável fé. Ora veja-se: os cientistas concluem, através de estudos, factos, observações e outras perdas de tempo do género, que o clima está a aquecer por acção do Homem e que a vida como a conhecemos está em risco por causa disso; já Helena acredita, do fundo da sua sagaz alma, que é tudo treta. Só porque sim. Não tem nada a suportar a sua convicção, mas os factos não lhe ofuscam a certeza. Ela sente a verdade. Sabe. Como o padre Malagrida sabia.

21:54 Sexta, 11 de Dezembro de 2009

DIA 4

Negócios e negacionistas

Um bom negócio consegue-se quando todas as partes saem insatisfeitas. Nem os negacionistas do aquecimento global o negam

Aqui ficam as principais novidades que escorreram pelos corredores do Bella Center no dia 10 e a opinião de um taxista:

. China, Índia, Brasil e África do Sul trouxeram para Copenhaga um documento de trabalho conjunto que exige aos países desenvolvidos 40% de redução das suas emissões de CO2. E acrescenta que esses cortes têm de ser feitos dentro das suas fronteiras, não através de compensações em países pobres (a forma mais barata de cumprir Quioto, actualmente). Hipótese de sucesso desta ideia? Zero.

. Barack Obama lembrou, no discurso de agradecimento pelo Nobel da Paz, em Oslo (praticamente aqui ao lado de Copenhaga), que os generais do seu país já avisaram que o aquecimento global é uma monumental ameaça à segurança, que a humanidade vai enfrentar mais secas, fome e guerras por causa das alterações climáticas e que o mundo tem de agir. Até o bloco G77 (os 130 países mais pobres) e a China elogiaram estas palavras. Significado? Obama está a querer que todo o mundo, incluindo o menos desenvolvido, adira à causa e o mundo menos desenvolvido quer sublinhar as palavras de Obama para que se transformem em actos.

. Medvedev, o presidente da Rússia, acaba de confirmar que vai a Copenhaga. São já 110 líderes mundiais com presença garantida. Mas esta é especial. Os russos são mestres na arte de esticar a corda até ao limite para conseguir mais ganhos para si, durante as negociações. Foi o que fizeram com Quioto: foram adiando a ratificação para exigir que fosse atribuída, politicamente, às suas intermináveis florestas, mais capacidade de absorção de CO2. Resultado: hoje a Rússia é um dos maiores vendedores de créditos de emissão do mundo.

. Ontem à noite, um taxista libanês garantiu-me que a culpa de não se conseguir resolver o aquecimento global é dos judeus, que, dizia, controlam as grandes empresas que controlam o Senado, o Congresso e a Casa Branca.

. Hoje apetece-me recordar uma frase do jornalista da CBS Scott Pelley, atirada em 2006 como resposta a um auto-proclamado céptico das alterações climáticas, que o acusou de não ser imparcial ao fazer reportagens sobre o tema. "Se entrevistar o Elie Wiesel [judeu sobrevivente de Auschwitz e Nobel da Paz em 1986] também tenho, como jornalista, de encontrar um negacionista do Holocausto?"

21:47 Quinta, 10 de Dezembro de 2009

DIA 3

A Cimeira entra em velocidade de cruzeiro

Hoje não houve polémica, se não contarmos com as discordâncias entre a China e um conjunto de países pobres, encabeçados pelo pequeno Tuvalu. Aqui ficam as imagens da rotina do COP15

Diário de Copenhaga - A Cimeira entra em velocidade de cruzeiro

Uma estátua de gelo de um urso a derreter em Copenhaga serve de alerta e de chamariz turístico

Diário de Copenhaga - A Cimeira entra em velocidade de cruzeiro

Uma associação de vegetarianos tenta convencer quem entra que a culpa do aquecimento é dos carnívoros

Diário de Copenhaga - A Cimeira entra em velocidade de cruzeiro

Bjorn Lomborg, o "ambientalista céptico", nos corredores de uma cimeira com que não concorda

Diário de Copenhaga - A Cimeira entra em velocidade de cruzeiro
cimeira copenhaga

Hora de ponta nos refeitórios do Bella Center. Não admira: aqui uma refeição custa 6 ou 7 euros; lá fora, 30 ou 40

Diário de Copenhaga - A Cimeira entra em velocidade de cruzeiro

A Ucrânia ganhou os três primeiros lugares na votação Fóssil do Dia, uma espécie de óscares ambientais ao contrário

Diário de Copenhaga - A Cimeira entra em velocidade de cruzeiro

Estacionamento do Bella Center. Mais de metade dos copenhaguenses vão para o trabalho de bicicleta

Diário de Copenhaga - A Cimeira entra em velocidade de cruzeiro

Quatro australianos manifestam-se à porta da Cimeira contra o seu próprio país

17:30 Quarta, 9 de Dezembro de 2009

DIA 2

Polémicas e prostitutas

 Terça-feira, 8 - 2º dia da Cimeira

Não foi preciso esperar muito pelas primeiras cisões. Mas, ao contrário do que se esperava, o choque frontal não contou com a presença nem dos EUA nem da China, os principais peões do jogo. Pelo contrário: a polémica estalou com o aparecimento na imprensa de um documento de trabalho do governo dinamarquês, que organiza a cimeira. A proposta é desequilibrada e surpreendentemente pobre de ambições, apontando, por exemplo, para um pico nas emissões de CO2 em 2020 e, depois, uma descida até 50%em 2050 - isto quando o que se fala há várias semanas é de um corte de 80% em 2050. O pior é que, segundo os cálculos de alguns delegados na conferência, esta proposta significa que as emissões per capita dos países em desenvolvimento ficarão sempre abaixo das emissões dos países ricos. Yvo de Boer, das Nações Unidas, veio rapidamente apagar o lume, explicando que nenhum documento fora do âmbito das Nações Unidas tem qualquer valor, mas nessa altura já muitos delegados africanos estavam em ebulição. Afinal, onde estão os esperados apoios ao Terceiro Mundo para enfrentar as alterações climáticas, que muitos davam como principal ponto de discussão das negociações? Como é que um país que se encontra no topo do mundo no que diz respeito ao civismo e equidade social avança com algo tão injusto? Terá sido um devaneio despropositado da Dinamarca, na ânsia de querer ter o nome da sua capital associado ao mais importante acordo mundial dos últimos (pelo menos) 12 anos?

Não é a primeira asneira dos políticos locais. Ainda antes de começar a cimeira, a presidente da câmara de Copenhaga enviara postais a 160 hotéis da cidade para que fosse desincentivado o recurso à prostituição (legal, no país), por parte dos delegados e outros participantes na COP15. Uma associação não gostou do suposto moralismo da mayor e ameaçou oferecer sexo de borla a quem apresentasse o cartão do Bella Center. Acrescentou a porta-voz da associação que esta posição é apenas uma forma de protesto - Susanna Moller não acredita que os clientes, no fim, aceitem. Talvez haja aqui alguma ingenuidade. Uma regra da publicidade diz que a única palavra que atrai mais do que "grátis" é "sexo". Seguramente que "sexo grátis" é uma combinação demasiado deliciosa para muitos.

Esta cimeira é tão sensível que cria controvérsia até com as prostitutas...

23:40 Terça, 8 de Dezembro de 2009

NOITE 1

Agora é oficial

Ainda segunda-feira, 7 - 1ª noite da Cimeira de Copenhaga

Seis e meia da tarde - o sol já dorme há mais de duas horas e a cerimónia oficial de abertura da COP15 sempre é ao ar livre. Ajusto o cachecol à volta das orelhas. Aqui, na praça em frente à Câmara Municipal de Copenhaga, uma multidão aguarda as intervenções, no palco, da presidente do município e de Yvo de Boer, o líder da Convenção Quadro para as Alterações Climáticas, das Nações Unidas (por outras palavras: o responsável máximo por esta cimeira). "Este é o momento de mudarmos de rumo." Antes de ser brusca e surpreendentemente interrompido pelo animador do palco, para dar lugar a uma banda rock dinamarquesa, de Boer consegue passar o essencial da sua mensagem: é agora ou nunca. Pela cidade de Copenhaga, as exposições e alertas, na forma de cartazes e bancas de informação, dividem-se entre exemplos do que o mundo perde com o aquecimento global e ideias de como evitar o desastre - entre as estátuas em gelo de ursos polares aos carros eléctricos e à cerveja produzida sem um pingo de CO2 emitido para a atmosfera. No meio deste festival de cores e luzes, de uma tempestade de alertas e stands de empresas a anunciar medidas ecológicas, do que se começa a parecer mais com espalhafato do que com ciência, é fácil duvidar: quem está, na verdade, por detrás das conclusões das alterações climáticas? Interesses económicos se levantam ou podemos mesmo confiar nos dados? Infelizmente, podemos confiar nos dados. Por mais que custe aos chamados cépticos das alterações climáticas, que atiram poeira com frases feitas (e cientificamente desonestas) como "o último Verão nem sequer foi quente", a enormíssima maioria da comunidade científica e os investigadores mais respeitados têm apresentado provas atrás de provas a mostrar, de todos os ângulos possíveis, uma realidade aterrorizante: nunca o Homem esteve tão perto de levar um coice tão violento da Terra. Ou, melhor, um ricochete.

Quanto aos cépticos... Bem, esses vão continuar a alimentar-se da habitual propensão das pessoas para as teorias da conspiração. Será que pisámos mesmo a Lua? Será a Terra mesmo redonda? Será que o clima está mesmo a mudar? Será que se duvidar do aquecimento global em público a Arábia Saudita me dá um financiamentozinho?

22:28 Segunda, 7 de Dezembro de 2009

DIA 1

Começa a cimeira

Segunda-feira, 7 - 1º dia da Cimeira de Copenhaga

 

Nove e meia de uma manhã naturalmente gelada. Saí do metro e desci para o Bella Center, onde decorrerá a cimeira até ao dia 18, para levantar a acreditação de imprensa. Uma pequena fila de 20 ou 30 pessoas esperava-me. Não há-de demorar muito, pensei. Até que reparei numa folha A4 espetada na parede à minha frente: o levantamento de acreditações só começa ao meio-dia. Durante as duas horas e meia seguintes, enquanto esfregava as mãos, batia com os pés no chão para aquecer e via a fila crescer atrás de mim até uns bons 200 metros de comprimento, um pensamento inundava-me a cabeça: escolher Copenhaga em Dezembro para discutir o aquecimento global não será contraproducente?

Duas da tarde. Lá dentro, no meio da confusão de milhares de pessoas de centenas de organizações diferentes, encontrei o Francisco Ferreira, da Quercus (encontrei-o, claro, porque lhe liguei para o telemóvel a perguntar onde estava). "Temos de sair daqui com um acordo juridicamente vinculativo, que obrigue mesmo os países a reduzir as emissões de CO2. Aliás, essa coisa que muitos governantes andam a pedir, um acordo politicamente vinculativo, não existe." Pois. Acordo politicamente vinculativo é uma forma espampanante de dizer "promessa política". E todos sabemos o que vale uma coisa dessas... Deixei o ambientalista - que ia para uma reunião de ONGs para ajudar a decidir o primeiro "Fóssil do Dia", um prémio diário a atribuir ao país que pior esteve em matéria de propostas ou medidas para atacar as alterações climáticas - e voltei para o centro de Copenhaga. Daqui a nada é a cerimónia oficial de abertura da COP15. Espero que não seja ao ar livre.

14:43 Segunda, 7 de Dezembro de 2009
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