Devemos fazer tudo o mais simplesmente possível mas não mais simplesmente do que isso
Fui a Alcácer por um homem a quem quero muito, num momento difícil da sua vida: acabavam de lhe arrancar mais um bocado da infância, de lhe substituírem a existência por memória e quando nos mudam a cor à alma a gente sofre
8:20 Quinta, 5 de Novembro de 2009
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Ontem acabei de corrigir uma porção de crónicas para fazer um livrinho, textos de há quatro ou cinco anos para cá, de que não me lembrava. De um ou outro talvez, mas uma memória confusa, e apercebi-me que a minha relação com estas aguarelazitas se aparenta à de alguém que faz desenhos meio distraídos na margem do papel, enquanto pensa noutra coisa. Como estou sempre a pensar noutra coisa talvez fosse preferível dizer desenhos meio distraídos na margem do papel enquanto pensa noutra coisa de outra coisa. E lá foram, para a editora, esses bonecos, esses riscos a que não consigo dar importância, esboços, fantasias, palavrinhas, pequeninos nadas. Estava a escrever isto e, de repente, sei lá porquê, veio-me à cabeça Alcácer do Sal, que quase não conheço, passos na rua, uma esplanada onde jantei e as caras das pessoas à mesa. As caras todas nítidas. É engraçado ver pessoas comer, as diferentes formas que as bochechas tomam, o modo como os queixos se movem, os gestos: tornam-se tão vulneráveis nesses momentos, tão frágeis. Fui a Alcácer por um homem a quem quero muito, num momento difícil da sua vida: acabavam de lhe arrancar mais um bocado da infância, de lhe substituírem a existência por memória e quando nos mudam a cor à alma a gente sofre. Mesmo que a cor haja mudado com o tempo, embora todos os nossos tempos continuem connosco. Meu Deus, a pouco e pouco vamo-nos tornando sótãos onde o passado amarelece, a pouco e pouco os sótãos invadem a casa que somos, principiamos a mover-nos entre sombras truncadas de gente, emoções, memórias. Lentamente tiram-nos tudo, o presente afunila-se, o futuro uma parede. E nós, apesar de adultos, tão crianças ainda, assustados, perdidos, juntando pedaços dispersos para nos reconstruirmos de novo, continuarmos. Na direcção de quê? Para onde? Quem nos espera ainda? Alcácer cheia de escuro, o brilho da água, a humidade a crescer com a noite, o silêncio mesmo quando se fala, no interior das palavras. Os movimentos do meu amigo angulosos, lágrimas fechadas nele, secretas. Quando se comove a boca altera-se, a maneira de andar, o sorriso, os olhos fixam-se no interior de si mesmo. Está e não está, uma região dele tão longe. Andava eu a falar de crónicas e derivei para aqui, o meu amigo, a sua cidade, ruas como aquelas que eu gosto, casas como as do bairro onde cresci
(Lisboa distante)
gente parecida com a da minha infância. Só faltavam os cães, só faltava a mata: desenhos na margem do papel, bonecos, riscos. Primeira pergunta: o que nos aconteceu? Segunda pergunta: o que será de nós? Não mandamos nada, os dias vêm e cavalgam-nos, arrastam-nos para onde lhes dá na gana, o nosso livre arbítrio é tão limitado, o que podemos escolher tão pouco. Passei os últimos dias em Paris, à chuva. Frio, chuva, trovoada, jornalistas o dia inteiro, conferências, autógrafos. O mesmo quarto de hotel sempre, a que me vou afeiçoando, a espécie de mesinha Império
(falsa, claro)
que me serve para escrever e não escrevi uma linha, passei as poucas horas livres que me deram a olhar para o tecto e a pensar numa frase de Einstein: devemos fazer tudo o mais simplesmente possível mas não mais simplesmente do que isso. O raio da frase não me largou toda a semana, na certeza de que me havia de servir não entendia para quê, enquanto ela se transformava em mim, crescia, se ramificava, principiava a dar botões, se me dissolvia no sangue. Há-de chegar à mão, há-de sair, não sei de que maneira, numa página qualquer, ou então atravessar as páginas todas. Devemos fazer tudo o mais simplesmente possível mas não mais simplesmente do que isso: grande cabrão que acertou em cheio.
Alcácer, outra vez. O sofrimento de um amigo dói, principalmente quando o advínhamos cheio de sentimentos contraditórios, perplexidades, interrogações, memórias. Na altura em que o meu pai morreu e me telefonaram muito cedo, etc. Por aí não. Outra conversa, António, se fazes favor, deixa o fundo de ti para ti, os teus livros, o teu lodo. Ontem, treze de outubro, uma data especial e eis o cemitério de Abrigada tremendo-me nas pálpebras. A senhora que trata do jazigo a apontar uma prateleira:
- O seu lugarzinho ao lado da menina, senhor doutor.
O meu lugarzinho ao lado da menina, à espera desde há quase onze anos. O mais simplesmente possível mas não mais simplesmente do que isso. E quero, como o meu avô, oficial de Cavalaria até à medula da alma, ir ao armão dos militares, acho que tenho direito a isso, antes de ocupar o meu lugarzinho frente à serra. Há semanas passei pelo quarto alugado onde começámos a viver. Como não tínhamos dinheiro para mandar cantar um cego, depois do jantar, feito no parapeito da janela por causa dos cheiros, dávamos a volta ao quarteirão. O amor não são prazeres breves e localizados, como sustentava Colette, autora muito da minha estima, é uma vocação de sarça ardente. E estremeço de alegria quando noto nas minhas filhas as mães delas. Pareço uma caninha ao vento. Firme que nem caniço em noite de tempestade. São tão raras as mulheres que habitam a cama como um quadro habita a moldura, em que almofadas, lençóis, colchão, possuem o exacto tamanho delas e nós uma vontade humilde de ajoelhar, diante de tanta miraculosa perfeição. Sejam que horas forem é sempre
A beleza do seu texto, onde transbordam emoções, sentimentos, vida, em palavras tão simples e bonitas, que mais simples seria impossível.
Às vezes é fácil abraçar uma pessoa o dificil é sentir o calor que ela
traz.
Bem-haja pela serenidade que sempre encontro nas suas crónicas.
Sara
Por que motivo sinto este peso aterrador da sua escrita se quando me lembro de si como pessoa, não como escritor se tal me é permitido, o vejo como um menino, doce (digo-o a contra-corrente, gosto de assim ser, sinto-me livre)...foi isso que senti quando um dia o abracei no Circulo Literário do Porto...tão grande mas um corpo moldado para os afectos.
Esmagador e pertubador (só aligeirado por C.P.E. Bach , a cravo, tocado por Trevor Peannock, que estou a ouvir na Antena 2, neste momento). As palavras dos seus textos são como o beliscar nas cordas do cravo, arrepiam...palavras metálicas...não, não é pieguice...está para além do racional...talvez como a "linguagem dos arcanjos"...que só alcanlamos quando amamos.
Utiliza muitas frases dos outros, é justo: o António é como a natureza a transformar, na ostra, o grão de areia em pérolas. Saber capturá-las e dedicar-lhe a atenção que merecem é uma arte: LITERATURA, com todas as letras grandes, e o António não se faz rogado.
Também, gosto de frases feitas , claro que mais chãs mas não menos importantes, e sendo idóneas torno-as minhas e permito que sejam o meu norte, o meu devir, e que coladas à minha pele façam parte da minha vida...viver também é uma arte e (nós) às vezes somos cá uns artistas! Há uma de que gosto, particularmente, e aprendia-a com um ancião que um dia, gentil, a colocou nas minhas mãos: " se quiser saber o carácter de uma pessoa dê-lhe poder e a forma como o utilizar dar-lhe-á a resposta". Nada mais certo!
"ruas como aquelas que eu gosto, casas como as do bairro onde cresci" ; isso, as ruas da nossa infância, que nos pareciam grandes, agora são pequenas e afinal são as mesmas, mas já não cabemos nelas; o prédio onde nasci ainda lá está, em Lisboa, com as águas furtadas e azulejos azuis, eu fico na rua a olhar para as minhas janelas, com uma vontade de tocar para o 2º direito e pedir deixem-me espreitar o quarto onde nasci, fica mesmo em frente à porta!
"fazer tudo o mais simplesmente possível, mas não mais simplesmente que isso", senão torna-se complicado... adorava ver o quarto onde nasci, mas naturalmente era corrida à vassourada, pensando que eu era doida! porque as pessoas são assim, não querem conhecer os sentimentos dos outros!!! assim eu limito-me a olhar aquele prédio como se fosse um monumento!
Obrigada DR. por me fazer recuar no tempo; a esplanada que fica na beira da estrada em Alcácer do Sal, também me é familiar: de manhã pela fresquinha, as torradas e o cheirinho do café com leite, aquela brisa, não dá para esquecer!
Cumprimentos DR. António Lobo Antunes.
A verdade é uma só: somos sotãos vazios de nada ! Escolhi esta parte da cronica pois foi a que mais me tocou, tem toda a razão Dt, mais nova que o Sr. e penso o mesmo, já perdi a esperança e, vivo das recordações, as lágrimas caem agora porque no fundo sinto-me uma criança sózinha, não continuo na direcção de nada e, não espero ninguem, nem coisa alguma, vivo ! Melhor sobrevivo no meio do amarelecido passado e o meu sotão está vazio, nem sei bem o que estou a escrever, estou triste, recordo o luto que ainda nem fiz, 31 anos Dt quanto a isso o Sr bem sabe, tudo gira eu parei sem vontade de continuar, já não vale a pena, fazem de nós pessoas inuteis, come com comprimidos, dorme com compridos, ri com comprimidos, que sou ? Uma drogadita legal, aceita e, se não aceitares lixas-te ok ! Deixem-me ao menos o tabaco pois é ele que me consola e, maldita lei contra os fumadores, tomar 1 café e fumar ao mesmo tempo ou na esplanada ao frio ou calor ou então toma-se café em casa e, ai fumo o que me apetece e, aqui vai para os não fumadorese se deliciam com a nova lei: FUMEM OS TUBOS DE ESCAPE ESSES NÂO FAZEM MAL, SEUS TARADOS ! Perdi-me do que estava a comentar, duras verdades Dt tudo se vai aos poucos mas uma coisa não nos podem tirar o PENSAMENTO e, não nos tapam a boca, a minha não, se junta-se todos os cadernos, folhas, blocos e os manda-se para editar era quem sabe internada compusilvamente pois porque não tenha fama literária, para isso conto consigo Dt escreva para me fazer FELIZ.
Se pudesse voltaria a ser criança, mas ficava lá na infãcia bela que tive e, onde tudo era tão diferente, havia amizade, ajuda, companheirismo entre as pessoas, hoje nada exites, esta sociedade está podre é ver quem consegue lixar o outro o mais depressa possivél, a rivalidade e o ódio domina o ser humano, sobrevive a gananãncia, eu quero, eu quero mais e, mais e tenho, coitados pobres miseravéis e coração tendes ? não ! porque só pensais em vós, olhai há volta, olhai o velho sentado no banco da avenida esperando que vós adolescentes acabem as vossa comprinhas nas lojitas de marca, enquanto ele bebe o seu vinhito para mais uma noite adormecer sobre as estrelas se tiver sorte e não chover, sim esse msemo que quem sabe teve tudo e nada tem, trabalhou vive, sobrevive hoje entre as " sombras truncadas de gente,emoções,memórias " do que foi e já nada é nesta sociedade e, nela se encontra perdido, tambem ele se pudesse voltaria há sua infancia no entanto não passa de um papel amarrotado a que ninguem liga, em que direcção vai ? para onde ? quem o espera ainda ? NENHUMA, PARA NADA, NINGUEM ! ! Como tem razão Dt o tudo o que nestas cronicas partilhadas `SÓTÃOS ONDE O PASSADO AMARELECE, quantos sótãos andam ai ? naquele e no outro ali ? das suas caras já não saem sorrisos rasgados esses foram ficando para trás, carregam o peso dos anos, dos desgostos e das saudades e, nesta Lisboa são muitos, muitos que vão sendo deitados abaixo como fazem aos velhos prédios de habitação ! Obrigada Dt
Como não tínhamos dinheiro para mandar cantar um cego, depois do jantar, feito no parapeito da janela por causa dos cheiros, dávamos a volta ao quarteirão. Se me permite Dr. DR. António Lobo Antunes gostaria de reescrever a frase:
Como não tínhamos dinheiro, depois do jantar, feito no parapeito da janela por causa dos cheiros, dávamos a volta ao quarteirão.
Não alterei o seu pensamento e não ofendi os cegos. As cidadãs e cidadãos cegos do seu país trabalham.