"O vento sopra doido e o que foido" e outras letras de canções
12:40 Quinta, 2 de Julho de 2009
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A música é um eficaz disfarce de limitações poéticas. Quando vamos no carro a cantarolar uma música que passa na rádio, raramente pensamos no significado das letras. Apenas repetimos as palavras que ouvimos sem dar grande atenção à mensagem que o artista tenta transmitir. Talvez porque estamos extasiados com a voz melodiosa do cantor. Ou com a nossa. Mas, sem música, o crime perfeito deixa de ser perfeito: de repente, a letra da canção perde o aparente bom gosto. E o sentido. Aqui ficam alguns exemplos de candidatos a Camões-com-guitarra-e-bateria-de-fundo:
E se partires de manhã
Deixa a sombra e o chão
Esta noite eu e tu
Somos a palma e a mão
(A Palma e a Mão, João Pedro Pais)
Repare-se na mestria métrica (artisticamente ignorada, coisa que exige coragem por parte do autor), mas, sobretudo, tente-se descortinar o que o João Pedro quer dizer com isto. Um é a palma e o outro é a mão? Mas a mão inclui a palma... E os dedos também, já agora... Quer isto dizer que um dos protagonistas é mais do que o outro? Ou significa que são indissociáveis, de uma forma que deve fazer todo o sentido na cabeça do João Pedro? Mas neste caso levanta-se outra questão, bem mais interessante: será que uma mão que perde os dedos ainda pode ser chamada de mão ou passará a ser apenas uma palma?
Deixemos o Poeta João Pedro e passemos ao Poeta André.
Gosto de ti desde aqui até à lua
Gosto de ti desde a lua até aqui
Gosto de ti simplesmente porque gosto
E é tão bom viver assim
(Adivinha o Quanto Gosto de Ti, André Sardet)
Fico extasiado com a implícita sinceridade do André a admitir, sem vergonhas, a sua óbvia falta de ideias, ao dizer "gosto de ti simplesmente porque gosto". Imagino-o sentado no sofá da sala de estar, de guitarra ao colo, a cantar para a filha "Gosto de ti desde aqui até à lua, gosto de ti desde a lua até aqui...". Entretanto hesita; pára de tocar e começa a puxar pela cabeça: "Mas gosto de ti porquê, filha? Eu sei lá... Estas coisas não se explicam."; "Então não expliques, papá."; "Boa ideia! É mesmo isso! Porque é que me hei-de dar ao trabalho? Gosto de ti simplesmente porque gosto, e é tão bom viver assim. Rima? Rima! Siga para bingo."
Um advérbio de modo, seja ele qual for, fica sempre bem numa canção. Antes que a cabeça comece a doer, passemos ao último exemplo.
Mas nisto o vento sopra doido
E o que foido
Corpo num turbilhão
(O Sopro do Coração, Clã)
Podem tentar convencer-me de que a Manuela Azevedo quer dizer "e o que foi do corpo num turbilhão". Mas macacos me mordam se ela não diz "foido".
Apoiado. Mas falta esclarecer: o Sardet gosta dela até à Lua, porquê? Está a pensar em viajar até lá? E se for a Marte? Já é longe de mais e não gosta? É até à Lua, porque dá uma ideia de grandeza? Então porque não até ao Sol? É mais longe... Ou Plutão... Ou será porque a Lua fica sempre bem numa poesia kitch? Já agora, ele tem outra onde diz mais ou menos isto: «Não sei como fui gostar tanto de alguém como tu». Ou seja: a pessoa objecto do amor dele não é merecedora. Ele está a dizer que é incrível como foi apaixonar-se tanto por alguém «como tu»... Será uma rapariga muito feia, muito horrível, ou uma psicopata assassina ou, mais prosaicamente, não uma mulher, mas uma ovelha? Fica a dúvida.
Eu prefiro a poesia rimada mas não com termos que não existem
em português,com êsse do foido.Eu todo o caso deixarei aqui o meu
contributo poético.
Não deixes para àmanhã/o que hoje podes fazer/pois que a razão de ser/desta pressa,dêste afã/é que a morte pode aparecer/de
repente com pés de lã/e devido à fatal paragem/não poder entregar
a mensagem.
Os meus desabafos em poesia/são a forma que tenho à mão/para
criticar dêste mundo cão/a pulhice e a velhacaria.
Eu sou assim…
Uma alma insaciável…
Com sede de infinito…
Eu sou assim…
Uma alma imensa…
Porque trago no olhar as ondas do mar…
Eu sou assim…
Sonho que sou o tradutor dos teus sonhos…
E quando acordo…
Fui apenas uma gota de chuva no teu rosto…
Uma coisa é dizer mal/outra coisa é maldizer/pois quem não sabe ler/pode cometer falta,afinal.É típico,no meu entender/que nos Bairros degradados/a má-língua,o maldizer/são passatempos usados.Mas há indivíduos letrados/até com curso d'Academia/que, com subtil velhacaria/forjam mexericos malvados.Nas costas dos outros,vejo as minhas/conforme o velho e popular rifão/e com suas intrigas mesquinhas/o alcoviteiro faz desunião.A tendência para a alcoviteirice/que é congénita em muita gente/pode ser fruto do meio-ambiente/ou velhaca,trapaceira politiquice.Um comentário,
uma crítica qualquer/é certamente muito diferente/que ser intrigante de levar e trazer/e «morder«na vida de muita gente.
Pensando bem,digo para comigo/Se êle diz mal de toda a gente/
mal de mim,dirá certamente/embora aparente ser meu amigo.
A má-língua existe em todo o lado/não é um exclusivo de Portugal/
se na Política entra a má-língua afinal/então é que fica tudo abandalhado.Se há Políticos como «mulheres de soalheiro»/tal como
em meios-ambientes degradados/então é porque existe «jogo« trapaceiro/e os trabalhadores é que ficam tramados.
Ó eiras da minha aldeia/onde o vento sopra amigo/separando a palha do trigo/e da cevada e da aveia.Ó eiras da minha terra/onde no pino do verão/a luta p'lo ganha-pão/muito sacrifício encerra.
Ó eiras do trigo ceifado/com a foice malfadada/espera a próxima eirada/onde afinal é debulhado.Ó eiras onde no verão/o rude campónio trabalha/em proveito da canalha/que depois lhe nega o pão.Ó eiras do trigo ceifado/p'la foice que é odiada/pela fascista
cambada/inimiga do proletariado.Ó eiras da minha aldeia/do Algarve p'ra mim distante/eu,um português emigrante/vítima da
clerical alcateia.Em Oeiras da beira-mar/também se malhou o trigo/aqui o burguês tem abrigo/e o proletário tem azar.Oeiras da
beira-Tejo/que foi terra do Conde/aqui o burguês tem àvonde/e tem fartura de sobejo.Oeiras do Conde-Marquez/que o Jesuitismo expulsou/mas como escalrracho medrou/e está abancado outra vez.
Aqui a talhe de foice/com que é ceifado o trigo/direi que o nosso inimigo/é reguingão e dá coice.
Se podemos dizer isto da bela poesia musical de André Sardet, o que dizer então de "Foi feitiço"? Reparem:
Eu não sei o que me aconteceu
Foi feitiço, o que é que me deu
Para gostar tanto assim de alguém como tu?
Leiam isto agora sem pensar na música, tal como se fosse prosa e pensem se gostariam assim tanto de dedicar esta música ao vosso(a) amado(a). É que basicamente é a mesma coisa que dizer "Como raio é que me fui apaixonar por este trambolho?"!
Não guardes para àmanhã/o que podes hoje fazer/pois que a razão de ser/desta pressa,dêste afã/é que a morte pode aparecer/de repente com pés de lã/ devido à fatal paragem/não poder entregar a mensagem.P'ra guardar a vinha que te é cara/entrega sua guarda a um ladrão/e se queres conhecer o vilão/põe-lhe na mão uma vara.
Lá diz o velho Ditado/que não sirvas a quem serviu/nem peças a quem pediu/se não queres ser codilhado.Com mentalidade de pulga/ pensando dos outros o pior/o bom julgador,por si se julga/e de
intrigas,é Mestre-Mor.Conforme diz o velho rifão/que é um Ditado popular/mais vale um pássaro na mão/que dois no espaço a voar.
Há quem diga que são tretas/ou que são pequenas pevas/mas ao pobre não prometas/e ao usurário não devas.Bôca de muito sorriso/é sinal de pouco siso?!Será franco ou trapalhão/do Blair,o sorriso de balcão?!Uma mão a outra lava/e as duas lavam a cara/
e numa entreajuda cava/Bush e Blair fazem algara.A ocasião faz o ladrão/assim diz o popular Ditado/que tu se roubares um pão/és considerado um ladrão/e para a prisão és levado.Mas se roubas um milhão/de modo gentil,delicado/até podes ser elevado/à categoria de Barão.Da pulhice humana,os perigos/espreitam de muita toca/e há uns que comem os figos/e a outros rebenta a boca.Também diz
o velho Ditado/que tem,do Povo,o saber/que guardado está o bocado/para quem o há de comer.