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Dança o cão, dança o gato, dança o feijão carrapato

20:08 Quarta-feira, 18 de Nov de 2009

Diziam-me isto, em criança, e eu adorava. Voltou-me hoje à ideia, passado tanto tempo. Tanto tempo, uma ova: era menino, limitei-me a piscar os olhos e fiquei como agora. Entende-se a maldade? Eu não entendo. Piscar os olhos é um instantinho, que raio de merda aconteceu? Mascararam-me com rugas, cabelos brancos, vontade de ir mais cedo para casa. Brincadeira de mau gosto, a idade. Oiço 

- Você era lindo 

e torno-me uma pedra por dentro. Miséria deste tempo verbal, era, que horror. E lindo, ainda por cima, eu que nunca me achei lindo, sempre me dei mal com a minha cara, o meu corpo. Notava o olhar das raparigas e achava esquisito. Até bilhetinhos me mandavam, até conversa comigo metiam. E eu corado, aflitíssimo. Uma ocasião, com catorze ou quinze anos, fui ao Bairro Alto, a uma casa de prostitutas. A bicha começava logo na escada. Lá fui subindo aquilo degrau a degrau, atrás, nunca me esquece, de um magala fardado. Uma criatura à entrada a cobrar o dinheiro, uma sala com espelhos, cadeiras mulheres sentadas, de roupão. Não consigo reconstituir bem o que se passou depois, a minha cabeça, chegada a este ponto, dá um salto e estou num quarto com uma cama, um cabide pendurado de um gancho na parede, um bidé e uma garrafa, para além de uma mulher, há pouco sentada, a despir o roupão e a mandar-me despir. Desci as calças, atrapalhando dedos nos botões, a mulher fixou-me mais ou menos ao centro do corpo, declarou 

- Deus deve gostar de ti, miúdo 

e no momento a seguir estava a puxar as calças para cima e a fugir escada abaixo desarrumando a bicha. Continuei virgem durante séculos, é uma forma de expressão mas serve e, além disso, razoavelmente exacta. Dança o cão, dança o gato, dança o feijão carrapato.

 O que sucedeu à minha lindeza? Murchei devagarinho ou de repente? Sou feio, nesta altura? Um pavor se calhar, todo torto. Recordo-me do meu pai fazer trinta e três anos

(idosíssimo)  

porque eu gaguejava e repetia trin trin trin para alegria dos crescidos. Recordo-me também de, nessa época, estar doente com a tuberculose, que a minha mãe apelidava, julgo que por vergonha, de gânglios:

- O António teve gânglios 

consoante me recordo da falta de apetite, do frio, de estar deitado, de conversas incompreensíveis à minha roda. O meu avô dava-me miniaturas de bichos em vidro que eu atirava, com fúria, contra a janela. Não me recordo dos remédios, não me recordo do médico, recordo vagamente as minhas tias a tomarem conta de mim. Do sol na janela. De soldados a marcharem na Estrada de Benfica. Dança o cão, dança o gato, dança o feijão carrapato. 

Doenças: uma meningite também cá canta, aos nove ou onze meses de idade. Contam os aedos da tribo que comecei com febre e entrei logo em coma. O que eu fiz para morrer, tantos esforços, logo ao princípio, merecem consideração, aplauso. Não recebi nem uma nem outro. Se calhar julgaram que não fiz de propósito, os tontos. Temos alguns suicídios na família, nós: o pai da minha avó, primos do meu avô, assuntos secretos, que me relataram já tarde e com vergonha. Há alturas, e digo isto em segredo, em que fico com os dedos negros, procurando uma corda. O António de língua de fora, desorbitado, a baloiçar. Depois a esperança volta, recomponho-me. Espio a mão: dedos cor de rosa, normais, já não tenho bichos a devorarem-se dentro de mim. Que era lindo. Agora sou um senhor. Num dos restaurantezecos onde como o dono trata-me por jovem:

- Boa tarde, jovem 

- Então o que vai ser hoje, jovem?

 - Meia-dose ou uma dose, jovem? 

e eu aceito o jovem que, de tempos a tempos, se metamorfoseia em amigo

- Então o que vai ser hoje, amigo?

embora, ultimamente, penda para o jovem e me atire cotoveladas cúmplices.

Sinceramente o que foi hoje não me lembro. Espera, lembro: empadão de carne, meia-dose. E saí na mecha para fazer as compras da casa e escrever isto. A seguir começo o trabalho no livro de que tenho apenas o magma da primeira versão e não faço ideia, sequer, se é ou não um livro. Muitas dúvidas acerca disso e receio bem que acabe no lixo. Mais de metade do meu trabalho acabou no lixo. E, na manhã seguinte, lá estava eu no caixote a procurá-lo, tentando reconstituir dúzias e dúzias de páginas amarrotadas e rasgadas. Com o Fado Alexandrino, então, foi um sarilho, aquilo era grosso como o diabo. Dança o cão, dança o gato, dança o feijão carrapato. E tem sido um dia infernal, entrevista cedo, encontros de trabalho à tarde e eu, à socapa, a espreitar a mesa das palavras, ansioso por voltar a elas. Por que razão o tempo roubado à escrita me faz sentir culpado? É esquisito mas faz, não devia sentir-me culpado: acabo por estar nisto tantas horas, deixo a pele, deixo a alma nas frases, crucifico-me todo. Anoitece, acendo a luz, continuo. Tão cedo ainda para entenderem o que digo, perguntas estúpidas, interpretações parvas. Isto, sobretudo, nos jornais. Dos universitários só tenho a dizer bem, há um entendimento do texto muito mais profundo. Agora os artigozinhos de jornal, em regra, são uma miséria: opiniosos, superficiais, ignorantes, tão desonestos às vezes. E dão estrelinhas, os camelos, de mistura com uma ignorância de pasmar. Então o que vai ser hoje, jovem? Peço o jornal desportivo para ler enquanto como, um olho no prato o outro no futebol. Saudades de Garrincha: escrevia tão bem! Quando eu era miúdo e comprava os bonecos da bola o avançado centro do Elvas chamava-se Patalino. E um defesa do Olhanense Grazina. O guarda-redes do Sporting de Braga Cesário. O do Estoril Sebastião. Espero que estejam todos de boa e feliz saúde pela alegria que me deram.

- Você era lindo 

e na época de Patalino, Grazina, Cesário e Sebastião, reconheço que era lindo de facto. Se eles voltarem a jogar prometo ser lindo outra vez.

 
 
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Você era lindo
a.dúvida (seguir utilizador), 2 pontos , 16:17 | Quinta-feira, 19 de Nov de 2009
Caro Dr. Lobo Antunes,
Deus deve gostar muito de si... porque lhe concedeu a beleza de ver a vida com os olhos da alma.
E continua lindo...porque o coração nunca envelhece. Basta um sorriso, um pequeno nada e tudo se ilumina...
Bem-haja.
Sara
POESIA A SAIR DA BOCA
arturgoncalves0 (seguir utilizador), 1 ponto , 17:07 | Quinta-feira, 19 de Nov de 2009
Hoje o António fez-me lembrar o "Poema à Mãe" do Egénio de Andradre. É simpático dizer "piscar os olhos é um instantinho..." , bonito, muito bonito.Vastas vezes utilizo, também, essa expressão e com esse sentido mas não acredito que o sinta no fundo do seu coração...sabe porquê? Literatura. É uma forma de legitimarmos o facto de nos socorrermo-nos do nosso 'passado mais passado'....Falar dele poê-nos velhos aos olhos dos outros.
  Mas há mais passado para além desse, bem o sabe!Por exemplo a ida às meninas! Sabe António, agora os jovens não têem essa aventura, terão outras género de viagens tipo "chave na mão", sem custo nem custos. L' aventure, etait l'aventure : esse privilégio não o têem!
O meu amigo, o jovem como o tratam é património seu, é aquilo que lhe permite nesta crónica contar a sua incursão, aquando jovem, a uma casa de prostitutas...não é qualquer um que tem a veleidade de relatar um episódio destes, por mais literatura que se queira produzir, não! Assumir que o fez diga-se é um acto de coragem seu. Pois vou irmanar-me consigo neste momento, na juventude numa das raras vezes que frequentei esse tipo de lugar a jovem que me calhou em sorte disse-me que tinha o corpo muito bonito, não fugi porque foram palavras mais simples, ao Anónio foi-lhe dito de forma mais generosa, e as palavras assustam-nos quando são poesia a sair da boca, mesmo de uma prostituta.
O MENINO, O DOUTOR, O ESCRITOR !
margarida douwens (seguir utilizador), 1 ponto , 7:56 | Sexta-feira, 20 de Nov de 2009
Obrigada Dtr. mais um belo texto, onde se despe para os seus leitores. Esteve para morrer várias vezes mas isso não aconteceu e, apesar dos amufos com Deus ele foi amigo, do Sr. ou de nós ? Pouco importa, o facto é que tinha que viver para cumprir aquilo que lhe estava destinado, ESCREVER e, por bem não deveria morrer e, não morrerá nunca. Pela sua maneire de ser, pela maneira de escrever, pela simplicidade com que se despes de preconceitos, obrigada Dtr, muito, muito obrigada e, que Deus seja sempre o amigo que tem sido, para consolo de quem do Dtr. gosta.
O meu eterno agradecimento.
Margarida.
interessante
Belisa Pessoa (seguir utilizador), 1 ponto , 15:59 | Sexta-feira, 20 de Nov de 2009
Não tenho por hábito ler o que escreve. Mas, hoje, talvez porque sim, aconteceu. Li e gostei, especialmente porque ajudou a manter a boa disposição com que iniciei este dia. Conheço bem essa deselegância com que alguns, por vezes, se referem ao que somos comparando-o, atrevidamente, com aquilo que acham que “fomos”.
Nesta manhã de Novembro lamentei que não conhecesse a minha tia Carlota, octogenária imparável, actualmente a viver num 6º andar que em tempos foi habitado por si. Mas porque a imaginação é um espaço sem limites, promovi um encontro entre os dois ao qual eu, por não resistir, assisti (perdoe o abuso). É que a tia Carlota tem uma técnica que tento a todo custo aprender. Ela aposta sempre na valorização de algo indefinido mas passível de constituir uma qualidade específica e defende-a com toda a convicção. No encontro, que terminou há minutos, ela considerava-o, como sempre, um «homem simpático» - o que na linguagem familiar pode querer dizer sexy, bonito, bom conversador, alegre, interessante…
Votos de um belo dia
Jovens dos 60...
Apolo (seguir utilizador), 1 ponto , 5:46 | Sexta-feira, 27 de Nov de 2009
É realmente engraçado a forma como o DR. conta as coisas! até as mais íntimas que ninguém se atreve! tem um não sei quê de tão à vontade, que acaba sempre numa leitura que contada por outros não teria graça nenhuma, mas o DR. fá-lo de uma forma tão espectacular!!!
E o engraçado é também a tal forma como nos tratam, por jovens! eu tenho um médico, que também me trata assim! fiquei sempre sem perceber, porquê? se tenho cabelos brancos, uso óculos, baton e tenho uma série de problemas de saúde que é um espanto! afinal não sou só eu, há outros jovens da minha idade! como o DR. António Lobo Antunes por exemplo; até o acho bonito DR., por fora e por dentro... Desculpe DR., mas se dança o cão, o gato... olhe dancemos todos por aí fora, os jovens dos 60...
Jovem
mora (seguir utilizador), 1 ponto , 15:20 | Segunda-feira, 30 de Nov de 2009
Esta prosa respira, dá alento, vai ao fundo do eu em auto-retrato movente buscar o sumo dos dias. Essa disponibilidade de meter a vida nas palavras e de construir aventuras que acontecem e são impossíveis. Não se trata de fuga, trata-se de pôr a realidade em
itálico, a fealdade produtiva construção, na mesa do bisturi e de a escalpelizar, cirurgia subjectiva e deambulação. Gosto da sua prosa como naufrago e a cada crónica reaprendo a nadar. Como diz do magma, o livro em estaleiro, espécie de massa verbal atirada para uma prospectiva que se faz ou desmente - é nesse movimento e nesse estado, ou disposição, que se vive.
Meu caro, quanto à infância, por aí anda, pode estar certo.
um abraço
mora

Repleta
N.Q.S. A.M.D. (seguir utilizador), 1 ponto , 1:03 | Domingo, 6 de Dez de 2009
Tu cresceste e cresceste , para te elevares como dor desmedida.
era menino
N.Q.S. A.M.D. (seguir utilizador), 1 ponto , 21:54 | Terça-feira, 8 de Dez de 2009
"Sopro no seu jardim para que se espalhem seus aromas" de mim para antónio.
do lindo ao gostoso...
xuxu (seguir utilizador), 1 ponto , 0:43 | Quarta-feira, 9 de Dez de 2009
Li e reli...gostei muito...como sempre...
Mas não sei porquê me vieram á ideia as Jabuticabas lindas que ainda outro dia colhi pela primeira vez no meu jardim e que agora que o tempo passou, além de lindas(ainda)são muito gostosas tambem. Pazeroso ler vc.
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