São 5 da manhã em Jerusalém e o silêncio que reina na parte oriental da cidade é quebrado pelos cânticos do muezzin, chamando os fiéis para a primeira reza do dia. O sol está prestes a nascer e a minha viagem para sul, em direcção à fronteira com Gaza, quase a começar.
O percurso de carro dura uma hora e meia e, ao longo do caminho, vários camiões carregando tanques e outro material militar seguem na direcção contrária - um bom sinal. A retirada israelita da Faixa de Gaza, concretizada no dia anterior, levou o governo hebraico a rever a sua posição em relação à entrada de jornalistas internacionais no território palestiniano e, pela primeira vez desde o início da guerra, a 27 de Dezembro, prometem abrir a fronteira de Erez a todos os repórteres que desejem viajar até Gaza.
Depois da acreditação junto do governo e assinadas duas declarações aceitando todas as consequências do que me possa acontecer, estou finalmente de passaporte na mão, numa fila com mais de 50 jornalistas. São sete e meia da manhã. Um cartaz avisa que a fronteira só está aberta até à 1h da tarde e que no sábado encerrará todo o dia. "E domingo, está aberta?", pergunta uma jornalista francesa a um militar. "Acho que sim", foi a resposta seca. O horário "normal" seria das 8 às 16h mas, neste local, a normalidade, tal como a entendemos, deixou de existir há muito. Aqui é normal, por exemplo, a fronteira ficar fechada durante semanas a fio.
Com o carimbar do meu passaporte sinto uma sensação de alívio e, simultaneamente, de apreensão. Neste momento, sei apenas que posso entrar - mas não tenho a certeza se, quando o desejar, conseguirei sair.
O edifício do posto fronteiriço de Erez alterou-se profundamente desde a minha primeira viagem a Gaza, no ano 2000. Hoje tem uma dimensão gigantesca e é muito semelhante ao de um moderno aeroporto. Depois do controlo de passaportes, sigo por um corredor até desembocar na chamada "terra de ninguém": um túnel desmazelado, com grades e toldos esfarrapados que me deveriam guiar até posto palestiniano. Mas, no final do caminho, encontro apenas ruínas. As bombas também não pouparam estes primeiros centímetros de terra palestiniana.
Volto a guardar o passaporte no bolso - não avisto vivalma a quem o mostrar - e sigo a pé por uma estrada de terra batida. Durante dois quilómetros, vejo apenas jornalistas, que percorrem o mesmo caminho que eu, arrastando malas de viagem, câmaras de televisão, sacos com coletes à prova de bala. Até onde a vista alcança, só se vêem escombros. Todas as casas que aqui existiam foram arrasadas.
No final do caminho, uma pequena cancela marca o início da Faixa de Gaza. Uns vinte taxistas esperam sorridentes do outro lado, antevendo negócio. Pedem quantias exorbitantes pelo transporte até à cidade de Gaza, a meia hora de distância. Felizmente, já tenho Abdul à espera, contratado previamente por um quarto do preço para me guiar, toda a manhã, pela zona norte do território.
Decidimos começar por visitar Salatin, uma das localidades mais castigadas pelos bombardeamentos. Mas não percorremos mais de uma centena de metros. Num check-point com militares do Hamas, de kalashnikovs a tira colo e pistolas a saltar dos coldres, fazem-nos sinal para parar. Um deles aproxima-se e enfia a cabeça pela janela do condutor, inspeccionando o interior do carro e olhando fixamente para as nossas caras. Fala com Abdul em árabe, pedindo os passaportes e, ao pegar no meu, diz num tom curioso: "Ah... Portugal". Folheia algumas páginas, dá um passo atrás, mas volta a espreitar pela janela logo a seguir: "Trazem álcool?", pergunta, num inglês esforçado. Dizemos que não, quase em coro. Esboçando um sorriso, devolve-me os documentos e dá uma palmada no tejadilho do carro: "You can go. Welcome to Gaza".