Tantas dores. É estranha, a dor: custa menos do que se pensa, a partir de certa altura a gente afasta-se dela, deixa de pertencer-nos. O que nos pertence é o vazio, uma indiferença esvaída. Levanto-me da mesa: a rapariga foi-se embora não imagino para onde, deixou-me sozinho neste apartamento
10:20 Quinta, 5 de Agosto de 2010
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Há bocadinho fui espreitar à janela e estava uma rapariga lá em baixo, à chuva. Isto às onze da manhã, a rua deserta e ela imóvel diante da agência de viagens, sem gabardina sequer, à chuva. Cabelos curtos, sapatos de ténis, os braços ao comprido do corpo, sozinha como uma estátua. Não volto à janela porque não quero encontrá-la, parece acusar-me de uma falta que desconheço, afigura-se-me um remorso vivo. À chuva. Não acaba, este inverno, esta solidão magoada, desconfortável. Faz três anos andava eu à brochinha com o cancro, sangue por todos os lados, a emagrecer, a sentir-me mal, a teimar que era uma bactéria qualquer que trouxera do México. Guadalajara, Guadalajara: deram-me a chave de oiro da cidade: está lá para dentro, no seu estojo, numa gaveta de armário. A chave de oiro de uma cidade não abre nada a não ser portas interiores: e para além das portas interiores quartos vazios na sombra, cada qual com a sua rapariga à chuva que aliás agora parou, veio uma suspeita de sol. Não tarda nada o sol vai-se e a chuva recomeça. Até quando? Dá ideia que para sempre, nunca mais vai cessar de chover. E a rapariga ali quieta, não à espera, não por teimosia, ali apenas, se calhar para sempre também. Vinte, vinte e cinco anos, sozinha. Na agência de viagens iluminada empregadas a secretárias, cartazes: Bermudas, Marrocos, Porto Rico. O vento feio sacode árvores feias. Os prédios feios, os automóveis feios, tudo feio. Não me lembro de um inverno assim sujo, escuro, na minha cidade outrora cheia de luz. Galhos depenados, nem um pombo, nem um pardal para amostra: o que sucedeu aos pássaros? Escrevo isto de luz acesa, com a morte na alma. Quando estive doente ao menos havia sol, um sol inútil para mim mas sol. Enfim, julgo que sol ou então eram aquelas lâmpadas todas na minha cara:
- De que vais morrer, António?
- De cancro
e as lâmpadas a aumentarem de intensidade na minha cara. Tantas dores. É estranha, a dor: custa menos do que se pensa, a partir de certa altura a gente afasta-se dela, deixa de pertencer-nos. O que nos pertence é o vazio, uma indiferença esvaída. Levanto-me da mesa: a rapariga foi-se embora não imagino para onde, deixou-me sozinho neste apartamento. O que faço sem ela ali em, baixo, junto à agência de viagens, Bermudas, Marrocos, Porto Rico? Fotografias de gente na praia, camelos, palmeiras. Aqui são tipuanasmagras, atormentadas, a água cinzenta a escorrer para as valetas, ramos com uma única folha, não verde, amarela, quase a soltar-se, ramos sem nenhuma folha, tortos, magros. Não fui às Bermudas nem a Marrocos nem a Porto Rico, que conheço eu do mundo? Janelas fechadas, ninguém a pendurar roupa nas varandas. Martelam no andar de cima, talvez estejam a crucificar alguém. Pela aflição dos galhos percebe-se que o vento aumenta. Daqui a nada estou no restaurante do costume: o empregado empresta-me um jornal desportivo, imensos guarda-chuvas numa espécie de vaso junto à porta, a máquina de vender cigarros a zumbir. Ligo a ternura eléctrica do calorífero que queima mais do que aquece e me frita a perna. A ementa não varia, como sempre a mesma coisa: tanto me faz. Pressa de voltar aqui a fim de continuar a escrever. Leio a última frase e avanço aos solavancos, este é um ofício esquisitíssimo. Quando lerem nem sonham o que penei nas frases. Quer dizer, espero que nem sonhem o que penei nas frases. Tem de parecer fluido, fácil. Que dia é hoje? Sei lá, tanto faz. Tanto faz? Tanto faz. Um relâmpago e logo a seguir sons de penedos enormes a caírem uns por cima dos outros. Se tivesse quinze anos outra vez jantava com os meus pais, os meus irmãos. Tenho saudades disso, de fazer parte de uma família. Esperar, aflitinho, diante do quarto de banho fechado. Se batiam à porta avisava-se
- Está gente
num berro que os azulejos ampliavam. Pode parecer ridículo mas adorava voltar a fazer cocó em Benfica. A banheira com patas de leão, o esquentador pré-histórico, os perfumes da minha mãe numa mesa, o cheiro da laca dela, a brilhantina do meu pai, o pente sempre gorduroso, a escova com que alisava o cabelo apertando-o nas têmporas. Era o único de nós que fazia a barba. Acho que também não visitou as Bermudas nem Marrocos nem Porto Rico. Saía para o hospital de manhã, voltava ao fim do dia e tudo cheirava a cachimbo. Achava esquisito que tratasse o meu avô por pai, pai era ele, o meu avô era avô. Esse fazia a barba também. O mundo inteiro fazia a barba menos eu. Sinto a falta da rapariga lá em baixo, à chuva, preocupo-me com o que lhe terá acontecido. Nem quero pensar que a água das valetas a levou, de mistura com as folhas caídas.
Mas que metáforas mais arrevezadas, conselhos sobre a utilidade da dor, desabafos da "lonely heart club's band", referências ecológicas aos "recursos inertes" do "poço da Alegria" apetrechado com balde e tudo, dedos apontados aos poetas da poesia confessional, deprimente ainda por cima, sem "a coragem de construir novos mundos", confusos apontamentos ensaísticos duma lira destemperada (O que será que “o autor quer transmitir OU NÃO"?), dúvidas perversas à la consultório sentimental da revista Maria sobre os recessos dos “homens decepcionados” e certezas também au tal consultório sobre "as mulheres [que] sucumbem", previsões meteorológicas porque “a vida é assim”. Enfim, textos de gente bastante "acometida de enganos"... Tanto liriquismo balofo. Afinal, tanta dissertação sobre coisas que “ninguém sabe".
A bem da Literatura urge a liquidação total 'destes' desertos pseudo-literários. É que o Mestre não merece estes comentários. Antes assinalar apenas com uma x no quadradinho do ‘Sim’ como se se tratasse de um questionário de perguntas fechadas onde estivesse: 'Gostou? Sim? Não?' .
Eu já assinalei o meu sim e, à revelia das questões fechadas, escrevi à margem: ‘Muito. Sempre sublime.’
Decerto a minha opinião não vai contar para estatísticas.
Acredite que a pior dor é aquela que é vista por todos e ao mesmo tempo, por tão cruel e desastrosa ironia, é igualmente ignorada por todos. E infelzmente existem muitas dores assim, que é vista e revista pelos olhos de todos e continua a ser ignorada e despojada de qualquer uma pequena atenção, sendo apenas algo trivial e sem importância. Um coração partido é a pior dor que pode existir, só é igual à dor da morte. Não sei se os homens também se sentem assim quando decepcionados no amor, tenho curiosidade de saber. E só sei que a dor pode também servir de sublimação, fazer-se algo de útil com ela, sem ser apenas chorar e chorar, escrever poesia não deprimente, mas uma poesia que se reveja numa possibilidade de se poder ultrapassar a maldita dor, qualquer que seja a sua origem.
Será que é a solidão que é mais acompanhada, quando se escreve, ou é a dor que é mais escamoteada ? Porque pelas experiências de leitura que tive e o conhecimento das razões que mais levam essas pessoas a escrever, é precisamente a dor, umas vezes para a enumerar, outras, para a disfarçar. Ou está explícita ou implícita, ou muitas vezes ninguém sabe , só talvez desconstruindo o texto, que segundo as últimas definições deste conceito não se trata de destruir o texto, mas de encontrar novas interpretações para esse mesmo texto. Digamos assim que a aventura literária inicia-se com as várias interpretações dadas pelo leitor e não se centra apenas naquilo que o autor pretende transmitir ou não. Devido a isso ( à perseguição constante da dor ) também há quem se queixe de existirem muitos poetas portugueses a escrever poesia confessional, o que impede o crescimento de uma outra poesia que tem a coragem de construir novos mundos.
Lindo, lindo, lindo, de fazer"'chorar as pedras da calçada" portuguesa, não bastando já tanta chuva a flagelá-las. Que surpresa agradável abrir a Visão e descobrir o teu escrito que só esperava em setembro. Foi o mesmo que assomar à janela e para meu espanto, no dia triste, feio, nu, ver ali um vulto, aquele vulto parado, estático, mas alguém, ali especado, para mim, para os meus olhos, para a minha solidão, ainda que me acordando algum remorso escapado.
Sente, sente, chora, contorce-te, morre, mas não morras, não vás e me deixes aqui sem os teus sentimentos a acender os meus .
Tem mais saúde do que imagina, tem toda a saúde que Deus quiser, não se coíba pois de nada que "gaste" a sua saúde, pois quanto mais a vida é movimentada, mais vida ela gera. Você parece mais solitário do que nunca, (e com isso as mulheres sucumbem), uma solidão interior do tamanho da Sibéria, a perder de vista. Tinha que ser assim? (não fora pelas mulheres...). É a que o move a escrever? (ela, não elas). NÃO ACREDITE.
E agora vem o anúncio:
Você ainda tem o poço da Alegria, o grande e o seu, a deitar o balde e recolher. Estão intactos à espera. Conhece? Esse produto? Essa matéria subtil e dúctil? Essa água inédita, reserva formidável, a liquidar os desertos? A nível planetário o último dos recursos inertes* ? E o mais útil.
( * Não facilmente modificável por qualquer fortuita química).
Bem sei que, por vezes, num único corpo encontramos todo o universo, muito maior que Bermudas, Porto Rico e Marrocos, não é mesmo?
É possível, caro escritor, que o inverno se prolongue mais que o esperado e que a chuva teime em nunca mais cessar.
O sol, teimoso, possivelmente, alheio ao frio da alma,está a aquecer outros campos, assim é a vida.
Nem sempre nos damos conta de que uma semente imprópria poderá arruinar toda a nossa colheita, mas quem sabe não estou acometida de enganos?
D. Maphalda, peço-lhe que esclareça quais são os tais três adjectivos e os tais dois substantivos de peso a que alude e quem os empregou, para ver se consigo perceber minimamente os seus textos.
Mas desde já confesso que acho piada ao non-sense e aos cadavres-exquis.
De polémica também gosto bastante, mesmo quando possa parecer algo feroz, desde que todos os participantes digam coisa com coisa. Caso contrário, recuso-me a perder tempo.
Passou o inverno,e as chuvas...
Mas ela resiste em mim,a chuva...
Tenho em mim as asas e gosto de voar,nunca sei por onde começo
mas é sempre muito aquém de prever o meu vôou...
Levo meu coração cheio de Amor para quem me quizer roubar...
Lembro-me muito do inverno passado,da chuva e das gaivotas...
Esse texto que escreveu é muito belo,sim,e triste também.
Conheço essa dor interior,a espera na incerteza das coisas.
A rapariga á chuva,sonhando com praias cheias de sol,com palmeiras
e hoteis de charme.
E a chuva...e o vento que uiva e fala-nos de coisas estranhas.
Depois,memórias de infãncia,de seus pais,de sua casa,de cheiros e ecos que permanecem no tempo...
Adorei,é lindo.
Por favor, consulte urgentemente uma boa gramática e reveja Classes de Palavras.
E, já agora, leia muito em qualidade e em quantidade.
Quando escrever, pense bem no que quer expressar, organize o pensamento e, só depois, faça frases muito curtas, muito simples, sem arrebiques. Frases do tipo "Eu tenho um cão." ou um pouco mais complexas-- "Eu tenho um cão e gosto muito de chocolate".
Olá DR., a rapariga sempre à chuva, faz-me lembrar alguém que eu conheço: todo o Inverno sempre a chuva a bater nas vidraças, foi uma tristeza, sempre em casa, parada à espera do sol, dores nos ossos, recordações tristes a invadirem-lhe a alma, se ao menos pudesse andar, mas as pernas sempre cansadas... finalmente chegou a Primavera, tentou descer a escada e não conseguiu, enfiou-se no quarto, de porta encostada para disfarçar, para não entristecer as pessoas de quem gosta: - mãe! mãe! mãe! som bonito este, mas que nos preocupa quando não estamos a cumprir, ela saíu do quarto dirigiu-se ao hospital e fez um esforço, as pernas melhoraram um pouco, até que venha o Inverno outra vez, com a mania da chuva e estrague tudo de novo; talvez não! o milagre de ser mãe, tem muito que se lhe diga... Talvez a rapariga da chuva, também seja mãe, por isso seguiu caminho!
O DR. é pai, ser pai não é bem um milagre, mas é um acontecimento muito nobre! - pai! paiii! repare no som, é como uma melodia... eu adorava este som, terminou com uma simples palavra "filha".
Repare nos sons da vida, DR.
Cumprimentos.
Estava a ir, chegar, tão bem, a rapariga à chuva...
«Não acaba, este inverno, esta solidão magoada,»
Ainda vai no Inverno, homem?
Oda-sef, lá vem ele com as dores!
Fico-me com a rapariga à chuva!
Nota: Peço, sentidamente, desculpa por ter escrito oda-se com f no princípio, aqui vai a correção com o f no fim. Espero que assim já não choque a alma sensível que moderou o comentário, e parabéns pelo refinamento, educação acima de tudo, mesmo que nos odamf a cabeça!
(nada de risos, a crónica é de choro literário intenso, e assim deverão ser os comentários)
Está calor agora...
Tenho saudades do frio,da chuva...do uivo do vento,das gaivotas
que todos os dias as fotografava,em cima de candeeiros de rua...
tenho saudades de um golfinho...