Corrupção: "emprego" de alguns, desemprego de muitos
Mais uma crónica da secção Gestão de Fraude, desta vez, da autoria de Carlos Pimenta
Carlos Pimenta
7:09 Quinta, 12 de Novembro de 2009
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1. Os carteiristas eram muito exigentes na formação profissional. Na sua escola de especialização penduravam manequins de alfaiate no tecto, vestiam-nos com um casaco, com uma carteira no bolso interior. Eram considerados aptos para a profissão quando conseguiam apropriarem-se da carteira sem que mexesse o fio que suportava os manequins. Uma verdadeira arte.
Os corruptores e os corruptos provavelmente não têm necessidade de tal formação, porque ela seria longa e porque os cursos universitários de muitos já lhes deram suficiente traquejo nas artes de bem lidar com a economia e esgrimir a legislação. No entanto não será difícil de admitir a sua necessidade, como o faz Paulo Morgado, no seu livro (Contos de Colarinho Branco, Dom Quixote): aprenderiam que a corrupção é um acto de esperteza e que há formas de corrupção dificilmente condenáveis pela lei e outras que não tem condenação associada; analisariam as tomadas de decisão enquanto caminhos alternativos para a obtenção de um fim (um verdadeiro problema económico); esmiuçariam como encontrar os possíveis corruptos e como pagar-lhes sem deixar rasto. Tudo isto sem nunca esquecerem a máxima: "um corrupto deve guardar silêncio".
Duas profissões com impactos diferentes. Os primeiros são comparáveis a um esvoaçar de pardal comparados com a tempestade que os segundos provocam. Contudo quando nos roubam a carteira sentimo-nos indignados, revoltados: fomos roubados. Quando sabemos de um acto de corrupção consideramos frequentemente que não é nada connosco, é com eles, corruptor e corrupto.
Será mesmo assim? A corrupção, tanto em instituições privadas como públicas, é um crime sem vítimas?
2. Os estudos sobre os impactos da corrupção são muitos e peremptórios nas suas análises. Eles mostram, por exemplo, que
· um aumento da corrupção diminui a importância do investimento no produto nacional, diminui o crescimento económico;
· a existência de muita corrupção torna o país menos atractivo para o investimento estrangeiro;
· a corrupção afecta a competitividade das exportações, aumentando a diferença entre exportações e importações, conduzindo ao agravamento da dívida externa, à fuga dos nossos recursos para o estrangeiro;
· a corrupção diminui a qualidade do investimento público; em particular, nas infra-estruturas;
· a corrupção influencia negativamente o rendimento médio por pessoa, ao mesmo tempo que agrava as desigualdades na distribuição do rendimento;
· desvia recursos que deveriam ser utilizados no crescimento económico, logo no combate ao desemprego, e no bem estar das populações;
· quanto pior é a posição do país na lista da Transparência Internacional (Portugal estava 25º lugar em 2001 e está em 32º em 2008, logo mais afastado dos menos corruptos) pior é a sua posição no Índice de Desenvolvimento Humano (que mede o desenvolvimento nas condições de saúde, na educação e nos rendimentos usufruídos pelos cidadãos);
· mais corrupção equivale a serviços governamentais menos eficientes e pior qualidade dos serviços de saúde;
· a corrupção diminui as despesas governamentais em educação;
· a corrupção promove a fuga ao fisco (o corruptor falseia a contas para encher os "sacos azuis" e para encobrir riqueza; as empresas offshore são vias de pagamento; as empresas subornadas vão vender por preços mais baixos e ter menos lucros, logo as receitas governamentais diminuem;
· a corrupção aumenta a poluição, porque reduz a efectividade da regulamentação ambiental, e limita o sucesso de projectos de manutenção da biodiversidade;
· a corrupção está relacionada com o aumento da criminalidade;
Nada disto tem a ver com cada um de nós?
Vivermos num país com mais desemprego, com menores salários e mais desigualdade na distribuição do rendimento, com impostos mais altos, com piores cuidados de saúde e de ensino e outros serviços públicos, com mais poluição, com taxas de juros mais altas, não é nada connosco?
Cada grama de sucata negociada através da corrupção é um crime contra o seu e o meu bem-estar.
3. Quando elege um deputado é para ele representá-lo ou para fazer favores aos seus clientes e amos? Quando apoia um partido político ou um Presidente da República é para ele pagar durante a governação favores recebidos durante a campanha eleitoral? Quando se constitui um governo dito do povo (essa entidade mítica que só é lembrada nos períodos eleitorais) é para os ministros utilizarem o dinheiro dos contribuintes para garantirem empregos quando saírem do governo?
Certamente que não.
Amamos a democracia e esta é enfraquecida em cada corrupção concretizada.
4. Falamos hoje em corrupção porque a "Face Oculta" está em todos os noticiários. Mas já falámos no assunto em crónicas anteriores (por exemplo na crónica nº 15, "A Corrupção e os Portugueses", em 29 de Abril deste ano) porque ela continua a existir mesmo quando não se fala dela.
Continuaremos a falar porque somos um "país de corruptos" apesar de quase todos os portugueses serem honestos.
Continuaremos a falar enquanto as leis não forem mais operacionais, os julgamentos mais céleres e as condenações dos corruptores e corrompidos exemplares.
Continuaremos a falar enquanto o poder executivo continuar a influenciar perniciosamente o poder judicial e as investigações de apuramento do crime.
Continuaremos a falar enquanto os portugueses forem tão condescendentes com quem lhes espeta facas nas costas.
As corrupções, em particular, e a fraude, em geral, são contagiosas. Tanto quanto a gripe. Com efeitos a longo prazo mais perniciosos para a sociedade e todos nós do que a doença.
Caro Carlos Pimenta,
Uma exelente análise a começar pelos carteiristas... corruptos...corruptores...corrupção. Tudo isto é verdade, embora se fale mais do assunto agora por causa do processo "face oculta".
O desemprego cresce...
Mas há ainda um Portugal sério, de pessoas que trabalham e ganham o seu dinheiro com dignidade e honra.
Os portugueses, os bons, os melhores, os sérios...enfim , todos desejam no seu íntimo lutar contra os que vivem de esquemas, favores, falsas aparências. É necessário que cada um na sua profissão denuncie sem medo as falcatruas e as vezes que nos tentam impingir "gato por lebre".
Cumprimentos. Sara
Corromper,é portanto adulterar,
é peitar,é subornar,é envilecer,
é depravar,é poluir,é perverter,
é contaminar,seduzir,falsificar.
E na Política ou Arte de Governar,
e também nas várias Religiões,
há os troca-tintas,os aldrabões,
que o Povo conseguem ludibriar.
Para a corrupção acontecer,
há sempre mais que um autor,
há o agente activo corruptor,
e há o que se deixa corromper.
Tanto o católico como o ortodoxo,
querem o Povo corromper,ludibriar,
mantendo,da Religião o paradoxo,
e a corrupção pode assim medrar.
Um Hidalgo espanhol,reaccionário,
inventou,do Jesuitismo,a Companhia,
e a doutrina dum Jesus fictício,lendário,
foi refinada na sua essência e demagogia.
Apesar de toda a técnica e Modernismo,
e das Ciências a sua constante evolução,
a Igreja aconselha o Cristianismo,
para irradicar,do Mundo,a corrupção.
Corrupção a todos os níveis afinal,
desde o simples plebeu até ao Barão,
desde o rèpublicano ao príncipe real,
desde o Pontífice romano ao Sacristão.
Quase todos os portugueses têm uma vida árdua, honesta, respeitadora dos outros e da sua própria honra e dignidade. Por isso não são nem corruptores nem corrompidos. Por isso não têm enriquecimento, nem lícito nem ilícito.
Alguns poucos são corruptos e defraudadores. Têm enriquecimentos inesperados, que a mente humana não compreende.
Quando há enriquecimento ou é lícito ou ilícito. Se é lícito é de fácil prova: o contrato do negócio, a fotografia da tia de que se herdou os bens, o comprovativo do prémio no casino. Se é ilícito é que é difícil de comprovar mesmo com a descrição de ida ao bingo.
Onde está o problema do "enriquecimento ilícito" para os honestos? No ónus da prova? Políticos deste país, tenham um pouco de vergonha no que dizem!